Poeminha para um dia antigo

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Era sexta-feira santa
e nada era mais claro
na sequência de postes
pela madrugada

que os teus olhos
de Recife antigo
- refletindo vinho barato -
na calçada.




(Jessiely Soares)



Como é de se esperar, a imagem tem dono: Olha ele aqui.

Quinta estrela

http://mob185.photobucket.com/albums/x93/perdida2007/MULHERES3/estrela_mulher.jpg?t=1242309515


Eu poderia,
numa hora dessas,
ser alguma atriz.

Encenar uma peça
onde no fim da festa
pusesse meu sonhos na ponta da quinta estrela

deixando-os
pendurados
de cabeça para baixo

por um triz.

Ou será
que em todos esses devaneios
em toda essa ideia de esquecer meus anseios

eu já não o fiz?






(Jessiely Soares)

Diários da distâncias IV

*




Hoje eu estive um dia inteiro só.
Pode-se reconhecer a solidão muito facilmente: Todos os ecos do mundo respondem em apenas sua voz, as paredes são espelhos de um ocaso e há, normalmente, músicas a rolar no ambiente. Ambiente esse que certamente estará mudo.

Nenhum homem deveria estar sozinho sem querer estar. Nem mesmo Baudelaire.
Ele, que concebeu a solidão como virtude, deve, em algum momento da vida, ter sentido essa dor lascinante de que lhe faltava teto e chão.

Solidão é estar presa à janela: a mão em concha, a esperar sereno para companhia, debaixo de um o céu vertendo azul.
O corpo, silenciosamente deitado, buscando sonhos; o sono escondido debaixo do travesseiro.
Nada, nada, completamente nada pela casa. Um cais vazio, barcos largados pelo mundo, garrafas em busca de destinatário.

Telefone mudo.
Porta-retratos mudos.
Meia luz na sala muda.
Um milhão gritos surdos enterrados no peito.

Nenhum homem deveria estar só por obrigação. Sem vinho e nem poesia.
Nenhuma mulher deveria estar sozinha no meio de um sábado de Sol, com esse gosto de musgo grudado nos olhos.
Nem mesmo eu.



(Jessiely Soares)

Desesperación


De todas as faces das minhas angústias
essa, aqui, refletida na mesa

entre corais e bandejas
essa é a que mais me domina.

Essa, coberta de tantas esferas
essa que a tudo se assemelha

essa que reflete e verseja
essa que mais me ilumina

é a que mais me amedronta.

Essa que me acompanha
quando nada mais me encontra.

Essa que eu nunca confesso,
essa, com a qual nunca sonhei

essa completa e disforme
que me prende e não some

essa estranha insone

essa, meus caros leitores,
essa que sou eu mesma
embebida em tantas tristezas
que eu já nem lhe sei mais o nome.




(Jessiely Soares)

Sueño

http://arturguimaraes.files.wordpress.com/2007/07/sonho1.jpg




Gotejou-me
e eu era terra fértil.

Brotado
decidiu não vingar.

Caule partido.
Deserto imperando,
folhas, raízes, navios de ar,

sem hora de lançar âncoras.




(Jessiely Soares)

Deserto de olhos


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Há muito não chove.

Pregado no lodo que sequer existe
está meu aprendizado sobre a vida:

Uma lágrima solidificada,
uma mão calcária,
uma fagulha,

umas coisas miúdas,
um álbum de fotografias,

algumas rachaduras mortas,
estraçalhadas de ar.

Uns sorrisos que vovô me dava
balançando na sala
numa cadeira com panos.

Alguma frase para ser
o arremate dos poéticos enganos
e essa vida, por demais vazia

Tudo nas cicatrizes que larguei
para o vento fragmentar.

Já que esse lodo, que sequer existe
tem alguma coisa que eu ainda queria:

olhos de açude rachados de seca,
ruínas de mares, e essas manhãs em que eu não mais me chamo.

Sutis mortes que ainda me deixarão
fóssil,
cinzas
ou poesia.




(Jessiely Soares)

Cantos para o infinito








Nada cabia ali.
E ao mesmo tempo, cabia um rodopio de ares e gaivotas.

Devagar, com a singeleza dos pequenos afetos, eles se iam e voltavam como marés.
Algumas canções e pingos de água salgada dos cabelos dela, assentavam na areia dos pés dele.

Eram, de repente, soltos em meio a tanta conchas, um veleiro. Com panos de cobrir a vida.

Jovens, decerto, porque ainda eram tingidos com as nuances da inocência.
E todo o paraíso ainda era de nuvens tamanhas que adivinhavam aviões.

E ela nunca havia navegado no Pacífico.
E ele nunca havia visto o Sol nascer no Atlântico.

A vida era uma boca de engolir sonhos, no meio do mar morto, sais de todos os tipos agrupados nos olhos.

E a liberdade cheirava a coisas sublimes.
Eram finalmente dois navegantes das areias infinitas.

Além, muito além do ancoradouro.


(Jessiely Soares)

Diário da Distância III



Agora perceba, agora, que o ônibus partiu
e a casa inteira pôs-se a  me consolar,
perceba que o mundo inteiro
é composto de uma calma gelada.

Se fosse diferente - note que eu possivelmente serei incoerente -
as efusivas divisas não teriam a duplicação das estradas e
não seriam todas recobertas de asfalto brilhante.
(quando eu era menina, entrei no mar de Tambaú e sujei meus joelhos com piche)
e menos ainda convidativas e iluminadas.

E para que tudo isso existe senão para cultuar a distância?

O ônibus já partiu.
Entre o retrovisor e eu, já há léguas.

Mesmo assim, estou aqui,  com esse frio digno de São Petersburgo,
disposta ainda a lhe fazer um aceno. Uma cena...

Para que você compreenda
que esse mundo, nada mais é que uma agonia longa, asfaltada e portadora de saudades
e que nós, coniventes, chamamos de casa

É uma fábrica de distâncias, para que olhos famintos de companhia
sofram as dores que separam todos nós:

habitantes terrestres
de ninhos reformados,
tolos órfãos da pangéia,
animais sem asas.



(Jessiely Soares)

Alvenaria




Alguma coisa entre nós, sempre me prende ao romântico:
ao profano, ao sagrado, ao recanto
onde possa construir um descanso
para deitar e ouvir sua voz.

Quero construir, ao redor dessa arquitetura, uma lagoa
e nela pôr patos selvagens.

Quero um afago de cavalos a correr pelos fins de tarde,
quando a serra se tinge de vermelho

Quero um balanço bem grande para brincar de assanhar os cabelos
de minha pequena

Em uma vida nada barroca.

Um banco de descanso, um pôr de sol soberano,
uma casa-inventada-poema.
Com entradas para ventos que saibam cantar cantigas.

Você e eu. A pequenina.
Desenho de dois poetas, casa de fazer poesia;
Como ecos pelo amor de tudo, como cantos a encantar estrelas.

Casa-Poema de inventar mundos,
casa-poema para criar os filhos,
casa-poema de cimento e telhas.


(Jessiely Soares)



IMAGEM - João Barcelos ( AQUI )

Diário da Distância II




Descobri que meu coração gosta de pontes. Sem importar o rio, os canais: Paraíba, Waal, Capibaribe.
A claridade da água de Porto. O sabor de cerveja das Boas Viagens.

Meu coração gosta da lembrança da pousada com janela pro mar. Do gosto de permanecer adornada pelo Galo da madrugada e por desconhecidos campos de tulipas.

Eu não tenho sensores.
Não gosto de celulares ligados, justamente, porque não sei contornar distâncias pelo fio do telefone.

Eu temo às vezes não ser desse mundo moderno. Por não compartilhar com efemeridade do contentamento da Webcam como porta de saída de para solidão da universalidade.

Meu coração gosta das pontes que cantam frevo. E das que visualizam moinhos.

De distâncias ele só gosta, por ocasião de necessidade: paisagem de pontes, mundos distantes; o homem que amo nos Recifes da vida , a amiga, aventureira, na Holanda e eu, nem ao menos, lhe sei mais a cidade.



Jessiely Soares

Ella





"Se as minhas mãos pudessem desfolhar"

                                         (Garcia Lorca)

Ela, de acordo com o dicionário, flexão feminina de ele. Metamorfose que cabia no vão de uma porta. Algo inconcluso, como um bordado de meio Sol, que não era sequer eclipse.
De mãos meio acorrentadas, com alguns trocados no bolso, era a imagem da perseverança falha.

Nada lhe pertencia.
Apenas recitava ― calada ― alguns poemas de Lorca, em um tempo de desabitar desejos.

Universo incompleto, desprovida de átomos.
Uma nudez, uma paisagem de seca.

Sequer os desvarios lhe perteciam.

Na breve contagem dos dias, se sentia a perfeição de porcelana: Mãos definidas e paradas, coração de singeleza opaca, boneca indiferente com rosto bonito.

E uma metade de um poema esquecido para ser escrito na lápide.



(Jessiely Soares)

P&B



Saudade: Você pousado na sala com uma tez de papel e um sorriso constante.

Deixo minha vida, sentada ao teu lado, 
um retrato, de branco e preto desbotado,


na mudez da estante.


(Jessiely Soares)

Extremos


 Para Nathércia,
Porque todas as Tulipas me lembram ela.



Talvez se antes da rua de pedra alguém plantasse tulipas,
eu sentasse de frente para os meus sonhos e os dissesse:

- Pequeninos, vocês ainda moram comigo?




(Jessiely Soares)

Silêncios



Tenho bordado uma cantiga de ninar por dia.
A noite, tendo ouvido, tem chegado devagar.

Temos adormecido juntas, cantando manhã para pardais.




(Jessiely Soares)

Diário da distância



Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
                 (Paulo César Pinheiro)

Vê, agora eu tenho o tempo. E o tempo é assim, algo infernalmente escorregadio e raro.
Mas, vê, agora eu o tenho!

No caminho de casa, arrebolizada por todos os lados, eu tinha nas mãos uns poucos e fracos cheiros de sereno.  É o cúmulo. Porque eu queria mesmo era poder espalhar esse cheiro em um poema.
Acredita que não pude? Eles se dissiparam na curva anterior ao meu portão.

Agora, note, tenho tempo, sereno lá fora e amigos sofrendo. Tudo isso espalhado pelo mundo.
É melancólico isso, eu tenho tempo mas não tenho a cura. O sereno canta e eu não posso pegá-lo. Amigos em outro hemisfério. Não tenho uma ponte de interligação... Nem um vento para chegar de velas e bicicleta!

Começo a me sentir provisória. Pinto sereno nas paredes. Gotícula após gotícula impregno algumas sensações. Formo rostos conhecidos.

Algumas nuvens se aglomeram na lua pela metade. Certas coisas me prendem e eu perco meu tempo a analisar se, de mais algum lugar do mundo, a lua parece ser tão bonita.

Envolvo meus anseios no cheiro do café, migro para a cozinha, como ave para o Sul.
Minha filha me chama na sala, ela construiu um castelo.

O tempo começa sua triste sina de escorregar, eu tento apará-lo com a xícara, mas ele trisca nela, quebra o encanto, derrama meu café e vai embora. E nem leva os cacos junto, ingrato!

Junto cacos, serenos, pormenores e ainda encontro no chão, embaixo da geladeira, um bilhete amassado de quando suas mãos eram presentes.

Não tenho mais tempo... e é bem aqui que eu recomeço. Todavia, não volto ao ponto da primeira partida.

Senão eu ainda teria seu cheiro e uma pangeia para cruzar horizontes.
(Jessiely Soares)

MULHERES NUAS II




É, meu bem, as coisas andam fazendo sucesso.
Depois da ideia magnífica do Paulinho, o "Mulheres Nuas" o projeto começou a se espalhar pelo país.

Na sua segunda edição, agora aqui no Nordeste (uhul!) estaremos no Maranhão.

De 1º à 4 de setembro. No hall da biblioteca da UFMA. UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO.

Diariamente, das 09h às 18h.
Entrada franca.

Há mais alguns lugares do país prestes a receber o projeto como... Ah, não, não vou estragar a surpresa :)

Aí está o flyer, agora um tantinho diferente, para abrigar tanta gente.
A grande novidade é que temos mais autoras dessa vez.

:D

Visitem-nos.

Abrações,

Jessiely Soares

Pensando Linear



No horizonte, horas antes do dia se pôr no mar
eu, Oceano pacífico, parto
as geleiras
que se tingem na pele dele.

