Era sexta-feira santa
e nada era mais claro
na sequência de postes
pela madrugada
que os teus olhos
de Recife antigo
- refletindo vinho barato -
na calçada.
(Jessiely Soares)
Como é de se esperar, a imagem tem dono: Olha ele aqui.


Eu poderia,
numa hora dessas,
ser alguma atriz.
Encenar uma peça
onde no fim da festa
pusesse meu sonhos na ponta da quinta estrela
deixando-os
pendurados
de cabeça para baixo
por um triz.
Ou será
que em todos esses devaneios
em toda essa ideia de esquecer meus anseios
eu já não o fiz?
(Jessiely Soares)
*
Hoje eu estive um dia inteiro só.
Pode-se reconhecer a solidão muito facilmente: Todos os ecos do mundo respondem em apenas sua voz, as paredes são espelhos de um ocaso e há, normalmente, músicas a rolar no ambiente. Ambiente esse que certamente estará mudo.
Nenhum homem deveria estar sozinho sem querer estar. Nem mesmo Baudelaire.
Ele, que concebeu a solidão como virtude, deve, em algum momento da vida, ter sentido essa dor lascinante de que lhe faltava teto e chão.
Solidão é estar presa à janela: a mão em concha, a esperar sereno para companhia, debaixo de um o céu vertendo azul.
O corpo, silenciosamente deitado, buscando sonhos; o sono escondido debaixo do travesseiro.
Nada, nada, completamente nada pela casa. Um cais vazio, barcos largados pelo mundo, garrafas em busca de destinatário.
Telefone mudo.
Porta-retratos mudos.
Meia luz na sala muda.
Um milhão gritos surdos enterrados no peito.
Nenhum homem deveria estar só por obrigação. Sem vinho e nem poesia.
Nenhuma mulher deveria estar sozinha no meio de um sábado de Sol, com esse gosto de musgo grudado nos olhos.
Nem mesmo eu.
(Jessiely Soares)

De todas as faces das minhas angústias
essa, aqui, refletida na mesa
entre corais e bandejas
essa é a que mais me domina.
Essa, coberta de tantas esferas
essa que a tudo se assemelha
essa que reflete e verseja
essa que mais me ilumina
é a que mais me amedronta.
Essa que me acompanha
quando nada mais me encontra.
Essa que eu nunca confesso,
essa, com a qual nunca sonhei
essa completa e disforme
que me prende e não some
essa estranha insone
essa, meus caros leitores,
essa que sou eu mesma
embebida em tantas tristezas
que eu já nem lhe sei mais o nome.
(Jessiely Soares)

Gotejou-me
e eu era terra fértil.
Brotado
decidiu não vingar.
Caule partido.
Deserto imperando,
folhas, raízes, navios de ar,
sem hora de lançar âncoras.
(Jessiely Soares)

"Se as minhas mãos pudessem desfolhar"
(Garcia Lorca)
Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
(Paulo César Pinheiro)

É, meu bem, as coisas andam fazendo sucesso.
Depois da ideia magnífica do Paulinho, o "Mulheres Nuas" o projeto começou a se espalhar pelo país.
Na sua segunda edição, agora aqui no Nordeste (uhul!) estaremos no Maranhão.

Não sei porque
ela gosta tanto de balé
e nem sei a quem saíram
os seus cabelos lisinhos.
Sei que me faz falta
quando ela não corre na casa
mesmo quando saiu apenas
para a casa da vovó
ou pro parquinho
Sei que ela um dia seguirá seu
destino...
Mas, eu sou como ave.
Enquanto posso, aconchego-a nos braços
faço o dia dormir com cuidado
e guardo a pequena em meu ninho.
(Jessiely Soares)
Imagem: Jessiely Soares

Eu via a novela,
ela brincava com canetas.
Impulsionando-as de um trampolim
de arranjo de flores.
A cada empurrão
uma caneta gritava
"a água está quentinha"
e o estrondo se dava
em cima do vidro da mesa
Num misto de sons e cores.
E a minha pequena ria,
ria,
a cada caneta
que das pequenas mãozinhas
pulava travessa
Por falar em coisas que se vê
não vi mais a minha esperada novela
mas, apenas a pequena
e a brincadeira inventada,
por sua azul-piscina inocência.
(Jessiely Soares)

pé ante pedra
ela pula os degraus
até embaixo.
eu gritando feito louca
"Olha o carro!"
ela apenas sacode os cabelos
de fino embaraço:
"Não há. Posso atravessar?"
antes que eu lhe diga
sim
já está do outro lado.
Independente
quer ser ela
ainda de tranças e meias.
Não faz idéia do que é
caminhar pedra ante pé
por uma vida adulta inteira.
(Jessiely Soares)
Imagem: Jessiely Soares
http://andreespinola.blogspot.com
Só risco o teu céu
em dia de chuva e de vento
e canto no teu muro
para te acalmar
Sempre que há tempestade.
Quando o céu fica azul
faço o caminho inverso
volto pra o teu inconsciente
pra teu esquecimento efêmero
E nada mais te peço.
Só quando os raios desfazem
a paisagem dos teus desejos,
tu me trazes de volta,
com as asas negras
pousadas em teu peito.
A primavera é só tua
entre noites de lua e concreto.
No frio, vulnerável,
reacendes-me
Só eu sei clarear o teu inverno.
(Jessiely Soares)

