sábado, 28 de novembro de 2009

Camiñante - Diários da Distância VI

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Partida à revelia.

O deserto se esgueirava ali, bem em suas costas, tatuado como uma dança de serpentes.
Ela, partida à revelia, carregava num pequeno cantil a casa guardada, segredos de poeira.
Existiria música, e também quem pensasse em lhe agradar os olhos com as ondas barulhentas de um mar sem doçura alguma.

Nômade, catava grãos de pensamentos pelas calçadas arruinadas.

Há pessoas que nascem para o ar, outras tem o corpo de águas marinhas,
ela, arrancada das rochas de seu lugar, era do vento do deserto, das areias do passado, das cidades andarilhas.




(Jessiely Soares)




Imagem: Henri Matisse Naked--1941

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vulcânica

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Quando todos os versos
ainda eram jovens

numa juventude tão profunda
que ainda era possível senti-los tremer

a minha pena cansada
escrevia sob a luz que jazia
aos pés do candeeiro

Era algo tão recentemente nascido
que me era difícil distinguir os filhos

E a poesia era de um vento tempestuoso
que não me deixava ter noites de paz.

Agora, depois de tantos versos passados
tudo parece adormecido
antes mesmo do meu sono pesado
se instalar em minha cama vazia.

E a pena, parece ter estado fincada no tinteiro
sem candeeiro nenhum.

Me torno, pouco a pouco, um arquipélago
onde nadam pensamentos transparentes

Com os versos que já foram vulcões
agora em repouso
como poesia-magma
( poemas-imprevisíveis )
dentro do meu ventre.



(Jessiely Soares)

Diários da distâncias V

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Como se eterno e sacro fosse
eu me calo aos seus cuidados

e mando para você,
pensamentos ordenados
como trabalho de artista.

Eu, pintora de pensamentos
deixando marcados no vento
coisas lembradas à distância

romance de tintas frescas
pintado em telas de partida.



(Jessiely Soares)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Poeminha para um dia antigo

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.


Era sexta-feira santa
e nada era mais claro
na sequência de postes
pela madrugada

que os teus olhos
de Recife antigo
- refletindo vinho barato -
na calçada.




(Jessiely Soares)



Como é de se esperar, a imagem tem dono: Olha ele aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quinta estrela

http://mob185.photobucket.com/albums/x93/perdida2007/MULHERES3/estrela_mulher.jpg?t=1242309515


Eu poderia,
numa hora dessas,
ser alguma atriz.

Encenar uma peça
onde no fim da festa
pusesse meu sonhos na ponta da quinta estrela

deixando-os
pendurados
de cabeça para baixo

por um triz.

Ou será
que em todos esses devaneios
em toda essa ideia de esquecer meus anseios

eu já não o fiz?






(Jessiely Soares)

sábado, 14 de novembro de 2009

Diários da distâncias IV

*




Hoje eu estive um dia inteiro só.
Pode-se reconhecer a solidão muito facilmente: Todos os ecos do mundo respondem em apenas sua voz, as paredes são espelhos de um ocaso e há, normalmente, músicas a rolar no ambiente. Ambiente esse que certamente estará mudo.

Nenhum homem deveria estar sozinho sem querer estar. Nem mesmo Baudelaire.
Ele, que concebeu a solidão como virtude, deve, em algum momento da vida, ter sentido essa dor lascinante de que lhe faltava teto e chão.

Solidão é estar presa à janela: a mão em concha, a esperar sereno para companhia, debaixo de um o céu vertendo azul.
O corpo, silenciosamente deitado, buscando sonhos; o sono escondido debaixo do travesseiro.
Nada, nada, completamente nada pela casa. Um cais vazio, barcos largados pelo mundo, garrafas em busca de destinatário.

Telefone mudo.
Porta-retratos mudos.
Meia luz na sala muda.
Um milhão gritos surdos enterrados no peito.

Nenhum homem deveria estar só por obrigação. Sem vinho e nem poesia.
Nenhuma mulher deveria estar sozinha no meio de um sábado de Sol, com esse gosto de musgo grudado nos olhos.
Nem mesmo eu.



(Jessiely Soares)