Quem o vê não sabe, com seu jeito
sem alarde
o quanto é do Sulamericano
o seu vento.

Nem sei como ele pode ser feito de textura de neve
e não derreter
com aquele coração - linha do Equador - que arde lá dentro.



(Jessiely Soares)





 ( Pensando Linear ou André Espinola)

Ave Mainha






Não sei porque
ela gosta tanto de balé
e nem sei a quem saíram
os seus cabelos lisinhos.

Sei que me faz falta
quando ela não corre na casa
mesmo quando saiu apenas
para a casa da vovó
ou pro parquinho

Sei que ela um dia seguirá seu
destino...

Mas, eu sou como ave.
Enquanto posso, aconchego-a nos braços
faço o dia dormir com cuidado
e guardo a pequena em meu ninho.


(Jessiely Soares)


Imagem: Jessiely Soares

Giz de Cera



sorriso
de meio dia

e ela canta
e pede biscoito
e água

eu entrego
a revelia

porque acho que tudo isso não acrescenta

ela nada nota

e corre, e pula
e anota

palavras que o vento inventa.


(Jessiely Soares)



Imagem: Jessiely Soares

Azul-Piscina





Eu via a novela,
ela brincava com canetas.

Impulsionando-as de um trampolim
de arranjo de flores.

A cada empurrão
uma caneta gritava

"a água está quentinha"

e o estrondo se dava
em cima do vidro da mesa
Num misto de sons e cores.

E a minha pequena ria,
ria,
a cada caneta
que das pequenas mãozinhas
pulava travessa

Por falar em coisas que se vê
não vi mais a minha esperada novela

mas, apenas a pequena
e a brincadeira inventada,
por sua azul-piscina inocência.



(Jessiely Soares)

Pequena





pé ante pedra
ela pula os degraus
até embaixo.

eu gritando feito louca

"Olha o carro!"

ela apenas sacode os cabelos
de fino embaraço:

"Não há. Posso atravessar?"

antes que eu lhe diga
sim

já está do outro lado.

Independente
quer ser ela

ainda de tranças e meias.

Não faz idéia do que é
caminhar pedra ante pé

por uma vida adulta inteira.


(Jessiely Soares)


Imagem: Jessiely Soares

Pedaços





"Minha vida não cabe nos trilhos de um bonde"
(Caio F.)



É, há noites em que o sereno invade a sala de estar, mesmo com as janelas fechadas.
Não sei o que há, Baby. Minhas asas andam descolorindo.
Não tenho gosto por cigarros, porém, se eu gostasse, poderia criar uma nuvem venenosa e me afogar em um ritual.
Mas eu realmente não fumo. Tenho gosto por tulipas.
Tulipas não vivem onde mora ausência. Minha sala anda recheada de saudades velozes.
Contudo, certamente não sei se a ausência é apenas de você, sabe? Por entre as pedras soltas, eu acabei descobrindo que ando sumida.
Será que foi o vento de Julho?
Dia desses achei um poema, debaixo de uns livros velhos. Perdi o Leminski que estava lendo, mas guardei a poesia. Desde essa hora em que o achei, pareceu-me que eu sumia. No começo achei que era viagem... Mas agora vejo que me ausentei. Em lapsos, tempos em tempos, percebo que sua bagagem seguindo ao seu lado, de ida demorada, levou-me um pedaço.
E, a continuar nesse episódio, sua conexão via celular, me arrancou mais alguns estilhaços.
A julgar daí, todos os momentos, foi como se eu estivesse me desmontando, periodicamente, e alcançando seu gesto de alguma forma: Ora pelos remansos dos rios do Recife, ora pelos pingos de chuva.
A vida é mesmo um desmoronamento progressivo. Eu fui ficando metade, fatia, pó...
E no último dia, antes de vir embora, não percebi ( e nem você ) que eu ficava, completamente carcaça, dentro daquele ônibus interestadual.
(Jessiely Soares) 
Imagem: Google.

Naufragado Poeta





O sol recifense desperta
E, espreguiçando-se ainda,
Livrando-se do torpor da noite,
Com seus primeiros e fracos raios de calor,
Depara-se com uma cena curiosa:

Eu vou, sozinho numa humilde canoa,
Remando com meus remos de plástico
Pela Bacia do Pina,
Como um sobrevivente de um naufrágio
Em busca da ilha perdida.

As águas estão calmas
E se vê as margens a terra lamacenta do mangue,
Enquanto a maré baixa
Contrapõe-se à enchente na minha alma.

As pessoas sobem a ponte lá em cima,
Dentro dos carros e ônibus
E me observam até a descida:

Tomam-me por pobre pescador,
Daqueles que nem
Rede de pesca
Tem.

Quando eu sou apenas um poeta
Fugindo do naufrágio da vida.



ANDRÉ ESPÍNOLA (Recife - PE) http://andreespinola.blogspot.com

Sinestesia




Não somos parecidos
nem sequer nos desvarios e esquecimentos.

Um porto selvagem se perde além das nossas trincheiras
e o que resulta
além do arrastar uma areia espessa

é algo como um chuva
num chão devastado por
por cores de serpentes e borboletas.

Tu és esfinge
eu sou apenas
o espectro

e ainda assim, não somos parecidos
nem sequer em nossas tormentas.

Caminhamos lado a lado
eu, fazendo escarcéu com o gosto do toque da névoa
e o teu rosto brincando de incendiar os belos
e mortos
pássaros de ar

que tu mesmo inventas.



(Jessiely Soares)

Enquanto semeio canções





Hoje é como se eu andasse de novo por aquele caminho.
A mesma noite ainda treme.

Como se o Sol aportasse outra vez, como se fosse ontem,
com aquela vista perene.

É como se a vida inteira tivesse parado
num circulo eterno
e todo o meu caminho acabasse no exato final dos teus olhos

Hoje é como se nao amanhecesse nunca.
E como se, de todas as canções, nenhuma restasse

Hoje é como se além da névoa e daquela ruína
o dia, o horizonte, num maremoto de nuvens,

e cada falha nessa ponte que passo,

apenas te gerassem.




(Jessiely Soares)

Caminhar-deserto




Teu olhar
esse doido
amotinado
rebentou vidraças
estilhaçou anteparos

perverteu rumos
de um caos perfumado
que não será futuro.

onde me cabe a tua compaixão
- esse toque de leveza -
de tudo sobrou
só a correnteza

esses cacos
esse cheiro de sândalo
esse teu olhar acorrentado
aos pés de algum vale sagrado.

teu olhar
esse doido
amotinado

destruiu minhas tâmaras
- as certezas do meu caminhar deserto-
e meu cântaro.




(Rosa Cardoso e Jessiely Soares)

Desatino



na pedra fria
caída ,distraída
na chuva
balbucio atos.

Todos falhos

o lobo sorri
escondendo os dentes
eu sorrio
desvairada 

o frio  escorregando pelas entranhas

cortada ao meio
lacerada

 descia pela chão
em  belos arabescos




(Rosa Cardoso)

Antítese




É noite
e o Sol
brilha.

- É dia!

É noite ...

Porque essa coisa mística
adivinha teu nome

É dia - dizem -

Mas em mim,
é noite.





(Jessiely Soares)

Ave negra



Só risco o teu céu
em dia de chuva e de vento
e canto no teu muro
para te acalmar

Sempre que há tempestade.

Quando o céu fica azul
faço o caminho inverso
volto pra o teu inconsciente
pra teu esquecimento efêmero

E nada mais te peço.

Só quando os raios desfazem
a paisagem dos teus desejos,
tu me trazes de volta,

com as asas negras
pousadas em teu peito.

A primavera é só tua
entre noites de lua e concreto.
No frio, vulnerável,
reacendes-me

Só eu sei clarear o teu inverno.



(Jessiely Soares)

Olhos de Jabuticaba

Para Anniely Mariah


Por seu barulho
a casa em silêncio
ansiosamente espera

Os pequenos quadrados
os jarros pintados
as paredes fingidas de tela.

Menina,
ciclone
extra
tropical

Nos espaços onde você impera
rastros de flores e cavalos
canções de ninar em abraços

Segredos entre criança
e bonecas.



(Jessiely Soares)


Imagem: Anniely Mariah

Autoria : Jessiely Soares

Annie



Com tantas cores em giz
ela desenha um mundo
entreaberto

uns poucos pontos de luz
a serem pescados

uns rápidos vagalumes,
um cavalinho que trota...

não percebeu no entanto
que por uma onda de pensamentos
escapariam
todos os desenhos

o céu
tão bem pintado

escapou pelo rasgo provocado
no rasante entardecer da gaivota.


(Jessiely Soares)

Compaixão




Nossos caminhos
deitados e esquecidos na sendas

Não fazem mais tanto peso na memória.

Não correm dos ventos,
Não adormecem 
de forma aleatória

Não há mais espaços
para acalentar as nossas feridas.

Tudo anda velho e corroído
eu ando querendo ser devorada por traças,
perfurada por metais envelhecidos.

Ou, quem sabe, dopada por um olhar envenenado...

E se eu não te falo dessas vontades subliminares,
não repare,

Eu não gosto quando você me devota sua pena.
Prefiro ser a musa para o teu verso intacto. 


(Jessiely Soares)

Seis de Junho de Dois Mil e Nove.



Pelo menos, 35 mães choram seus 35 filhos.
35 mães choram seus 35 filhos.
35 mães choram.

35 mães choram sangue, pelas chamas que mataram seus 35 filhos.


                                                                                         México,

por ti
e por teus infantes mortos

espero que hoje
não haja
nenhum
poema no mundo



(Jessiely Soares)

Distração



Adentro a sala
de espelhos;

parede atrás de parede

e apenas o teu reflexo.

Não há mais nada,
sequer a geada,
sequer o inverno,

Só uma longa sombra
que desce as paredes.

e a amarga certeza

De que, espelho atrás de espelho,
tu segues nos mesmos trilhos da minha vida...

Mas no teu caminho inverso.


(Jessiely Soares)


Imagem de: Ana Cláudia

Selvagem

Das tuas palavras
um bendito e alegre
sumo escorre

Vale, deserto
mediterrâneo-cipreste.

A tudo, tua palavra colore

mesmo quando eu leio
em onirico estado
as coisas que nunca dissestes.


(Jessiely Soares)

Princípio

Há noites
como essa
que de um escuro tão súbito

dá-me a impressão de que o dia
não será moldado

e que as estrelas foram
arrancadas de seu cordão flutuante

caindo no mediterrâneo.

São assim, em desenhos noturnos,
com buzinas salpicadas
que eu penso
que tudo ainda anda
sendo misteriosamente construído

em cadeias com vidros fumês
e grandes precipícios.

Tenho muito medo do futuro
em noites longíguas como essa
que persiste.

Noites assim duram uma manhã
uma tarde
e uma noite inteiras

Em que a chuva engloba tudo que inexiste.


(Jessiely Soares)

Polar


Os versos caem frios
e eu acendo a lareira
para aquecê-los.

Prefiro que derretam
e molhem meu assoalho
a se crisparem em meu chão
a se tingirem de espelho.

Não escrevo poemas
sólidos.

Eu esquento o sentimento que nasce
ate livrá-lo do gelo.

(Jessiely Soares)

Primeiro encontro





Pequenos espaços e segmentos se agrupavam na manhã.
Seu sorriso, todo incompatível com as sombrinhas de Boa Viagem, ofertava algo entre água doce e paz de pedra.

Era de um desejar tão ameno que pintou de mansidão a onda, aquela que carregou minhas sandálias, quando a maré subiu a sua ordem.

Eu fui pega desprevenida. Veja só, contra o amor não há fator de proteção solar!

Você chegou como sombra em pleno caminhar Sol.
Não sei como fez isso, mas de lá pra cá, plantou-se mais verde na minha íris.

O seu cuidado fez brotar plantação. Os girassóis nem adormecem de tanta ansiedade.
Algo no seu corpo me diz que a safra será boa esse ano.



(Jessiely Soares)

Como se Ariadne fosse


Você que desenha cada passo
no labirinto...

e que guarda com cuidado
meus panos de medo sob seu chapéu

faça-me ouvir por todos os meus dias
o seu sorriso místico.

Nada mudou
no além
da nossa janela:

Seu mundo ainda desafia distâncias
para pendurar
prateados fios de sono

na manhã da minha aquarela.

Por zelo.
Pois sabe que eu quase não durmo.

Trago comigo os destroços de quando
dei-me a idolatrar o vento, a água,
o céu e o risco.