Com tantas cores em giz
ela desenha um mundo
entreaberto
uns poucos pontos de luz
a serem pescados
uns rápidos vagalumes,
um cavalinho que trota...
não percebeu no entanto
que por uma onda de pensamentos
escapariam
todos os desenhos
o céu
tão bem pintado
escapou pelo rasgo provocado
no rasante entardecer da gaivota.
(Jessiely Soares)

Pequenos espaços e segmentos se agrupavam na manhã.
Seu sorriso, todo incompatível com as sombrinhas de Boa Viagem, ofertava algo entre água doce e paz de pedra.
Era de um desejar tão ameno que pintou de mansidão a onda, aquela que carregou minhas sandálias, quando a maré subiu a sua ordem.
Eu fui pega desprevenida. Veja só, contra o amor não há fator de proteção solar!
Você chegou como sombra em pleno caminhar Sol.
Não sei como fez isso, mas de lá pra cá, plantou-se mais verde na minha íris.
O seu cuidado fez brotar plantação. Os girassóis nem adormecem de tanta ansiedade.
Algo no seu corpo me diz que a safra será boa esse ano.
(Jessiely Soares)

Quando teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
e teu corpo
serpenteou para pega-lo
Não poderias prever
que a divisão dos teus medos
constava de monossílabos
e pequenos estilhaços.
Se tu tivesses me previsto
eu não seria tua pintura
impressionista.
Nem Maria,
- por Eça de Queirós,
tão perfeitamente construída -
Cruzando, com rubro guarda sol,
as ruinas do teu fado.
Se teu Cem anos de solidão nao caísse no meu colo
assim,
como dado viciado do destino,
e a mancha não nos tivesse violentado
eu não te diria que o escuro tem braços,
e, somente nós não sabíamos.
Se tu me soubesses antes disso
eu nem saberia do teu abraço
Nem da marca indelével,
de um sabor que não cruza a calçada
Feita de manhãs e cafezais
pintado num passado amanhã despedaçado:
No dia em que teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
em meu corpo
que, com fúria de pó e fera,
aninhou-se para entrega-lo.
(Jessiely Soares)
Imagem de: ..:Geisa:..

Sem qualquer expectativa
eu me deixo sob a chuva de verão
que assombra a tarde amarela.
Sem qualquer expectativa
eu deixo que tudo atravesse
meu caminho
desconfigurado
ônibus,
pedestres,
gatos.
E o desvario do tempo na janela.
Uma vitrine me sorri
um sorriso de etiquetas
com marcas sobrepostas
diversas fazendas
florais,
sedas.
Assim sendo,
repenso os dias azuis,
diferentes dessa tarde
em que eu pousava minha vida
sobre as cercas de arame farpado
da antiga fazenda
com enormes cafezais
e pequenos cavalos
Tudo era essencialmente
verde e branco.
E agora, sem qualquer expectativa
eu fico de espectadora dos passageiros
da praça.
Ela não passa,
apenas eles,
e teu cabelo encaracolado me olha
e me assanha
e perceba: Tu não estás lá.
Um grito mudo me engasga
E por ser um grito mudo
apenas uma criança percebe e não diz nada.
A tarde se tingiu, de teimosa e cinza.
Com alguns tons dispersos de músicas etílicas.
Os bares começam a encher.
Sem qualquer expectativa
eu ainda sopro um beijo
para o teu rosto
que crispado de sonhos
passeia num ônibus lotado
depois do trabalho
Sonhos também cabem no proletariado.
O vento assobia
as nuvens se cerram
e os postes agonizam o calor da lâmpadas
Eu, enfim, aceito a impossibilidade.
Sigo a vereda que me cabe
aquela na ponta da calçada.
Teu nome amassado num pedaço de guardanapo.
Constelações sobre a cidade desenham um vácuo.
Teu gosto anda gravado nelas.
Selvas negras de asfalto.
O mundo inteiro faz barulho.
Um ruído insone de eletrodomésticos
e pais e mães recém chegados.
Anoitece em toda a vastidão do meu desejo.
E eu não te posso ver
porque tuas pontes guardam apenas o Capibaribe...
Alguém me oferece um cigarro.
A noite anda preta e conversa comigo.
Fala da solidão dos teus rios. Eu não sorrio.
E sem qualquer expectativa eu só me deixo sob a chuva.
Junto aos negros gatos.
Algumas poças de lama e toda essa vastidão desumana
que se propôs a ficar exatamente no meio de nós.
Por te querer perto,
e por seres impossível e carinhoso
Algo como pintura impressionista em cenário de inverno.
Eu te ando, eu te quero, e ouço toda esse multidão
e os candeeiros recitarem teu nome.
Eu, ilha, cercada de teu mundo por todos os lados, me calo.
(Jessiely Soares)