Esse fato, também o sabe:

Você, Mohandas. Pacifista.
Eu, Guevara, de bom grado,
seria de alguma força-combate

em alguma revolta ativista

Seus dedos desenham noites.
E tantas vezes,
fizeram-se em arabesco,
para acalmar
todas as minhas cicatrizes.

Seu amanhecer tem sido minha bandeira
atrás da linha do medo,
onde me sinto mais segura.

Tenho receio da sua partida.
Receio inconfessável.

Eu, finjo que não vejo;

Mas sei da tua silenciosa batalha
num labirinto sem linha

Num lugar asfáltico,
sem deuses, minotauro,
Olimpo ou ninfas.

Atravessando o deserto sozinho,

Apenas
Para unir

- sem mais infortúnio e sem as garras do destino -

essa vida, ateniense, em pacífica calmaria,
sua,

por ocasião da eternidade,

a esta, espaçosa e barulhenta,
de revoltas televisivas e de guerra, em intensa atividade

espartana, minha.



(Jessiely Soares)

Refaz-me


Ó, noite, não tardes, vinga!
E recai sobre minha cama,
traiçoeira

Deixa em meus lençóis
Leituras marginais

E espalha meus desejos
Como areia

Impassível,
Luz na qual me perco,
destrói toda razão
a qual me presto

Arranca
Minha língua do deserto

Faz-me recriar
A incontestável arte

Desenha
Tatuagens de Sol
Com átomos

E faz companhia
A minha ilegalidade.

Como os sonhos
indevidos
Que me bastam

Como manuscritos
Do Mar Morto
E sua fragilidade.

Não tardes
Ó, Noite,

Refaz-me.


(Jessiely Soares)

Duplicidade


Ela se tinge
bela
de tecidos
e esperanças
em castellano.

Um século
de pequenas
parcelas
de sangue em pires,
de planos cartesianos.

Eu apenas miro-a do espelho
penso que sou o reflexo dela,
que
maquiada,
vestida de pó,

cocar
e
linha
com canela

fuma os pequenos pecados

enquanto eu, suando algemas,
sou apenas
selva,
holograma
e insígnias

O corpo é meu.

Noite fingida,
até isso fantasiaram
de medo,

a ciência anda tão provocativa...

Fatos e desafetos
andando pelas calçadas

ela,
de manhã transfigurada
acorda
em passeata
furiosa
e etílica

O seu cheiro mora em meu corpo
sou feita da sua erva.

O corpo é meu,
visita a Igreja,
museus e ruínas...

A alma é dela
me olha do espelho
e se tranca no quarto
de cima.

Ela sou eu.

Eu sou ocaso,
ela minha alma,
estranha aparição,

escondida pela minha sina.



(Jessiely Soares)

Marcas





Quando teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
e teu corpo
serpenteou para pega-lo

Não poderias prever
que a divisão dos teus medos
constava de monossílabos
e pequenos estilhaços.

Se tu tivesses me previsto
eu não seria tua pintura
impressionista.

Nem Maria,

- por Eça de Queirós,
tão perfeitamente construída -

Cruzando, com rubro guarda sol,
as ruinas do teu fado.

Se teu Cem anos de solidão nao caísse no meu colo
assim,

como dado viciado do destino,
e a mancha não nos tivesse violentado

eu não te diria que o escuro tem braços,
e, somente nós não sabíamos.

Se tu me soubesses antes disso
eu nem saberia do teu abraço
Nem da marca indelével,
de um sabor que não cruza a calçada

Feita de manhãs e cafezais
pintado num passado amanhã despedaçado:

No dia em que teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
em meu corpo

que, com fúria de pó e fera,

aninhou-se para entrega-lo.


(Jessiely Soares)



Imagem de: ..:Geisa:..

Hemotoxia (Mjúlia Pontes e Jessiely Soares)


Não, eu não vou parafrasear Chico,
Embora caiba, não me é direito,

Nem procurar nos blues de Djavan
O que não desperdiçarei tal Caetano

num gesto de quem encontra a fuga,
no rastro de amor e abandona a ilha
por seu peito

Não, eu não vou tentar expressar.

O que seria maior do que ficar na sua pele
Feito tatuagem?

Um dia pedirei perdão a Chico.
E tingida de ternura ainda serei poema
com nuance
E tingida de poemas ainda serei nuance
Com flor de tinta.

Eu sinto você correndo em minhas veias,
Músculos, retina,
epiderme em ardor desatinado,

E queima, pulsa, muda canta a canção
Que inventou só pra me encantar,

No nosso pé que brotou Maria
Nasceu arco-íris em chamas lilás,
numa estrada pura,
na madrugada que ainda não morreu.

Entendo, você ainda não sabia,
Que seria amor o que já doeu,
na manhã, das nossas vidas...

A minha íris precisa da luz
que emana de tua voz.

Perceba, querido,
pelo gesto que ainda sobra das manhãs e do breu,

todo o passado se envenena:

A verdadeira Maria, sou eu. 
 
 
 
 (Mjúlia Pontes e Jessiely Soares)
 

MULHERES NUAS


É com orgulho que aviso da minha primeira exposição.
Intitulada "Mulheres Nuas", terá pouso em São Paulo, no Poupatempo de Itaquera, dentro do complexo do metrô. De 13 a 31 de Abril.

Visitem, prestigiem.

Abraços,


Jessiely Soares

Dos vidros partidos



Eu me contabilizo em meio a multidão desenfreada.
Eu me enumero sozinha.

poros,
unhas,
praia
e retina


Tenho um tipo de frequência cardíaca
que não cabe no peito

nem nas contagens

menos ainda
nos desfribiladores
e na medicina


eu sou um caco,
um penúltimo ato,
uma paisagem,

um abrigo para a chuva.

eu sou algo que divide
mas não tenho densidade
para impedir que a ventania
adentre as madrugadas.
Eu sou uma cortina.

A tristeza está lá fora
como uma garoa fina e alvoroçada

Eu não quero que ela entre...
bastam-me os relógios.

Mas minha janela está quebrada.



(Jessiely Soares)
Imagem por whereohwhere

De quando nossa vida conversa


Varanda
de porta
entreaberta

o vento que escorre de longe,
quente,
me chega às avessas

traduzindo murmúrio de conchas
das horas
surdas e longas

com as memórias,
feridas vivas...

e é quando nossa vida conversa.

Eu lhe mando um bilhete
eólico

com mil beijos
etéreos

para que se acaso pensar
que não mais lhe penso em  versos

saiba que mesmo de longe
a nossa varanda ainda esconde
os poemas que eu não entrego.

e esse vento que viaja de volta
e que lhe chega às avessas

carrega cantigas de noites
das janelas de ruas desertas

é a cidade do interior
que lhe manda um beijo no rosto

e diz que sente desgosto
na noite em que você não regressa

assina com cheiro de lua
para que eu me finja de espelho

bem aqui, onde eu nao o vejo,
e onde nem mais me lembro
como se escreve poesia

seu sorriso relicário
me volta em ondas de vento
e se escreve como poema
sem tormento, em minha folha vazia


(Jessiely Soares)

Fugaz




Veloz
eu
parti.

Tu estavas
amanhecendo.

Viu?

Eu finjo que
sou cometa
em sua vida.

e acabo
sendo.



(Jessiely Soares)

Silêncio


Quando o silêncio
é algo que não me cabe

eu me rasgo
e me deixo em
lugares

próximos a
medos
e lagos

Lá é onde
o meu pensamento faz ruídos...
a vida faz alarido
em poças de saudade.

Onde escondo meus pequenos vagalumes.

Lá os meus momentos de silêncio
ainda são fugazes.


(Jessiely Soares)

Despedida






Senhor,

a tarde cai
sob a palidez
da névoa

das coisas que construístes.

Cortei
os pulsos
e os desvarios

que plantei,
sombria,
na aridez da terra

triste.

A culpa não é minha

tu me fizestes de carne,
vento e sangue, neblina.

e tudo isso me dói.

Dores muito maiores
que esse vermelho que berra.

Eu não pedi coração
Menos ainda, para ser eterna.

Se me querias
Vulto de dor para posteridade

Poderias ter me feito pedra.


(Jessiely Soares)

Ilha






Sem qualquer expectativa
eu me deixo sob a chuva de verão
que assombra a tarde amarela.

Sem qualquer expectativa
eu deixo que tudo atravesse
meu caminho
desconfigurado

ônibus,
pedestres,
gatos.

E o desvario do tempo na janela.

Uma vitrine me sorri
um sorriso de etiquetas
com marcas sobrepostas
diversas fazendas

florais,
sedas.

Assim sendo,
repenso os dias azuis,
diferentes dessa tarde
em que eu pousava minha vida
sobre as cercas de arame farpado

da antiga fazenda
com enormes cafezais
e pequenos cavalos

Tudo era essencialmente
verde e branco.

E agora, sem qualquer expectativa
eu fico de espectadora dos passageiros
da praça.

Ela não passa,
apenas eles,
e teu cabelo encaracolado me olha
e me assanha
e perceba: Tu não estás lá.

Um grito mudo me engasga

E por ser um grito mudo
apenas uma criança percebe e não diz nada.

A tarde se tingiu, de teimosa e cinza.

Com alguns tons dispersos de músicas etílicas.
Os bares começam a encher.

Sem qualquer expectativa
eu ainda sopro um beijo
para o teu rosto

que crispado de sonhos
passeia num ônibus lotado
depois do trabalho

Sonhos também cabem no proletariado.

O vento assobia
as nuvens se cerram
e os postes agonizam o calor da lâmpadas

Eu, enfim, aceito a impossibilidade.

Sigo a vereda que me cabe
aquela na ponta da calçada.

Teu nome amassado num pedaço de guardanapo.

Constelações sobre a cidade desenham um vácuo.
Teu gosto anda gravado nelas.
Selvas negras de asfalto.

O mundo inteiro faz barulho.
Um ruído insone de eletrodomésticos
e pais e mães recém chegados.

Anoitece em toda a vastidão do meu desejo.
E eu não te posso ver
porque tuas pontes guardam apenas o Capibaribe...

Alguém me oferece um cigarro.
A noite anda preta e conversa comigo.

Fala da solidão dos teus rios. Eu não sorrio.
E sem qualquer expectativa eu só me deixo sob a chuva.

Junto aos negros gatos.

Algumas poças de lama e toda essa vastidão desumana
que se propôs a ficar exatamente no meio de nós.

Por te querer perto,
e por seres impossível e carinhoso

Algo como pintura impressionista em cenário de inverno.

Eu te ando, eu te quero, e ouço toda esse multidão
e os candeeiros recitarem teu nome.

Eu, ilha, cercada de teu mundo por todos os lados, me calo.





(Jessiely Soares)

Avesso

Meu poema
em teu céu
me confunde

é como um verso
na colina

é como se tu fosses a rima

que eu tanto amei
e nunca pude.


(Jessiely Soares)

Da universal distância



.

Quero
com um desses quereres indizíveis

como a uma presença
que indefinidamente se espera.

Tal qual esse teu cheiro,
que nem sei de onde vem

e pousa aqui, com asas que queimam

insone, comigo, na minha janela.



(Jessiely Soares)



Imagem de: Julieta Domingos

Sensação



Silêncio.

Arrepio em
tez.

A casa está vazia,
para meu tato.

Só o teu cheiro

- esse devasso -

me invadiu
sem permissão

outra vez.


(Jessiely Soares)

Presente



.



terça-feira, nove da noite

o sereno canta leve
uma canção de ninar para os pardais.

Eu sento e converso com o vento
prodigioso

Ele mal me ouve, eu não me conto,
além do mais, entre nós, nem há novidades.

Apenas afago a solidão com uma das mãos.

Com a outra aceno
para minha vida inglória

Minha grave e séria companheira
das noturnas e angustiáveis horas .



(Jessiely Soares)

aethereu



Leve,
tão leve,

que se teu sorriso
me soprar

é possível
que me leve...


(Jessiely Soares)



Imagem de: Marlon Francisco

Mariah


A Anniely.
Tudo que me importa.

Repousa
sua mão
sobre a
minha,

pequenina.

Que
no auge
da tua
idade

infantista

repousa
tudo que
conheço

e antes,
por decreto,
inexistia.

Aquilo
que me sorriu,
depois
que você
nasceu

e que eu batizei por vida.



(Jessiely Soares)





Homenagem a todas as horas que se seguiram ao dia 11/11/2004.

E a todos os teus sorrisos. E todas as tuas pequenas e grandes peripécias...
Mas, ainda mais, a todas as noites mal-dormidas ouvindo tua respiração.
Ficar em claro, noites e noites, nunca fora tão perfeito.

Tenho a vida inteira pra te merecer, minha filha.


Te amo, Princess.

Mamãe.

Da espera

Não trouxe sandálias.

O caminho
descalça

fez-me
mais nua

Nem tâmaras,
nem cântaro
para o oásis
da tua boca

que fora das
minhas areias,

nasce
e se insinua.

Eu trouxe somente o cheiro
de deserto

de desejo
saudade,

um Saara de expectativas

que desenho
na poeira dos vitrais...

O que fica, além,
serpentiforme,

madruga longe da nossa tenda,
onde já nem estamos mais.



(Jessiely Soares)

Marítimo




Se me encontro
ao teu lado

navego
sem luz própria.

Conto não ser
perigo
para tua vida

e permaneço em silêncio.

Não sei desvendar tuas lendas
ou trevas,

sigo tuas ondulações,

presto-me a ser jangada
enquanto te vejo veleiro.

Contato que me deixes ser brisa
que te sopra em tuas velas...

Mesmo que tu partas pelos mares alheios.


(Jessiely Soares)

Do carnaval e outros mundos

Que se
disseres
frevo

eu largo
os arreios

e te jogo
as tranças

de rapunzel
etérea

fantasiada

de
Branca
pura
Neve

às avessas.



(Jessiely Soares)

Vontade diagonal



*


O que me deixa aflita
é uma madrugada

e uma vontade
de verter tequilla

a grandes goles.

De pichar paredes
com teu nome.

De ser impossível
e dilacerar teu sono.

Cortar o cabelo
usar minissaia

e

cantar em uníssono
tudo que não se pode

no meio da tua rua
invadir tua janela

e me mostrar arisca.

O que me deixa aflita
é ter tantas vontades

e uma vida
à risca.



(Jessiely Soares)

Do teu lugar


No meu interior
Tão controvertido
E sonolento


Tão desprovido de intensidade
E alegria


Entre os pântanos e tristezas
Há um único lugar que o sol
Sangra luz

E tu ocupas o lugar mais bonito.



(Jessiely Soares)



Fotografia: Onde o Sol sangra luz
Autor(a)
Amélia Jessiely Soares Bento
Para visitar a fotografia, clique aqui

Entre(nossas)linhas

 
Os fatos não são diferentes.

Em algumas manhãs
vendavais nascem
e me tornam os olhos

de verdes a turvos.

Pedras semi-preciosas
se aglomeram na minha calçada...

Vultos.

E tendo a estabelecer
um caminhar sem destino
algo como navio sobre temporal.

Enquanto você,

Fascínio que acorda do outro lado do tempo, sente
a mesma coisa. Balbucia uma idéia qualquer
ou um verso com qualquer pronúncia

E é como se esse pano negro que eu enrolo
aos ombros
fosse um pouco dos seus olhos
postos sobre minha vida

algo enevoado,
como uma nuvem que não sabe mais do rumo
para chegada,

nem lembra mais da partida.

Se acaso o insano, febrilmente, me parecer claro
eu canto alto,
Killing the Blues,

e espero que o novo aconteça em algo...

Sempre acontece,
nem que sejam uma sucessão de reprises
pintadas com outras tintas.

Os fatos não são diferentes.

Tudo sob esse céu, padece
de filosofias
e carícias.

Eu escrevo porque me faltam asas.

Eu penso na sua voz.

Eu conto esse segredo, e o deixo escondido,
como precisam ser os bons segredos

Sei que, se meu telefone não toca,
é porque alguma coisa
quebrou

no meio da nossa telepatia.

Calo e escrevo

Tudo isto em homenagem
ao seu corpo que se esconde

onde eu não consigo tê-lo...

e nas entrelinhas dessa poesia.


(Jessiely Soares)

Da chegada do amor




Em gestos
desatentos
Como em passos
Lentos de bolero

Num olhar cigano ou vagabundo

O sentimento
Esperava calado
Ao dobrar uma rua

O encontro foi silencioso
Como num lance sereno
De ir e não ir,
Ficar e partir.


Do jeito que se espera a vida inteira.


( Jessiely Soares )

Descobertas obscuras

*



Os dias que me renascem
aportam com o Sol
na curva da minha estrada

Apostam com a vida
- artista em ser efêmera-
que para ser eterno

basta o nada.

Eu, que assisto a tudo,
sinto-me responsável

pela criação diária da Lua...

Pela ausência de proximidades
e pelo cântico do silêncio.

Eu afasto,
enquanto o céu une...
esse é o meu absurdo

Há dias, em que
eu me sinto poeta.

A poeta mais noturna do mundo.



(Jessiely Soares)

Ardor

*


Que se chame
sangue

que se chame
vida

que se
fores tu a
me chamar

eu vou

Nem que seja
mangue

nem que seja
rua

nem que seja
lama

e se não fores
tu

nem ar
nem dor.




(Jessiely Soares)

De quando teu barco parte


*


Ao longe ainda
dormem as velas

e a minha esquadra
vela
meu futuro ainda perdido

navegante
infinito

que ao longe fantasia.

O lavrador ainda preserva
a avidez da semente

e meu céu, se mente,
encanta as coisas
sobre a minha terra.

Tu te plantas nas minhas serras,
bravio, cerras
a nossa história

como tesouro
desbravado
por mãos de pirataria

O vento pesado
canta...

Meus cálidos olhos claros
velam meu veleiro
distante

por teus pequenos estilhaços
de prados

tingido de sal
em tela

enquanto
num rio plácido
pálido e azul

Meu sonho,
ao som de fado,
embala meu espelho partido
e dorme em suas velas.


*



(Jessiely Soares)

Bússola



Se seus olhos,
ébano,
flutuassem no meu corpo...

Pintura abstrata.

Desenho meticuloso
como
rastros no deserto
incêndio no canavial,
floresta fechada.

Como o meu destino
pra pouso

Em meio a
essa ausência,
intempérie,

bússola desnorteada

no teu sorriso
branco

de cordilheira e nevasca.

(Jessiely Soares)

Da índia que sou

*

Se apressares o dia
meu amanhecer de Flamboyant

Eu me faço
mistério,
Jaci,
Iara,
Guaraci,

se quiseres,
também posso
te fazer Tupã.

Depende do teu gesto
oblíquo

do canto de floresta,
do mito,

do teu vasto sorriso
como
flores de Sol

Caramurú...

da criação de tudo
do raiar
com que tu pintares a manhã.




(Jessiely Soares)

Riscos noturnos


.


Sendo sua voz algo segredoso
que mesmo junto as mentiras
jogadas em boa terra,

farão brotar bom tempo,

eu me recuso a entregar
o ouro ao bandido.

Deixo então,
engatilhado,
meu medo sobre a cristaleira
(embaixo do porta-retrato)

e as pequenas divindidades
espalhadas pela mesa de canto
onde se lê a lápide:

"Eis aqui meu tesouro perdido."

Teu silêncio,
com gosto de infidelidade,
ainda habita comigo.




*


(Jessiely Soares)

Brevidades.

Desde a sua partida
só o cheiro de relâmpago
ainda espalha seus raios.

A brisa assobia.
E é como se o vento ainda
quisesse me dizer algo...

Eu o espero.


       ~
              ~
                        ~

mas a noite agoniza...
e o vento passa calado.




(Jessiely Soares)

Da tua eternidade

*


Na praia
entardecida,
avermelhada,
morta e ferida

eu assisto
o espelho
da tua tarde.

das ondas, das areias,
das pedras com as quais converso

eu te reconheço,
adormecido,
num canto eterno

mesmo que sejas,
de uma sutil efemeridade...

Sempre que estou sozinha,
eu te desenho o mais perene,
dentre toda a eternidade.




(Jessiely Soares)



Tua voz

*



Com teu verso
sobre meu rosto

marque-me
como seu vício
inexato,


Enquanto Cash ressoa
(hurt)
inundando o ambiente

Entre...

me fira,
se insira
em meus espaços

De um corte a outro,
me faça
sua

E eu prometo,

nunca mais
me
despedaço.



(Jessiely Soares)

Prisma


Para pintar essa madrugada
eu preciso das tintas
que deixei em tua cama

Exilada e extinta,
o que me sobra, faminta,
é um baú de memórias
e uma íris morta,
suja e carbonizada.

Para tingir esse céu negro
de alguma espessa camada
de sombras e lágrimas,

é necessário que chova
as matizes exatas...

Eu preciso de teus olhos,
senão, não haverá cor,
para eu recompor a alvorada.




(Jessiely Soares)



Foto: "Acordo a noite"
Autor da foto: Vieirinha

Dormente



Eu te toquei bem de leve
e tu nem notaste

Eis que a lua jazia
tal qual pedra
e sorria
dos meus sonhos fugazes.

Eu te olhei,
noturna,
e tu nem notaste

Eis que a lua
caia
surda e vadia
sob os meus vagos olhares

Eu parti
era manhã
e tu despertavas

Meu joio e meu trigo,
meu sinal
e sentido
dos girassóis perdidos
em meus olhos seculares...

... te toquei bem de leve,
com mil corpos celestes
e tu nem notaste.



(Jessiely Soares)

Vento de levante



*


Na caravana
que cruza o levante
da manhã que nunca termina

antigüidades de oceanos
engolem vidas perdidas
imersas no próprio destino
dos teus olhos desertificados.

Sob ação de desgaste profano,
de tantos mudos enganos
na caravana, da eterna partida
agonizam amores fantásticos.



(Jessiely Soares)

Quando o canto te alcançar



*


Tu, que não me ouves, deverias saber...

Que há agora, distante de ti,
uma ave, pousada.
E canta,
de acordo com o timbre
da minha voz no espelho.

Na tua noite,
sirenes correm a rua,
em busca do paradeiro
de alguém que agarrou a liberdade
por cima dos muros da prisão.

A lua nunca foi tão imensa
quanto para quem a aceitou
com o peito ferido e criminoso.

Madrugadas são palpáveis para quem se oculta nas sombras.

Algum cantador afina sussurros
em alguma das pontes
do rio que te corre nas veias
e alguém adormece na praça
do Arsenal.

Todos já saem pela noite
em busca de luzes amarelas
e vinhos celestiais
Carregam mentiras e passados,
como reflexos de fogos de artifício...

Ao meu redor,
silencioso entre vales,
meu vilarejo dorme.
Uma névoa cai, pesada.

Não há passantes por sob meu peitoril.
E, é preciso dizer, que não os necessito.

Na amarga calma da pequena vila,
a castanheira abriga o pássaro,
pousado sobre o meu parapeito.

E eu vivo a vida inteira, nesse pequeno e absurdo contentamento.

Quem sabe, ao amanhecer
sob o seguro acalmar de tua janela
de terceiro andar,
o som, quem sabe, seja mais,
que simples ecos de metrópole recém-adormecida

Quem sabe, inaudível, ouças...
como um contato benigno com a eterna liberdade,
e já calados, todos os sons que alarmaram a tua quietude,
Quem sabe ouças, sem saber disso,
entre tantas cidades cortadas,
o canto em que tu me habitas, dessa mesma ave.


*



(Jessiely Soares)

Nau frágil


*


Fio
invisível
me pescou

aflita.

A linha
que me levou

naufragou
barco e pesca

rumo ao teu tesouro escondido.

Dia bendito em que me afastei
do mar na tua rede

tua cama,
oxigênio.

Não sinto falta do meu habitat

Tu me fizeste esquecer
que um dia
tive
sede.




(Jessiely Soares)

Pintura a Óleo


*


Eu derramei
dois pingos de tinta
na nudez do teu olhar.

Manchei tua pupila.

De agora em diante,
não me presto a ser estátua,
nem quero ser absolvida.

Não escreverei cartas no muros
e nem relembrarei,
teus poemas
se me pedires.

Espalharei versos cegos
e tintas negras
em tuas meias-verdades,

Cegarei as minhas dores
nas cores
da tua íris.




(Jessiely Soares)

Sobre o Rio Paraíba e a saudade

*

 

Aquela fumaça
- clarão assolando
o meio da mata -

E a placa no meio do barro
que teima em fingir-se de estrada

"Ponte interditada"

Não faziam sentido.

"Acesso a um carro por vez
a ponte do Rio Paraíba.
Peso controlado.
Perigo."