.
Quero
com um desses quereres indizíveis
como a uma presença
que indefinidamente se espera.
Tal qual esse teu cheiro,
que nem sei de onde vem
e pousa aqui, com asas que queimam
insone, comigo, na minha janela.
(Jessiely Soares)
Imagem de: Julieta Domingos

.
terça-feira, nove da noite
o sereno canta leve
uma canção de ninar para os pardais.
Eu sento e converso com o vento
prodigioso
Ele mal me ouve, eu não me conto,
além do mais, entre nós, nem há novidades.
Apenas afago a solidão com uma das mãos.
Com a outra aceno
para minha vida inglória
Minha grave e séria companheira
das noturnas e angustiáveis horas .
(Jessiely Soares)

Se me encontro
ao teu lado
navego
sem luz própria.
Conto não ser
perigo
para tua vida
e permaneço em silêncio.
Não sei desvendar tuas lendas
ou trevas,
sigo tuas ondulações,
presto-me a ser jangada
enquanto te vejo veleiro.
Contato que me deixes ser brisa
que te sopra em tuas velas...
Mesmo que tu partas pelos mares alheios.
(Jessiely Soares)
No meu interior
Tão controvertido
E sonolento
Tão desprovido de intensidade
E alegria
Entre os pântanos e tristezas
Há um único lugar que o sol
Sangra luz
E tu ocupas o lugar mais bonito.
Em gestos
desatentos
Como em passos
Lentos de bolero
Num olhar cigano ou vagabundo
O sentimento
Esperava calado
Ao dobrar uma rua
Como num lance sereno
De ir e não ir,
Ficar e partir.
Do jeito que se espera a vida inteira.
*

Para pintar essa madrugada
eu preciso das tintas
que deixei em tua cama
Exilada e extinta,
o que me sobra, faminta,
é um baú de memórias
e uma íris morta,
suja e carbonizada.
Para tingir esse céu negro
de alguma espessa camada
de sombras e lágrimas,
é necessário que chova
as matizes exatas...
Eu preciso de teus olhos,
senão, não haverá cor,
para eu recompor a alvorada.
(Jessiely Soares)
Foto: "Acordo a noite"
Autor da foto: Vieirinha

*
Tu, que não me ouves, deverias saber...
Que há agora, distante de ti,
uma ave, pousada.
E canta,
de acordo com o timbre
da minha voz no espelho.
Na tua noite,
sirenes correm a rua,
em busca do paradeiro
de alguém que agarrou a liberdade
por cima dos muros da prisão.
A lua nunca foi tão imensa
quanto para quem a aceitou
com o peito ferido e criminoso.
Madrugadas são palpáveis para quem se oculta nas sombras.
Algum cantador afina sussurros
em alguma das pontes
do rio que te corre nas veias
e alguém adormece na praça
do Arsenal.
Todos já saem pela noite
em busca de luzes amarelas
e vinhos celestiais
Carregam mentiras e passados,
como reflexos de fogos de artifício...
Ao meu redor,
silencioso entre vales,
meu vilarejo dorme.
Uma névoa cai, pesada.
Não há passantes por sob meu peitoril.
E, é preciso dizer, que não os necessito.
Na amarga calma da pequena vila,
a castanheira abriga o pássaro,
pousado sobre o meu parapeito.
E eu vivo a vida inteira, nesse pequeno e absurdo contentamento.
Quem sabe, ao amanhecer
sob o seguro acalmar de tua janela
de terceiro andar,
o som, quem sabe, seja mais,
que simples ecos de metrópole recém-adormecida
Quem sabe, inaudível, ouças...
como um contato benigno com a eterna liberdade,
e já calados, todos os sons que alarmaram a tua quietude,
Quem sabe ouças, sem saber disso,
entre tantas cidades cortadas,
o canto em que tu me habitas, dessa mesma ave.
*
(Jessiely Soares)

*
É escuro
na noite mais antiga
na canção em pleno vento.
É deserto
mesmo quando a chuva
molha
as estradas, as veredas
e as imagens que invento.
E nas coisas que recito
mesmo baixo, sussurrado
sempre há um negro grito
Esse brado escondido
Nessas ruas tão vazias.
Nas palavras que invento.
Nos pesadelos e nos becos,
da poesia como ofício.
(Jessiely Soares)