Mas, como? Se meu corpo,
sem contar os adicionais,
pesava por todo o espaço.

Por gosto, guardei no meu peito
seus passos indecisos
e as lágrimas da pequena
por sua ausência.

Enquanto a poeira cobria
aquele sorriso escondido
que nossos rostos fabricam
entre o olhar e a reticência

Eu, atravessando as queimadas
e as pontes desativadas
fui fiando o caminho

fazendo trilhas na noite
da eterna distância ingrata.

Enquanto a cana de açúcar
prevendo a morte da ponte
Queimava para iluminar a estrada.




(Jessiely Soares)

Abstinência

 
Pintura de:Angel Estevez


*


Sendo, eu,
abstrata
ponha-me
figurante

ao lado da tua sala

prometo
que não serei luminosa

meus últimos anéis
ficaram, insanos,
na constelação

há muito naufragada

Pudera!

Eu não sei mais me ver
no espelho dos teus dias

Tuas hierarquias
tolas, dizimadas

Me puseram sobre o nada
numa mobilidade
invertida.

e antes da luz que viria...

Encha-me de preceitos
espalhe beijos e apelos
e no meio da febre

coloque-me, sujeito,
na tua sala
como poesia.


(Jessiely Soares)

Constância


*


É escuro
na noite mais antiga
na canção em pleno vento.

É deserto
mesmo quando a chuva
molha
as estradas, as veredas
e as imagens que invento.

E nas coisas que recito
mesmo baixo, sussurrado
sempre há um negro grito

Esse brado escondido

Nessas ruas tão vazias.
Nas palavras que invento.
Nos pesadelos e nos becos,

da poesia como ofício.



(Jessiely Soares)

Intempérie


O que transfigura
a excelsa sutileza
nos mesmos fins de tarde

é que agora
meu mar de Sal
escasso

deixou um desertos de espaços

que pela casa
brincam de piratas.

E a estátua
de nossos olhos
posta de costas
para o nada

- a salvo de todos os males
que navegam nesses mistérios
de casas com luzes
semi-apagadas -

Não mais observa a saudade
espalhada.


(Jessiely  Soares)


Resquícios e guardanapos

 
Debaixo dessa lua
o dia morre bonito
nas confidências de boteco.

 Vinho, e tinto verso

Se tu me deres uma só razão
posso escrever um poema
ou,
virar atriz de alguma peça de quinta
que te fará
perdoar minha embriaguez

Mas, não se deixe levar pelo meu
sorriso.
É etílico e vicia.

Como aquela lenda
de que existe nesses
nossos cantos
alguma dose subliminar de sensatez.

Deixe o sereno morrer...
algum som de violão
vai meditando nossa noite
enquanto a rua
veste-se de alguns rumores
e dá-se por esquecida,

entregues aos contornos
de uma meia madrugada,
com um velho tinto na mesa

e uns retalhos
de poesia.


(Jessiely Soares)

antífona





religiosamente
recito teu nome

– meu confessor –

som a som
num brado
sacramentado
nas conjecturas
de um adivinho
faz muito tempo


– séculos talvez –


mas sejamos leves
e as profecias entoadas
serão breves

são o presságio
guardado num códice sagaz

teu grito se esconderá
na bainha em que guardo
o vaticínio e a oblação

não se pode ter tudo
não se pode.


(Rosa Cardoso)

Decorativo

Casa Vazia. Foto de: Fernando Lyra


Suporta

a torta vizinhança
os parentes inconstantes

os inúteis e sua crença
esses amigos de instantes

toda a sorte dessa raça avulsa
não será mais que uma foto

decorando tua estante



(Lanoia)

Pedaços


Aquela margarida
riscada à caneta
na sua blusa

o tempo e o mundo
apagaram.

Ficou, de tudo, apenas o trapo.

Como o jeito e o sorriso
de estampas de pano
e cheiro volátil.

Destino e vida

feitos de ampulheta intempestiva,
misto de areia, castelo e barco.

Nenhuma garrafa flutua.

Ficou, de tudo, somente o abraço


(Jessiely Soares)

Fragilidade





Seus pedaços
se espalham
pela casa

como cristais de saudades
irremediavelmente pintados
pelas tuas mãos ausentes.

Como
se eu fosse
pedra.
Ou chuva, domingo,
relíquia, mormaço...

Deixei de ser coisa inteira.
De pouco me vale essa noite.
A pólvora a qual não ateei fogo,
incendiou-me...

E no momento em que achei
que todo o meu destino
estava num intempestivo
momento reacionário.

Explodi.

De mim, cinzas.
Na minha fragilidade de estilhaço.



(Jessiely Soares)

Génese




*

Em todas as palavras
que desenho alheia
em páginas eólicas
enquanto o sono
me pega no colo,

rogo,
para que os sonhos
seguintes
me levem, voláteis,
ao teu encontro.

Sob algum luar,
sem saudades ou destroços...

Entre todas as palavras
que desenho alheia
em páginas eólicas
enquanto o sono
me pega no colo,

eu, deitada tão longe...

re-ordeno as estrelas,
re-incendeio os cometas
e mudo as distâncias.

Re-desenho a nossa vida
sem muro nem vales,
sem estradas covardes:
Em um planeta só nosso.

(Jessiely Soares)

Oferendas



*


Do fundo dos teus olhos
acalentei dois mundos

contidos na palma da mão,
íris espelhou

passado, futuro...

Se tu voavas, cego, caias.
Cais do meu corpo

poça d'água,
desenho de fundo de mar
que encandeia

os presentes deixados no colo.

Doces, alvos, medrosos,
sutis como o florir da Oliveira:

Dois mundos
passado, futuro

alguns segredos que são nossos,

Nossos passos e destroços,

e teu medo que ainda quebra na areia.



(Jessiely Soares)

Ilusão de Ótica





Essa imagem que a câmera aprisiona
- bela - não sou eu.

Não vês que esses olhos verdes
não podem, sequer,
caber nesse rosto?

Vulcões em erupção
deixam tudo em lava e cinza...

Mas esse mar,
esses pontos cardeais,
essa floresta viva,

imagens que a câmera aprisiona,
verde, como raio de inverno em Agosto,

Nem minha retina,
Nem minha ruína.


Toda essa sutil transparência
- como espelho e chuva fina,
não passa de meu esboço.



(Jessiely Soares)

Das velhas noites e da nudez etérea ( Ao meu André e ao Recife Antigo)


Fotografia: Felipe Ferreira

*


Não sei se é algo em tua pele.

Desde o último vinho
restou algo balsâmico
na boca.

Um certo alívio.

E já que não posso
insinuar as ondas
nem tampouco
resvalar na atmosfera

Gostaria de mostrar,
quando me deito no chão,
o quanto Vênus exerce meu desejo
de ser deusa

- na tua estante
junto aos teus livros de literatura -

Ou sobre tua cama.

Mas o que interessa
é que em nossa última embriagada alucinação

restou algo balsâmico
na boca.

Um certo alívio.

Dizer que te amo
foi a melhor coisa que já fiz na vida.



(Jessiely Soares)

Das vidas reescritas


*



Decidiu então,
que sumir seria interessante...

- Por algo que o valha, sempre é -

Mas por aquelas tardes longínquas,
por aquele arrebol de cristal
ou por meus prismas,

- Já não tenho certeza -

Há tempos já não sou mais
aquele rio transparente,
compreende?

Depois da última gaivota virei caudalosa.
Gosto mais de ser solitária que navegável.

Verdades e companheirismos
me afetam profundamente.


(Jessiely Soares)

Dos pequenos episódios enluarados que ferem diariamente


Mas que névoa
que faz mudar a noite quente

quando ela se converte
em lua morta...

Enquanto eu, atirada, numa súbita e remota
revoada de emoções intempestivas

deixei sob o verso,
o suor e a camisa

de quem agora já cruzou a minha porta.

Mas que lua
que se assenta em minhas serras!

Única, como a cúpula Sistina,

como revoltas, como rubras e finas crinas
dos cavalos que pisaram o meu vento

galoparam os sentimentos em seus cascos

e meus pecados escandalosos
e capitais.

Mas, que nada, que vazio,
que noite!

Quando a brisa embriagada de dissabores
vem trazer-me a janela teu retrato.

Que lanceiro, que tristeza, que diabo...

Enterra meus desejos
numa noite morna e clara.

Do cheiro e das lembranças do futuro que'inda não veio
do medo que eu tenho, desse escuro que receio

reapareces como prece
no meio da noite morta

Deixando a brisa rouca, roçando a minha boca

Me engravidando de saudades
com as tuas mãos eólicas.


(Jessiely Soares)

Possibilidades


*


Se você descesse do seu altar

e aceitasse
o convite que faço

nesse ninho branco
que se acende em rua clara

quando o universo
se converte em meu espasmos.

Eu cantaria mil cantigas
adormecidas

para teu desígnios anteriores,
teus juramentos

Para ser mansa, pura, leve
em seu encalço

para ser verso estrelando
seu firmamento

Se você descesse do seu altar

Lua, floresta,
canyon de nossos riscos

Planetas, satélites
luares-de-maio,
conflitos.

eu, nua, em seu céu
como asteróide.

Você, vestido como astro,
com órbita e luz própria...

convertido em infinito.




(Jessiely Soares)

Mundo de lá


*


A hora em que mais doeu
foi quando você acenou

E tudo o mais fez-se neblina.

Turva,
Mil graus abaixo de zero.

E quando mil pensamentos
voltaram descarrilados
a mesma estação de metrô

De tantas
chegadas e partidas.

Eu trocaria a imortalidade
- se eu assim a tivesse -
por mil vezes de teu sono profundo

Por teus sonhos difusos
sem as despedidas de inverno

Sem esse medo da vida.



(Jessiely Soares)

Do gesto mais simples



*

Selvas de medo e tristeza
Em um trem na madrugada a dentro
Na época em que tudo que era vivo
corria perigo.

Vagávamos,
Noite em claro

No último vagão disponível.

Mas tua mão se entrelaçava na minha
e tudo fazia sentido


(Jessiely Soares)

Vazio


Esse adeus estampado
em uma página branca

dentro dos sonhos seus,

Não precisa de tele-jornais.
Não precisa de sombras,
derivações,
sintomas,
catástrofes,
Museus...

Guerra ou paz.

Só precisa um olhar mudo,
uma mão que escolhe

tudo,

até restar apenas
uma foto em sépia
de réplicas,
de promessas,
de abismos,
dissoluções

dos meus antigos impossíveis...

E nada mais.



(Jessiely Soares)

Paleontologia



*

Se decidires revelar
esses restos que jazem
dentro de teus olhos
de oceanos extintos

Não hesite.

Há tantos anos
escavo mundos
em busca dos meus pedaços
perdidos em tua Íris,

Fósseis, incrustados, nesse teu azul tão triste.




(Jessiely Soares)

Praga



A todos que nesse mundo
dormem o sono dos justos,
sonhando com as dívidas

eu desejo muitos anos de passado.

E que suas retinas guardem
o lugar mais insano,
e o sonho mais assombrado

Quanto a mim,
que nesse frio de medo
brinco com tua imagem

quero amanhecer com a lua.

Cantando os terríveis sons
de brisas que morreram na noite
da nossa separação covarde.



(Jessiely)

Jardim de Inverno




*

Flores pálidas
pendidas, transparentes

Uma luz branca
esvaindo-se nas vidraças

Canto cortante
cristais mortos de floresta.

Pensar que até ontem
tudo era calor...

Resquícios de aromas
paisagens brancas, desérticas...

Pensar em tudo que eu morri
por tanto amor

O teu medo, inconsequente,
assassinou a primavera.


(Jessiely)

Círculo Polar


Se ao menos
o que quebrasse na distância
fosse o ar
a dor
ou mesmo a letra

eu podia,
arriscando uma centelha
prender uns versos e uns prantos

Mas o que quebra
é mais do que eu posso,

é mais que qualquer coisa
que eu queira,

O que quebra é esse amor
que range os ossos
e que tenta apagar
fatalmente
essa fogueira.


(Jessiely)

Contrastes




Eu tenho, nas horas vagas
criado constelações com teu perfume
e em teu nome, feito explosões
em minha galáxia...

Mas no dia-a-dia nublado
há certos momentos
em que tua luz não me acha.

(Jessiely Soares)

Noites e Pedras





Por essas ruas, por essas luzes amarelas...
Fui deixando pequenos contrastes
- amor e pedra -
por passos não contados no caminho

Medindo
sob estrela e a aquarela
sob o canto do bêbado e a espera
o rubro alvorecer no céu antigo

Conjuguei em versos tais,
- de universo e outros vinhos -
a certeza da entrega
em cálidas noites
de serenos antigos demais...

Os passos não contados
que ficaram de tantas vidas
já não cabem...
nem nessas luzes - segredosas de passados -
nem nessas pedras de rua
de madrugadas imortais.


(Jessiely Soares)



*Foto do Recife Antigo:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=518469

Prometeu Sem Coração ( André Espínola)





Com pés e mãos acorrentadas
Às rochas montanhosas,
De alguma região geográfica esquecida do globo,
- talvez inexistente,
ou existente apenas em mim mesmo -
Vejo o passar da noite,
O amanhecer e o crepúsculo do dia.

- a lua é sempre
a melhor companhia.
passo menos tempo com ela,
já o sol, cega,
demora, queima
e destrói minha harmonia -

Não roubei a faísca do fogo dos deuses,
Nem mereço ser prisioneiro de um monte
Para sofrer diante de tal suplício,
Ficar inerte, preso ao chão,
Vendo uma águia vir do horizonte,
Pousar em meu peito, rasgar-me com seu bico,
E vê-la, saciada, devorar meu coração.

Antes fosse um fígado!
Pelo menos teria ainda um coração...


(Autor: André Espínola)




http://andreespinola.blogspot.com




* Por ser tão linda, tive que furtá-la dele.

Vinho tinto em copo de barro (Anderson H e Jessy)



*

Sol,

beira de lábio encarnado e seco,
onde meus cacos pela casa, onde?

no veneno
que berra,

em pleno átrio,

nomes de artéria,
sonhos de ventrículo
e porres coração, coração, coração...?!

célula suicida,

pára, astuta,

e soca o lixo refletido na vidraça!

Implode o silêncio
Que do nada me afasta
E acende a noite, noite comum, noite sem graça...




*




(Jessiely e Anderson H)

Grand Ópera verídica.





*


Se a mezzo-soprano
te soprasse uma promessa
descuidada e apressada:

Vivaldi nos auto-falantes...
Mozart, rock. tecno-funk...
se a mezzo-soprano
sussurrasse:
...Inquieto esse desejo!

e te desse esse beijo
transformasse tesão
em fato ,
em ato
num canto qualquer...
será que te esqueceria?
será que seria mais fácil?

Fetiche,
Lapso,
Regente,
Saxofone e harmonia

o coro canta
cuidado!
e ela sussurra:
que se dane!

se a mezzo-soprano
descuidada e apressada:
tropeçasse no ar

vivaldi soando
funk, punk
e o tombo
sonoro
retumbante

Braços abertos
Como asas, planícies,
Balé, vida e a voz ressonante que
Insiste e
Incide...

Se ela sussurrasse:
e te desse esse beijo
transformasse tesão
em fato, em ato.
num canto qualquer
mozart,
rock... electronic music
colapso.
Inquieto esse desejo!

o coro canta
cuidado!
e ela sussurra:
que se dane!

Na noite mal cuidada
de vodka,
vivaldi, lago dos cisnes,
nona sinfonia

Ele, moreno,
Contratenor, Dj, hinduísta.

Com ela, a mezzo-soprano
num drama musical;
Grand Ópera verídica
de uma vida insone.

o coro canta
cuidado!
e ela sussurra:
que se dane!

*


(Rosa Cardoso e Jessiely Soares)

Constatação


a nós,

de sonhos imaturos,
foi concedido tão pouco.

Notaste?

um medo
uma janela pro fosso
uma cama, um encosto

e uma distância covarde.


(Jessiely Soares)

Das memórias



*



Amanheci de chuva
sem muita manha, sem cultura,
p´ra compor uma obra-prima
que saísse qual mormaço
numa manhã de brancura.

Desde que a voz não fosse a minha
e que tu lesses a partitura.

E até escrevi a melodia
como uma coisa miudinha
que se encolhesse com o vento.

Ipê branco até chorou
quando ao canto se juntou
a velha dor arrastadinha

"... Foi numa claridade dessas
que pegado na mão dela
destilei amor
numa manhã

águas claras
e campinas
ela cheirava a coisa antiga
a terra doce, a avelã

E aquele Sol afogado
na terra morta que escorre
do pé de serra
fim de dia...

Morreu na canção que deixo
marcada aqui , rasgada a seixo
Onde faz sombra,
calor que míngua.

Na esperança tão vazia
Que ela cresça, véu branquinho
como bibelô, brinquedo

para saber que a amei tanto
naquela manhã apagada
quando contei-lhe meu desejo

e ela sorriu tão branco
tal qual a flor do Umbuzeiro..."

Passarinho bateu asas
brotou plantação de lágrimas
de saudades e de memórias

Chorei caatinga, sertanejo.



(Jessiely Soares)

Pacto


*




Guardei sob teu leito - meu menino -
um par de asas transparentes

que noite dessas, muito quentes,
eu usei para afugentar o teu calor

Enquanto lá fora duas estrelas suspiravam
e as mortes nos levavam ao escuro...

Eu deixei, bordado em teu travesseiro,
um ponto simples numa linha quase cinza

de um triste Sol partido ao meio
de um desejo sempre e tão soturno.

para que não chegasse outra manhã em tua vida

e que a tarde morresse inda mais cedo
e eu fosse a lua da tua noite mais vazia

Como um espírito deitado, insolente
Me deixei, sempre me deixo ao teu lado

ou como um anjo, num desejo escondido,
na morada que eu fiz no teu abraço.



(Jessiely Soares)

Do gesto mais simples




*

Selvas de medo e tristeza
Em um trem na madrugada a dentro
Na época em que tudo que era vivo
corria perigo.

Vagávamos,
Noite em claro

No último vagão disponível.

Mas tua mão se entrelaçava na minha
e tudo fazia sentido


(Jessiely Soares)

Coração partido



*


De tanto orvalho
perdeu o medo
e pesou.

Pendeu
abriu as asas
que nem
lembrava que tinha

Voou

Era tardinha

Depois disso
não se sabe mais.

Só do arrebol
que se tem notícias

Ninguém nem lembra
como ele planava.

Coração
quando parte para o mundo
não volta mais pra casa.


(Jessiely Soares)

Noites e pedras


Por essas ruas, por essas luzes amarelas...
Fui deixando pequenos contrastes
- amor e pedra -
por passos não contados no caminho

Medindo
sob estrela e a aquarela
sob o canto do bêbado e a espera
o rubro alvorecer no céu antigo

Conjuguei em versos tais,
- de universo e outros vinhos -
a certeza da entrega
em cálidas noites
de serenos antigos demais...

Os passos não contados
que ficaram de tantas vidas
já não cabem...
nem nessas luzes - segredosas de passados -
nem nessas pedras de rua
de madrugadas imortais.


(Jessiely Soares)



*Foto do Recife Antigo:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=518469

Prematuridade


Prematuridade




Nesses dias de ocaso
ao meio-dia
em que tudo lança, fere, sangra, mata

me deixo em pedras frias na calçada
na esperança de chocar-me
contra o vento

Nesses tempos
em que tudo morre, tudo esfria
desenho a última dor da poesia
que se deixa adormecida ao relento

E por horas, inocentes e mostruosas
espero tua voz
vir me carregar antes do Sol...

Não é o que me dizes que me dói
a minha dor é porque tu não
me salvarás à tempo.


(Jessiely Soares)

Contrastes


Eu tenho, nas horas vagas
criado constelações com teu perfume
e em teu nome, feito explosões
em minha galáxia...

Mas no dia-a-dia nublado
há certos momentos
em que tua luz não me acha.

(Jessiely Soares)

Poesia enferma


Em todas as odes
que eu nunca fiz
sempre me faltaram duas:

Uma que me faça partir
e outra que me pragueje a cura



(Jessiely Soares)

Explosões


*



Quando teu sorriso cai
na boca da noite

me foge o verso
e meio quilo de dissabores
por entre estrelas de mata fechada...

E se a noite não fizer nenhum sentido
ou se a madrugada
não adormecer contigo,

pinto teu olhar na alvorada.



(Jessiely Soares)

Das palavras esquecidas




*

Se fez luar tão rápido
Que não modifiquei o verso
Nem questionei teu abraço

Se fez luar tão rápido
Que tudo o que restou
não se deixou intacto
tampouco nos iluminou

Se fez madrugada?
Não vi!
Parti antes que a escuridão
Se perdesse de novo de mim

Ficaram pedaços?
Não sei

Guardei na memória:
O que errei,
Meus súbitos desejos
E a antiga dor agreste

Se fez noite
De repente
Em tudo que me disseste.


(Jessiely Soares)

Dos Olhos Tristes





Teus olhos tristes
me remetem
à última revoada

Sem tempo de despedir-se

Sem nunca
ouvir
a última canção

É como a primeira
folha que cai
ainda verde

ou como o último
passeio do trem
parado, agora,
na antiga estação...

(Jessiely Soares)

Do carinho


cai a noite
mais sombria
como véu em teu retrato

Assim sendo
amplio o mundo
colo no céu o teu abraço

Madrugáveis



estive pensando
no peso de duas estrelas
no vácuo do universo

e em dois dedos de boa prosa
com uma cachaça
no invernar do brejo

ao som de qualquer violeiro
ou dos causos perdidos
do velho Joaquim

e tudo que me faz feliz
mesmo nas horas loucas
de fogueira e violão

é eu gostar de você
e você, contudo,
também gostar de mim.



(Jessiely)

Das Angústias Noturnas

Alvorecer de Maio


*



Vem cá minha menina, não me olhe desse jeito
será que não percebes que já amanheceu?

Todas as estrelas, rumaram em cortejo
o que era morte, foi na noite
e o que era negro, já morreu.

Senta-te, não chore, deixa cá eu te ninar
não cabe acalanto se não puderes sonhar
não diga que és tola ou que o passado te envenena
é claro e lá fora já é outro rio a cantar.

( será que não ouves?)

Dá-me tuas mãos de branca seda.
Dá-me teu olhar, calado assim,
que me contém

Que todos os teus medos são tão meus
- são tão meus! -
Que essa brisa rouca
não os leva quando vem.

E quando anoitecer
que só reste teu perfume
neste campo, neste sonho
e na voz deste cantor

De nada vale a vida sem a lágrima perdida
que ao molhar teu véu insiste
em desnudar tua antiga dor

Sabe lá quantas das águas
nesse rio que há muito existe
são choros de antigas
dores e mortes invisíveis?


( Enlacemos nossas mãos, não fiques assim tão triste)





(Jessiely Soares)

A Noite da Bailarina

*




Foi-se a vida
Ou foram-se as asas
Do eterno vôo da bailarina?

Dança o último sorriso
Na face rosa de menina
Flor que morre em acalanto
No escurecer dessa neblina

Canta o último versinho
Minha terna bailarina
Que a noite ainda adormece
E antes da primeira estrela

Faz o último Plié
Nessa atmosfera
Morta
Coloridas em plumas vivas

E parte, meu bem,
Parte
Entre aplausos que te esquecem
De quem teima em ficar
Nesse teatro em que tu brincas

Voas alto em teus sonhos:
Tens o palco dos ares
Para o Ballet da despedida.


(Jessiely Soares)

Das eternas mortes III



*

Antes que acabem
as rendas brancas da lua
e o grito da noite,
o último medo rasgará o vento.

Enquanto quatro mãos costuram,
placidamente,
estrelas nos pés de Deus,
o horizonte imerge
numa última sonata...

Antes do nascer
do dia,
na vermelha morte da madrugada

Haverá fogo nos teus olhos
e nas duas vidas
que habitam em ti,
desesperadas por amanhecer

Uma não irá morrer.
A outra,
sim.


(Jessiely)

Das eternas mortes II


Pode um canto triste
moldado entre folhas
pousar no meu luar?

Um dia, era manhã
quando tu 'inda cantava
e eu ainda estava lá

Sangrou a última pedra
passou o último dia
Tingiu tudo a escuridão...

E tu cerrastes
meu futuro
como versos escondidos
entre o risco
e a imensidão.

Canta agora,
meu destino
canta o canto mais doído
da velha morte que partiu

No clarear da solidão
foi-se tudo, foi-se a lua,
nos deixamos feito chuva
na última curva do rio.