Casa Vazia. Foto de: Fernando Lyra
Aquela margarida
riscada à caneta
na sua blusa
o tempo e o mundo
apagaram.
Ficou, de tudo, apenas o trapo.
Como o jeito e o sorriso
de estampas de pano
e cheiro volátil.
Destino e vida
feitos de ampulheta intempestiva,
misto de areia, castelo e barco.
Nenhuma garrafa flutua.
Ficou, de tudo, somente o abraço
(Jessiely Soares)

Seus pedaços
se espalham
pela casa
como cristais de saudades
irremediavelmente pintados
pelas tuas mãos ausentes.
Como
se eu fosse
pedra.
Ou chuva, domingo,
relíquia, mormaço...
Deixei de ser coisa inteira.
De pouco me vale essa noite.
A pólvora a qual não ateei fogo,
incendiou-me...
E no momento em que achei
que todo o meu destino
estava num intempestivo
momento reacionário.
Explodi.
De mim, cinzas.
Na minha fragilidade de estilhaço.
(Jessiely Soares)

*
Em todas as palavras
que desenho alheia
em páginas eólicas
enquanto o sono
me pega no colo,
rogo,
para que os sonhos
seguintes
me levem, voláteis,
ao teu encontro.
Sob algum luar,
sem saudades ou destroços...
Entre todas as palavras
que desenho alheia
em páginas eólicas
enquanto o sono
me pega no colo,
eu, deitada tão longe...
re-ordeno as estrelas,
re-incendeio os cometas
e mudo as distâncias.
Re-desenho a nossa vida
sem muro nem vales,
sem estradas covardes:
Em um planeta só nosso.
(Jessiely Soares)

Essa imagem que a câmera aprisiona
- bela - não sou eu.
Não vês que esses olhos verdes
não podem, sequer,
caber nesse rosto?
Vulcões em erupção
deixam tudo em lava e cinza...
Mas esse mar,
esses pontos cardeais,
essa floresta viva,
imagens que a câmera aprisiona,
verde, como raio de inverno em Agosto,
Nem minha retina,
Nem minha ruína.
Toda essa sutil transparência
- como espelho e chuva fina,
não passa de meu esboço.
(Jessiely Soares)

Fotografia: Felipe Ferreira
*
Não sei se é algo em tua pele.
Desde o último vinho
restou algo balsâmico
na boca.
Um certo alívio.
E já que não posso
insinuar as ondas
nem tampouco
resvalar na atmosfera
Gostaria de mostrar,
quando me deito no chão,
o quanto Vênus exerce meu desejo
de ser deusa
- na tua estante
junto aos teus livros de literatura -
Ou sobre tua cama.
Mas o que interessa
é que em nossa última embriagada alucinação
restou algo balsâmico
na boca.
Um certo alívio.
Dizer que te amo
foi a melhor coisa que já fiz na vida.
(Jessiely Soares)

*
Decidiu então,
que sumir seria interessante...
- Por algo que o valha, sempre é -
Mas por aquelas tardes longínquas,
por aquele arrebol de cristal
ou por meus prismas,
- Já não tenho certeza -
Há tempos já não sou mais
aquele rio transparente,
compreende?
Depois da última gaivota virei caudalosa.
Gosto mais de ser solitária que navegável.
Verdades e companheirismos
me afetam profundamente.
(Jessiely Soares)

Mas que névoa
que faz mudar a noite quente
quando ela se converte
em lua morta...
Enquanto eu, atirada, numa súbita e remota
revoada de emoções intempestivas
deixei sob o verso,
o suor e a camisa
de quem agora já cruzou a minha porta.
Mas que lua
que se assenta em minhas serras!
Única, como a cúpula Sistina,
como revoltas, como rubras e finas crinas
dos cavalos que pisaram o meu vento
galoparam os sentimentos em seus cascos
e meus pecados escandalosos
e capitais.
Mas, que nada, que vazio,
que noite!
Quando a brisa embriagada de dissabores
vem trazer-me a janela teu retrato.
Que lanceiro, que tristeza, que diabo...
Enterra meus desejos
numa noite morna e clara.
Do cheiro e das lembranças do futuro que'inda não veio
do medo que eu tenho, desse escuro que receio
reapareces como prece
no meio da noite morta
Deixando a brisa rouca, roçando a minha boca
Me engravidando de saudades
com as tuas mãos eólicas.
(Jessiely Soares)

*
Se você descesse do seu altar
e aceitasse
o convite que faço
nesse ninho branco
que se acende em rua clara
quando o universo
se converte em meu espasmos.
Eu cantaria mil cantigas
adormecidas
para teu desígnios anteriores,
teus juramentos
Para ser mansa, pura, leve
em seu encalço
para ser verso estrelando
seu firmamento
Se você descesse do seu altar
Lua, floresta,
canyon de nossos riscos
Planetas, satélites
luares-de-maio,
conflitos.
eu, nua, em seu céu
como asteróide.
Você, vestido como astro,
com órbita e luz própria...
convertido em infinito.
(Jessiely Soares)

*
A hora em que mais doeu
foi quando você acenou
E tudo o mais fez-se neblina.
Turva,
Mil graus abaixo de zero.
E quando mil pensamentos
voltaram descarrilados
a mesma estação de metrô
De tantas
chegadas e partidas.
Eu trocaria a imortalidade
- se eu assim a tivesse -
por mil vezes de teu sono profundo
Por teus sonhos difusos
sem as despedidas de inverno
Sem esse medo da vida.
(Jessiely Soares)
Esse adeus estampado
em uma página branca
dentro dos sonhos seus,
Não precisa de tele-jornais.
Não precisa de sombras,
derivações,
sintomas,
catástrofes,
Museus...
Guerra ou paz.
Só precisa um olhar mudo,
uma mão que escolhe
tudo,
até restar apenas
uma foto em sépia
de réplicas,
de promessas,
de abismos,
dissoluções
dos meus antigos impossíveis...
E nada mais.
(Jessiely Soares)

A todos que nesse mundo
dormem o sono dos justos,
sonhando com as dívidas
eu desejo muitos anos de passado.
E que suas retinas guardem
o lugar mais insano,
e o sonho mais assombrado
Quanto a mim,
que nesse frio de medo
brinco com tua imagem
quero amanhecer com a lua.
Cantando os terríveis sons
de brisas que morreram na noite
da nossa separação covarde.
(Jessiely)

*
Flores pálidas
pendidas, transparentes
Uma luz branca
esvaindo-se nas vidraças
Canto cortante
cristais mortos de floresta.
Pensar que até ontem
tudo era calor...
Resquícios de aromas
paisagens brancas, desérticas...
Pensar em tudo que eu morri
por tanto amor
O teu medo, inconsequente,
assassinou a primavera.
(Jessiely)

Se ao menos
o que quebrasse na distância
fosse o ar
a dor
ou mesmo a letra
eu podia,
arriscando uma centelha
prender uns versos e uns prantos
Mas o que quebra
é mais do que eu posso,
é mais que qualquer coisa
que eu queira,
O que quebra é esse amor
que range os ossos
e que tenta apagar
fatalmente
essa fogueira.
(Jessiely)



Por essas ruas, por essas luzes amarelas...
Fui deixando pequenos contrastes
- amor e pedra -
por passos não contados no caminho
Medindo
sob estrela e a aquarela
sob o canto do bêbado e a espera
o rubro alvorecer no céu antigo
Conjuguei em versos tais,
- de universo e outros vinhos -
a certeza da entrega
em cálidas noites
de serenos antigos demais...
Os passos não contados
que ficaram de tantas vidas
já não cabem...
nem nessas luzes - segredosas de passados -
nem nessas pedras de rua
de madrugadas imortais.
(Jessiely Soares)
*Foto do Recife Antigo:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=518469

Com pés e mãos acorrentadas
Às rochas montanhosas,
De alguma região geográfica esquecida do globo,
- talvez inexistente,
ou existente apenas em mim mesmo -
Vejo o passar da noite,
O amanhecer e o crepúsculo do dia.
- a lua é sempre
a melhor companhia.
passo menos tempo com ela,
já o sol, cega,
demora, queima
e destrói minha harmonia -
Não roubei a faísca do fogo dos deuses,
Nem mereço ser prisioneiro de um monte
Para sofrer diante de tal suplício,
Ficar inerte, preso ao chão,
Vendo uma águia vir do horizonte,
Pousar em meu peito, rasgar-me com seu bico,
E vê-la, saciada, devorar meu coração.
Antes fosse um fígado!
Pelo menos teria ainda um coração...
(Autor: André Espínola)
http://andreespinola.blogspot.com
* Por ser tão linda, tive que furtá-la dele.