(Jessiely)

Das eternas mortes



*

Flores na brisa
cheiro de Maio
Dois versos cinzas
em breve contato

- Voa o amor por todos os lados.

Branco de dunas
ruas de Abril
noites de chuva
dia vazio

- Voa amor, aqui tudo é frio

Doces desejos
é breve, é claro
Canta o leito
que guarda o amado

- Voa amor, não fica guardado

Não morre entre cantos
de amor encantado.

Declaração de amor pelo batismo na cidade antiga"






*

Não, eu não sou pernambucana
nascida

Mas meus anseios crescidos na Paraíba
me deixaram tal qual Ariano:

"Paraíba é colo, recanto
mas Pernambuco
me veste de vida."

Nos olhos, do meu Recife
(assim, me apropriando)
vi o arrebol de sonhos
na noite que morre calma

Fui Marco Zero de bêbados
cantando vinhos e dores
quando a musa brilhava alta.

E surgindo, imersa em luz,
tingindo tudo que existe.
Eu, batizada por fina chuva,
namorava o capibaribe

(Com minha visão bordada
na cidade em que não reside)

"- Oh, Pernambuco que amo!
Oh,
___Recife,
______linda!"

Rasga-me a alma, confesso:

"Adota-me, pois não,
não sou pernambucana nascida
Mas é por te amar, que te verso!"


(Jessiely Soares)


Foto: Felipe Ferreira - http://www.flickr.com/photos/ff_fotografia/2327802800/sizes/l/

Bordando medos


Agarrado no vento
Foi-se o teu rosto pra longe

Onde mora o absurdo

Naqueles dias
Os rios cantaram

- É primavera
Ao redor do mundo!

Mas eis que em mim
O frio dançava
Feito de orvalho e pedra

Entre o horizonte e o mar
Teu amor era a última morte
Anunciada

Onde viver seria algo eterno

Não me atrevi a ir além dessa dor
Virei sereno.
Fingi-me inverno

(Jessiely Soares)

Bordando sonhos


E foram-se luas e flores
Até o tempo desabar,
Quase na palma da mão.

Foram-se doze primaveras
As mais lindas bailarinas
E algumas mortes, esquecidas
Dias, sim
Dias, não.

No doce último sorriso
Bordado de improviso
Naquele último luar

Éramos sonhos como medo
Enquanto as luas escolhidas
Brincavam de voar.

Marinho III

*

Não ouça o triste canto
que soa longe

Que o teu medo
desconheça
tal infortúnio

Não aceita a ilusão
que se oferece

Nas falsas brumas
desse desaguar
noturno.

Tesouros de Sal e nácar,
ouro e olhos

Engolidos
em mortas ondas
- frio e calcário -

Levados a profundos
reinos naufragados

Que ecoam
num madrugar
intempestivo

Não ouça o triste canto
que pressagia

"Guarda o teu medo
como à vida
O mar é a morte
do infinito."



(Jessiely Soares)

Marinho II






Não cantes
ode
As marés

- Mutáveis
monstruosas
Incansáveis -

Nem chores
A morte
De suas vagas

Perdida
Em bravas
Naus incontáveis

Não desenhes
Tua vida
Nas areias

Nem deixes
pegadas
Pelos ventos

Guarde das
espumas
Tuas velas

Poupe
Do medo
Teus rebentos

Só permite
Que a brisa
Do destino

Suprema
hospedeira
Dessas mágoas

Erice o teu
corpo
Em desatino

E te faça
soberana
Nessas águas

Que as ondas
adormeçam
Em teus cabelos

Que vistam
Teu corpo nu
As finas algas.


(Jessiely Soares)

Marinho





Quebram na praia
Desgostos da Deusa

Em brumas de sal
jogadas na areia

E deixam o rastro
murmúrio das conchas

E mortes marinhas
de vidas alheias.

O medo nas águas
espíritos pairam

Ecoam brados
na névoa prateada

Dos assombros da noite
os choros calaram

Nos desgostos da Deusa
que quebram na praia




(Jessiely Soares)


Fotografia de: Bruno Abreu
~> http://olhares.aeiou.pt/galerias/detalhe_foto.php?tc=1&id=1438357

Último pedido



*

Enterrem minha alma
no espaço indivisível
entre a cruz e a espada.

E sobre ela
lancem olhares
e críticas perversas

Mas não deixem de matá-la

Enterrem meus passos
na curva do caminho
entre o vento do destino
e a voracidade do rio...

Mas não deixem
meu passado
exposto ao relento
no impetuoso frio.

Levem em sacos vazios
as últimas palavras
de alguém que morre
sem conseguir ver
o tão sonhado pôr do Sol

Rabisquem em pedaços de papel
o poema que nunca foi escrito

Inenarrável!

Pedaços de um sonho qualquer
esquecido...

Mas, não deixem que morram
meus mundos
nem meu amor-lírico

Enterrem meu corpo
antes de enterrarem meu poema

Pois eu não sobreviveria
a morte de um filho.



(Jessiely Soares)

Bem que eu queria...


Queria ser por um dia
artesanato qualquer
pelas ruas de Olinda.

Ser talhada em madeira
pintada com a cor da rua
e do céu que se escancara.

Queria ser exibida
aos gritos
pelo vendedor
no meio dia
nas ladeiras
íngremes

E no meio de qualquer troça
que você notasse
e por qualquer preço
me levasse pra colorir
seu quarto

Mas que toda noite me visse.

(Jessiely Soares)


Foto de Felipe Ferreira -
www.flickr.com/photos/ff_fotografia/2040962840/in/photostream/

Tempestades


*




Cacos de vidros,
companheiros fiéis
de jornada,

Fizeram da outrora estrada,
iluminado campo
de flores vítreas

Os pés, acostumaram-se,
e já caminham
por ódio, rancor
ou quiçá,
por mera
cisma.

Nuvens, arrebatadas
numa cúpula,
chovem granizo

Em rajadas
de dor e medo

Minha pena,
de morte,
perdida,
rabisca à força
nas rochas
em estilhaços

Como se a angústia
fosse tinta...
ou brinquedo

"Inspirem-me,
ó raios ,
que gritam ao longe
nos velhos dezembros
dos meus antepassados!"

Eis que
minhas palavras ainda terão asas...
alçarão meus sonhos despedaçados.




(Jessiely Soares)

Deus dos Sonhos



*


Se te esculpo
na areia
toda noite...
De que me vale,
se o vento na manhã
sempre te leva?

Se te tinjo
com tinta óleo
na madrugada

A noite passa,
e a moldura
se esfacela.

Meus desejos
se amontoam
pelos cantos.
Meus cantos
se amontoam
nos desejos...

Faço,
tinjo,
declamo.
Lanço a nossa
sorte
ao som do realejo

Entre surtos de desventura
desses que ninguém
nunca previu.
No deserto
da minha cama
tenho medo

Morfeu não
serve,
nem mesmo,
pra esquentar
meu corpo frio.


(Jessiely Soares)

A mesma solidão



*

o que resta dos desenhos na areia
quando o vento vira furacão,

são retalhos de alguma saudade
espalhados em cacos revoltos no chão.

O que rasga o peito a punhal
quando a lágrima cismada entala e não cai,

são gritos recém paridos de uma artéria triste
que se contorce e faz

o medo ressurgir regurgitando espíritos
desfazendo a paz

E a lua que jaz serena
não sente o pânico a me assaltar

Derrama sentada e sonolenta
brancos raios cheios rasgados pelo ar

Finge tranquilidade deixando-se imensa
na amplidão

Mas enquanto suspira estrelas
tentando inspirar algum bêbado ou alguma canção

Repensa a vida inteira
e queixa-se também da mesma solidão.


(Jessiely)

Dos momentos me perco


*


Vivo catando
sonhos
como quem
cata vida

E catando vida
como quem
cata tempo

Me deixo
em espaços
vagos pedaços
catando o que perdi

cata-vento.

(Jessiely)

Das coisas que não posso escrever


*


Nessas tardes
que o vento faz escarcéu
com as folhas barulhentas
da palmeira

O primeiro apontar de uma estrela
não pode nunca,
ser notado

o nascer da estrela
solitária
embriagada de frio e beleza quieta
não poderá entusiasmar,
não será declamado em versos,
nem transformada em dores
pelas dores inquietas do poeta

E ela aponta
no sétimo céu
enquanto esse vento quente
continua a fazer alarido

E se surge astros oníricos
que habitam teus sonhos mais doces,
assim como a luz dessa estrela
habitando tão longe
não poderei perceber...
nem descrever teu sonhar

Teus sonhos ecoam longe,
longe demais,
para que possam me inspirar.


(Jessiely Soares)

Deusa




*


Meus olhos são náufragos
oriundos das fúrias
desse mar

Sendo assim,
te fantasio onda.

E me tinjo de Iemanjá


*

(Jessiely)

Presente para a vida inteira





*


Dou-lhe a minha vida
amanhã,

Quando você
me puser
nas mãos

E desenhar
meu retrato
em um pedaço surrado de papel

Em qualquer botequim dessa vida,

Enquanto pensa num jeito
de levar no peito
um pouco menos de cachaça
e mais dinheiro pra família

Dou-lhe os meus olhos,
amanhã,

Depois de ter você cansado
pedindo jantar e abraço

"O trabalho me cansou,
arruma a cama, amor?"

E dou
meu melhor sorriso...

Amanhã

Logo cedo,

Enquanto você procura
o outro par da sandália,
a velha camisa rasgada,
esperando o cheiro de café
se espalhar pela casa

Será domingo, amor,
será domingo.

E o sorriso,
que fica na cama,
logo depois de deitar
no afago cúmplice
de tantas manhãs

Ah!

Dou-lhe a lua, amanhã,
amor,
assim que você acordar


(Jessiely Soares)

Dos enganos da vida



*


Vês essa pétala
que sem cor e sem vento
acordou sozinha?

Há mais do que medo
nessa eterna aventura
que tira a vida e a recria,
perdida.

Há dor,
Há saudade,
Há pétala,
que partindo,
se despede
incerta
e
vai.

Não alcançará mais jardins,
nem rios,
nem outro jasmim,
nem carroça ou lagoa.

Mas,

bailará com o vento,
com tal sofrimento,
que até a vida atordoa!

Se cai,
se ri,
se chora,
Se voa,

Não se sabe,
não se sabe.

Morreu esta pétala
que um dia foi flor...
sem medo ou angústia

Em inércia profunda

Apaixonada
Pelo vento
deixou-se levar
- iludida -
num último pôr de sol
de uma tarde
pérfida

Vês, filha?

Vês essa pétala
que sem cor e sem vento
acordou sozinha?


(Jessiely Soares)

Do amor que não entende


O meu amor
não entende de medidas,
nem de distância nenhuma.

Nem mesmo conhece
a nuvem,
que de tão alta,
não se perfuma.

Não sabe guardar
segredos,
não entende de medos,
não teme as ausências
e por isso,
não agoniza, perdido,
nas tristes noites da rua.

O meu amor
é inteiro
enquanto é dividido.

Dessas angústias ele não entende,
nem de dores
ou de tristeza alguma.


(Jessiely Soares)

Dos desejos







*


Teus olhos percorrem soltos
As letras
Que tatuam teu nome

Gravadas com partículas vítreas
Em minha válvula cardíaca

Entre espirais de fogo
Azul
De células desvirginadas
Que morrem
No meu horizonte.

E ventos que arrebatam pérolas
Enquanto o êxtase consome
(a vida)




(Jessiely Soares)

Dos desenhos



Desenho flores como espinhos
sombreadas com alucinação

Planto sementes de
medo
que irão resultar
em paixões

Rasgo pulsos como
gatos
que rasgam a lua cheia.

E de pés descalços
trago passos
para a madrugada
derradeira.


(Jessiely Soares)

Do amadurecimento


*

Vou redesenhar os mapas
perdidos no limbo
da minha memória
falha.

E enxugar as goteiras
da minha pele
nas areias
espalhadas
pela estrela primeira

nos monte alheios
da noite fechada.

E não mais regredir passos
nos espaços escalados
por algum cego indeciso;

Creio porque quero crer
milagres não me seduzem

Envelhecer é ofício divino.



(Jessiely Soares)

Dos pecados.



*


Todo verso
carrega consigo,
como poetas
em pleno cio,
farsas, dores e pecados

palavras que singram sem rumo,
altas doses de absurdo,
desejos mudos e surdos

e um
eu te

a

_____/

__________mo

rasgado





(Jessiely)

Da inspiração



Seu olhar causou
arrepio
E a noite sumiu
Passou.