*
Se a mezzo-soprano
te soprasse uma promessa
descuidada e apressada:
Vivaldi nos auto-falantes...
Mozart, rock. tecno-funk...
se a mezzo-soprano
sussurrasse:
...Inquieto esse desejo!
e te desse esse beijo
transformasse tesão
em fato ,
em ato
num canto qualquer...
será que te esqueceria?
será que seria mais fácil?
Fetiche,
Lapso,
Regente,
Saxofone e harmonia
o coro canta
cuidado!
e ela sussurra:
que se dane!
se a mezzo-soprano
descuidada e apressada:
tropeçasse no ar
vivaldi soando
funk, punk
e o tombo
sonoro
retumbante
Braços abertos
Como asas, planícies,
Balé, vida e a voz ressonante que
Insiste e
Incide...
Se ela sussurrasse:
e te desse esse beijo
transformasse tesão
em fato, em ato.
num canto qualquer
mozart,
rock... electronic music
colapso.
Inquieto esse desejo!
o coro canta
cuidado!
e ela sussurra:
que se dane!
Na noite mal cuidada
de vodka,
vivaldi, lago dos cisnes,
nona sinfonia
Ele, moreno,
Contratenor, Dj, hinduísta.
Com ela, a mezzo-soprano
num drama musical;
Grand Ópera verídica
de uma vida insone.
o coro canta
cuidado!
e ela sussurra:
que se dane!
*
(Rosa Cardoso e Jessiely Soares)

Por essas ruas, por essas luzes amarelas...
Fui deixando pequenos contrastes
- amor e pedra -
por passos não contados no caminho
Medindo
sob estrela e a aquarela
sob o canto do bêbado e a espera
o rubro alvorecer no céu antigo
Conjuguei em versos tais,
- de universo e outros vinhos -
a certeza da entrega
em cálidas noites
de serenos antigos demais...
Os passos não contados
que ficaram de tantas vidas
já não cabem...
nem nessas luzes - segredosas de passados -
nem nessas pedras de rua
de madrugadas imortais.
(Jessiely Soares)
*Foto do Recife Antigo:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=518469

Prematuridade
Nesses dias de ocaso
ao meio-dia
em que tudo lança, fere, sangra, mata
me deixo em pedras frias na calçada
na esperança de chocar-me
contra o vento
Nesses tempos
em que tudo morre, tudo esfria
desenho a última dor da poesia
que se deixa adormecida ao relento
E por horas, inocentes e mostruosas
espero tua voz
vir me carregar antes do Sol...
Não é o que me dizes que me dói
a minha dor é porque tu não
me salvarás à tempo.
(Jessiely Soares)

*
Se fez luar tão rápido
Que não modifiquei o verso
Nem questionei teu abraço
Se fez luar tão rápido
Que tudo o que restou
não se deixou intacto
tampouco nos iluminou
Se fez madrugada?
Não vi!
Parti antes que a escuridão
Se perdesse de novo de mim
Ficaram pedaços?
Não sei
Guardei na memória:
O que errei,
Meus súbitos desejos
E a antiga dor agreste
Se fez noite
De repente
Em tudo que me disseste.
(Jessiely Soares)

estive pensando
no peso de duas estrelas
no vácuo do universo
e em dois dedos de boa prosa
com uma cachaça
no invernar do brejo
ao som de qualquer violeiro
ou dos causos perdidos
do velho Joaquim
e tudo que me faz feliz
mesmo nas horas loucas
de fogueira e violão
é eu gostar de você
e você, contudo,
também gostar de mim.
(Jessiely)

*
Antes que acabem
as rendas brancas da lua
e o grito da noite,
o último medo rasgará o vento.
Enquanto quatro mãos costuram,
placidamente,
estrelas nos pés de Deus,
o horizonte imerge
numa última sonata...
Antes do nascer
do dia,
na vermelha morte da madrugada
Haverá fogo nos teus olhos
e nas duas vidas
que habitam em ti,
desesperadas por amanhecer
Uma não irá morrer.
A outra,
sim.
(Jessiely)

Pode um canto triste
moldado entre folhas
pousar no meu luar?
Um dia, era manhã
quando tu 'inda cantava
e eu ainda estava lá
Sangrou a última pedra
passou o último dia
Tingiu tudo a escuridão...
E tu cerrastes
meu futuro
como versos escondidos
entre o risco
e a imensidão.
Canta agora,
meu destino
canta o canto mais doído
da velha morte que partiu
No clarear da solidão
foi-se tudo, foi-se a lua,
nos deixamos feito chuva
na última curva do rio.
(Jessiely)

*
Não, eu não sou pernambucana
nascida
Mas meus anseios crescidos na Paraíba
me deixaram tal qual Ariano:
"Paraíba é colo, recanto
mas Pernambuco
me veste de vida."
Nos olhos, do meu Recife
(assim, me apropriando)
vi o arrebol de sonhos
na noite que morre calma
Fui Marco Zero de bêbados
cantando vinhos e dores
quando a musa brilhava alta.
E surgindo, imersa em luz,
tingindo tudo que existe.
Eu, batizada por fina chuva,
namorava o capibaribe
(Com minha visão bordada
na cidade em que não reside)
"- Oh, Pernambuco que amo!
Oh,
___Recife,
______linda!"
Rasga-me a alma, confesso:
"Adota-me, pois não,
não sou pernambucana nascida
Mas é por te amar, que te verso!"
(Jessiely Soares)
Foto: Felipe Ferreira - http://www.flickr.com/photos/ff_fotograf
Agarrado no vento
Foi-se o teu rosto pra longe
Onde mora o absurdo
Naqueles dias
Os rios cantaram
- É primavera
Ao redor do mundo!
Mas eis que em mim
O frio dançava
Feito de orvalho e pedra
Entre o horizonte e o mar
Teu amor era a última morte
Anunciada
Onde viver seria algo eterno
Não me atrevi a ir além dessa dor
Virei sereno.
Fingi-me inverno
(Jessiely Soares)
E foram-se luas e flores
Até o tempo desabar,
Quase na palma da mão.
Foram-se doze primaveras
As mais lindas bailarinas
E algumas mortes, esquecidas
Dias, sim
Dias, não.
No doce último sorriso
Bordado de improviso
Naquele último luar
Éramos sonhos como medo
Enquanto as luas escolhidas
Brincavam de voar.
*
Não ouça o triste canto
que soa longe
Que o teu medo
desconheça
tal infortúnio
Não aceita a ilusão
que se oferece
Nas falsas brumas
desse desaguar
noturno.
Tesouros de Sal e nácar,
ouro e olhos
Engolidos
em mortas ondas
- frio e calcário -
Levados a profundos
reinos naufragados
Que ecoam
num madrugar
intempestivo
Não ouça o triste canto
que pressagia
"Guarda o teu medo
como à vida
O mar é a morte
do infinito."
(Jessiely Soares)

*
Enterrem minha alma
no espaço indivisível
entre a cruz e a espada.
E sobre ela
lancem olhares
e críticas perversas
Mas não deixem de matá-la
Enterrem meus passos
na curva do caminho
entre o vento do destino
e a voracidade do rio...
Mas não deixem
meu passado
exposto ao relento
no impetuoso frio.
Levem em sacos vazios
as últimas palavras
de alguém que morre
sem conseguir ver
o tão sonhado pôr do Sol
Rabisquem em pedaços de papel
o poema que nunca foi escrito
Inenarrável!
Pedaços de um sonho qualquer
esquecido...
Mas, não deixem que morram
meus mundos
nem meu amor-lírico
Enterrem meu corpo
antes de enterrarem meu poema
Pois eu não sobreviveria
a morte de um filho.
(Jessiely Soares)

Queria ser por um dia
artesanato qualquer
pelas ruas de Olinda.
Ser talhada em madeira
pintada com a cor da rua
e do céu que se escancara.
Queria ser exibida
aos gritos
pelo vendedor
no meio dia
nas ladeiras
íngremes
E no meio de qualquer troça
que você notasse
e por qualquer preço
me levasse pra colorir
seu quarto
Mas que toda noite me visse.
(Jessiely Soares)
Foto de Felipe Ferreira -
www.flickr.com/photos/ff_fotografia/2040962840/in/photostream/

*
o que resta dos desenhos na areia
quando o vento vira furacão,
são retalhos de alguma saudade
espalhados em cacos revoltos no chão.
O que rasga o peito a punhal
quando a lágrima cismada entala e não cai,
são gritos recém paridos de uma artéria triste
que se contorce e faz
o medo ressurgir regurgitando espíritos
desfazendo a paz
E a lua que jaz serena
não sente o pânico a me assaltar
Derrama sentada e sonolenta
brancos raios cheios rasgados pelo ar
Finge tranquilidade deixando-se imensa
na amplidão
Mas enquanto suspira estrelas
tentando inspirar algum bêbado ou alguma canção
Repensa a vida inteira
e queixa-se também da mesma solidão.
(Jessiely)

*
Nessas tardes
que o vento faz escarcéu
com as folhas barulhentas
da palmeira
O primeiro apontar de uma estrela
não pode nunca,
ser notado
o nascer da estrela
solitária
embriagada de frio e beleza quieta
não poderá entusiasmar,
não será declamado em versos,
nem transformada em dores
pelas dores inquietas do poeta
E ela aponta
no sétimo céu
enquanto esse vento quente
continua a fazer alarido
E se surge astros oníricos
que habitam teus sonhos mais doces,
assim como a luz dessa estrela
habitando tão longe
não poderei perceber...
nem descrever teu sonhar
Teus sonhos ecoam longe,
longe demais,
para que possam me inspirar.
(Jessiely Soares)

*
Dou-lhe a minha vida
amanhã,
Quando você
me puser
nas mãos
E desenhar
meu retrato
em um pedaço surrado de papel
Em qualquer botequim dessa vida,
Enquanto pensa num jeito
de levar no peito
um pouco menos de cachaça
e mais dinheiro pra família
Dou-lhe os meus olhos,
amanhã,
Depois de ter você cansado
pedindo jantar e abraço
"O trabalho me cansou,
arruma a cama, amor?"
E dou
meu melhor sorriso...
Amanhã
Logo cedo,
Enquanto você procura
o outro par da sandália,
a velha camisa rasgada,
esperando o cheiro de café
se espalhar pela casa
Será domingo, amor,
será domingo.
E o sorriso,
que fica na cama,
logo depois de deitar
no afago cúmplice
de tantas manhãs
Ah!
Dou-lhe a lua, amanhã,
amor,
assim que você acordar
(Jessiely Soares)

O meu amor
não entende de medidas,
nem de distância nenhuma.
Nem mesmo conhece
a nuvem,
que de tão alta,
não se perfuma.
Não sabe guardar
segredos,
não entende de medos,
não teme as ausências
e por isso,
não agoniza, perdido,
nas tristes noites da rua.
O meu amor
é inteiro
enquanto é dividido.
Dessas angústias ele não entende,
nem de dores
ou de tristeza alguma.
(Jessiely Soares)

*
Vou redesenhar os mapas
perdidos no limbo
da minha memória
falha.
E enxugar as goteiras
da minha pele
nas areias
espalhadas
pela estrela primeira
nos monte alheios
da noite fechada.
E não mais regredir passos
nos espaços escalados
por algum cego indeciso;
Creio porque quero crer
milagres não me seduzem
Envelhecer é ofício divino.
(Jessiely Soares)
Seu olhar causou
arrepio
E a noite sumiu
Passou.
Agora sou só a sua imagem
repetida
Em prosa,
Poesia
Versificando
Dor.
Teus olhos
Refletem raios solares
Sobre a terra fértil
Do teu rosto
Teus lábios
Respondem a apelos secretos
E o samba embala...
Me embala.
E pena que Noel
Não saiba
Que roubo o samba que te lembra
Todas as noites antes de dormir...
"Faço junto do piano esses versos pra você
Esses versos pra você, esses versos pra você"
E adormeço fingindo
Que te tenho aqui.
Separo
A dor das visões
Que me prendem
E me dilaceram
Divido
As pressões inatingíveis
As horas
desenham
O tempo
Que coloca em
movimento
Os meus
muros
e
divagações
E finjo-me criança
Enxergando de novo
Carrosséis em nuvens
Sem imaginar
A tempestade que se aproxima.
*
Calada
Nessa casa vazia de almas
E tão cheia de gente
Pessoas que vão e vem
Somente.
As horas passam
E ninguém nota
Que estou sozinha
Um eco sem pudor
impera
O ambiente claro
Irrita os olhos sensíveis
Do coração
E o espelho reflete
atrevido
A esfinge que sou
Dos olhos pra fora.
Dorme.
Que teu olhar
cerrado
Abre de outro lado
Uma janela
Modesta.
E Enquanto
Eu sento
E escrevo sozinha
acredite
Sou o fio de luz
Que te banha
Pela fresta
Da tua persiana
Entreaberta.
(Jessiely Soares)
Não acho motivo algum
Para definir
As vidas
entrelaçadas
Nem todos os filósofos do mundo
Compreendem nossas páginas recém riscadas
Como nenhum dos sorrisos
noturnos
Podem sorrir com tanta suavidade
E não desejo objeções
Sonhos,
Palavras ou
frases
Sou apenas
Pardal brincando
Em tuas manhãs
Enevoadas.
(Jessiely Soares)
Não havia moinhos de vento
Nem devaneios visíveis
A olho nu
Só você segurando meu olhar
Como quem sustenta nos braços
Os hemisférios
Norte e sul.
E o céu como
Quem quer calar
Para não se envolver
Nas bocas que a vida separou
Deixou-se chover
suavemente
Entre nuvens dormentes
Mas não ficou azul.
(Jessiely Soares )
Vem
Escreve teus versos sobre a maré
Essa que desatina louca
As vertentes do fogo
E que instiga os sonhos
De quem se atreve
A perder seus versos
Nas vagas
leves
Segue
Que a noite é curta demais
Para os desenhos na areia
Para a grafite no muro
Para a nudez da lua
Pára de respirar e
Faz os versos bandidos
Nessa claridade crua
De desenhar sensações
Em rabiscos de palavras
Descansa
Mais leve agora
Depois de parir
Tua verdade obtusa
Nesse rodopiar seco de mundo
E estações de rádio
Agora
Dorme
Depois da mensagem
Jogada
E o risco de teus sonhos
Vai durar o bastante pra acalentar meus devaneios.
Até outra lua
Recriar a cachaça
Que embriagará outros amantes
Numa esquina
Ou sobre as pontes
Que cortam a cidade
De muitos artistas com sonhos bêbados.