Agora sou só a sua imagem
repetida
Em prosa,
Poesia

Versificando
Dor.

Do samba e luz dos olhos



Teus olhos
Refletem raios solares
Sobre a terra fértil
Do teu rosto

Teus lábios
Respondem a apelos secretos
E o samba embala...
Me embala.

E pena que Noel
Não saiba
Que roubo o samba que te lembra
Todas as noites antes de dormir...

"Faço junto do piano esses versos pra você
Esses versos pra você, esses versos pra você"

E adormeço fingindo
Que te tenho aqui.

(Jessiely Soares)

Das nuvens e inocência



Separo
A dor das visões
Que me prendem
E me dilaceram


Divido
As pressões inatingíveis


As horas
desenham
O tempo

Que coloca em
movimento
Os meus
muros
e
divagações


E finjo-me criança
Enxergando de novo
Carrosséis em nuvens

Sem imaginar
A tempestade que se aproxima.

Da solidão e tristeza


*

Calada
Nessa casa vazia de almas
E tão cheia de gente
Pessoas que vão e vem
Somente.


As horas passam
E ninguém nota
Que estou sozinha


Um eco sem pudor
impera
O ambiente claro
Irrita os olhos sensíveis
Do coração


E o espelho reflete
atrevido
A esfinge que sou


Dos olhos pra fora.


(Jessiey Soares)

Dos versos e insônia


Dorme.


Que teu olhar
cerrado
Abre de outro lado
Uma janela
Modesta.


E Enquanto


Eu sento
E escrevo sozinha
acredite
Sou o fio de luz
Que te banha
Pela fresta


Da tua persiana
Entreaberta.





(Jessiely Soares)

Da suavidade do teu sorriso



Não acho motivo algum
Para definir
As vidas
entrelaçadas


Nem todos os filósofos do mundo
Compreendem nossas páginas recém riscadas


Como nenhum dos sorrisos
noturnos
Podem sorrir com tanta suavidade


E não desejo objeções
Sonhos,
Palavras ou
frases


Sou apenas
Pardal brincando
Em tuas manhãs
Enevoadas.

(Jessiely Soares)

Da Partida



Não havia moinhos de vento
Nem devaneios visíveis
A olho nu


Só você segurando meu olhar
Como quem sustenta nos braços
Os hemisférios
Norte e sul.


E o céu como
Quem quer calar
Para não se envolver
Nas bocas que a vida separou


Deixou-se chover
suavemente
Entre nuvens dormentes
Mas não ficou azul.

(Jessiely Soares )

Do Nascer do Sol





Os dois sob o Sol
são
poemas
do acaso

Corpos, somente

que envolvidos
são abraços

espíritos
reféns
numa centelha

e o universo
insinuando-se
calado



(Jessiely Soares)

Sobre Versos e riscos


Vem

Escreve teus versos sobre a maré

Essa que desatina louca

As vertentes do fogo

E que instiga os sonhos

De quem se atreve

A perder seus versos

Nas vagas

leves


Segue

Que a noite é curta demais

Para os desenhos na areia

Para a grafite no muro

Para a nudez da lua


Pára de respirar e

Faz os versos bandidos

Nessa claridade crua

De desenhar sensações

Em rabiscos de palavras


Descansa

Mais leve agora

Depois de parir

Tua verdade obtusa

Nesse rodopiar seco de mundo

E estações de rádio


Agora


Dorme


Depois da mensagem

Jogada

E o risco de teus sonhos

Vai durar o bastante pra acalentar meus devaneios.


Até outra lua

Recriar a cachaça

Que embriagará outros amantes

Numa esquina

Ou sobre as pontes

Que cortam a cidade

De muitos artistas com sonhos bêbados.


(Jessiely Soares)

Segredos






*



O rio sussurra
Durante a passagem
Silêncios inabitáveis


Só aquela flor
Desbotada,
embalde
Conhece os mistérios

Que
vão, vão.

Em sua eterna
susceptibilidade


As águas mansinhas
E turvas
Oriundas de tantas
fúrias
Não conversam
Com o mundo
Em meio à escuridão.


Apenas aquele resquício de vida
Minúscula e descolorida
Contém os amores
E as esperanças perdidas
Que o rio sussurrou


- Dos trigais a deitar
Com a força do vento
Dos moinhos
Dos filhos
Dos mananciais
E o choro de Deus
Que serenou tantos cais -


Descalça
naquelas
águas
Nada ouço: o segredo emudeceu.


Que seja!


O que passa
Guarda um silêncio
fadado àquela
flor que o vento enleia e que não saberá
nada além que seu próprio passado.

Eu
Fico às margens

Sem compreender
O ciciar
Do rio


Mas posso esperar
Meu futuro
De olhos fechados.



(Jessiely)

Monstros


Caminhe devagar pela casa
do meu peito para não acordar
os monstros que espreitam
e tentam me assustar


Dizendo que o seu olhar
partiu e que não vai voltar.


Cuidado !
Meu teto é antiga construção
arquitetada por loucos em fuga
do meu coração,


Pise vagarosamente
não faça barulho
não ceda à tentação,


Mas, deixe ao léu com raiva perturbadora
cada pedaço de mim
que se deixou consumir por você,


Prossiga!
porque a estrada é nua
e seus passos certeiros
traçam o percurso que só você poderá construir
ou perecer,


Meu rumo está devastado!
Seus passos perdem-se aqui,


Mas, ao menos sussurre que me ama,
e não me deixe dormir.


(Jessiely)

Maré Cheia


Na noite
em que tua voz cintilou
por entre tantas outras vozes
senti
os fogos de artifícios
explodirem na tua pupila.


Tornei-me astro
em teu sistema
num ponto qualquer
que me refletia.


Na velocidade
do pulsar das minhas veias
percorri teus pensamentos
e por alguns breves momentos
me senti completa,
plena,


-como onda voraz
que se eleva
na fúria da maré cheia-
E me lancei
na incerteza de ser flor
ou teorema.

No barulho das sandálias descalças
pelas poças d´água
depois do avanço do mar

Dos respingos
de brisa salgada
que paralisava a vida
em contato com o ar


Fui brisa
ou vento alísio
feliz por ser quem sou

Assanhei teu cabelo
roubei um pouco do teu cheiro
e meu cais serenou.




(Jessiely)

Te guardo aqui



Parada
Não sou areia
Nem ventania
Sou como onda
Já rebenta
Em teu olhar

Paraíso?
A inércia
Dos minutos ritmados
Com o bailar
Dos teus cabelos
Vento manso
Espuma branca
Mar bravio
Ainda trago
Tuas marcas
Em meu espelho.

Sabe-se lá
quantos
monstros
marinhos
perderam-se
Nas vagas
Que insistimos
Em atravessar.

Terra firme
Não tão firme
Quanto tua voz
escondida
Sob seixos,
Sob relva
respingos
salgados
Que se misturam
Ao vinho
No silêncio
________[da espera].

Minha voz
perdida
Na tua
Onde o mar
De ambos os lados
Chora e lança-se
Entoando cânticos
As deusas nuas
Porém tristes

- eu canto
apenas
Para agradecer
Que tu existes-

Dorme em seu leito
Vis tesouros
naufragados
De tantos navios
Que passaram
E eu não vi.
Na terra firme
Vive meu anjo
barroco
De tão
embriagado
Em seu vinho
barato
Nem desconfia
Que o observo
A dormir.

Enquanto
As sereias nuas
enfeitiçam
Os canoeiros
Eu te guardo
Aqui.



(Jessiely)

Tela de Monet


Sinto
Quando te olho
Que somos
Tal qual
Uma tela
De Monet.

De perto
Somos pingos
E respingos
Misturados.
matizes
embriagados
Tornando o concreto
(des)concreto

De longe
Se nos olharmos
veremos
Que somos
desenho
Que o destino
pintou
Certo.

Uma bela tarde de Sol
Uma ponte que cruza o jardim
Um canteiro
Rasgado a um canto*

Teu sorriso
Cheirando a Carmim
perdido
Entre flores
machadas
Minhas mãos que
Desenham tuas mãos
Brincando com
A sombra das calçadas
Tudo isso passaria
fugaz
Se não fôssemos
pintura
arraigada

Sim,
Tenho ainda mais
certeza
Somos tela nova
Ainda escorrendo
A tinta molhada
Somos mais que desenho perfeito
Somos pingos
pingados
No peito
De algum artista
bêbado
Da madrugada.

(Jessiely)

Immortale


Enquanto as horas
desenrolam-se
Em sua teia brilhante
De cadeias
seqüenciais

Eu raciocino.

Calada
Produzo pensamentos
Escandalosamente altos
Que projetam ao
Meu corpo
Todos os sons inaudíveis
Do teu olhar:

Inaudíveis para os outros
- pobres mortais-
Que não conheceram
Um amor
Como esse
immortale

Indelével
Não perece
Nem sob a mais
Torrencial chuva
Ou o mais
Inebriante Sol
E ainda assim
Não deixa de ser singelo
Como uma mariposa
Ou como Libélula,
Ou ainda como Alga marinha
(ou ainda como a luz salpicada
Sob o arrebol).

Nem
Deixa de ser sutil
Como quem ama no escuro
E se satisfaz
Com os próprios segredos
Com as próprias juras
-Indescritível
Mundo-

(Os sons produzidos
calam-se
Não está exposto
A ninguém
Seu respirar
Noturno.)

E eis que caminho
desenhando
Tudo isso
Nos riscos
bagunçados
Das nuvens passageiras
Enquanto perdem-se
As horas
Em desacordo comigo

Queria o tempo
parado
O caminho
parado
O vento,
Esse atrevido,
Passando devagarzinho

E esse Céu
Que cismou em me ouvir
pensando
E conspirou
Com meus cabelos
Para me
desconcentrar

Perdeu seu tempo
Entre os meus fios embaraçados
Que esvoaçam,
Esvoaçam,

Sempre
Existirão teus dedos
Que os prendem
suavemente
Enquanto tua boca
Feita de mil desejos
E que contêm todos os
segredos
me
desvenda(rá)

E sempre
Terá esse ruído
Mudo
De horas
imortais
Que insistem
Em
Recomeçar.
(Jessiely)

Planar





Vejo-me
criança
E isso faz bem
Literalmente.

Finjo-me
bailarina
Com as mesmas
sapatilhas
Sentada ao lado
De um rio
- nascente -

Nascemos
Ora eu
Ora ele
Num afagar
de
ondulações

Desenho borboletas
Com asas
negras
E a alma
rosa
De leves paixões.

Não
Nem de longe
Sou a mesma
infante
Da qual me perdi

Sentada no
remanso
Sou apenas
Vestígio,
Estrela desastrada
Que caiu
Aqui

Desejo
Que se fez bendito
No passo
Solto e leve
Que me fez pairar

Agora
Sou corpo
inerte
que
Carrega o peso
De não
Saber planar.


(Jessiely)

Girassol no meu olhar



Ninguém avisou
Que os segundos
Magoam o peito
Que antes eu
Julgava indolor.

Ninguém
explicou
Que o girassol
Em meus olhos
chora
E cada lágrima
derramada
Carrega um pouco
Da sua cor

Mas eu descobri

Meu rosto manchado
De certo matiz
Marrom amarelado
Carrega a dor
Solene da saudade

E essa brisa
indomável
Que carrega a chuva
Afaga os meus cabelos
Traz gotas
De orvalho:
Pura maldade.

Me deixam
calada
Com canções imaginárias
Pedaços de solidão
Numa terça feira
À tarde.


(Jessiely)

Entre as mãos


Vejo a borboleta
Que perdeu o rumo
Entre as promessas
(des)feitas.

Resignada
Ao fim
Em idade tão tenra
Ela ainda
Oferece à vida
A cor intacta
Da alma.

Vã oferenda

A vida detém as cores
E almas
furtivas
Tão ou mais coloridas
Que a dela, sutil
E já desfeita.

Só não tem
O detalhe
infinito
Da paisagem
Que desenhaste
No foco
Do meu olhar

Nas mesmas ondas
Que todo mundo

Que beija a areia
E apaga os beijos
Ao retornar

Tu d(escreves)tes
Um caminho
traçado
contínuo
Ao segurar minha mão

Nossos passos
Não ficaram
Mas a vida
Tingiu meus pés
Despitou segredos
Confessou sua razão.

O amor deixa suas cores
A vida se esvai
Mas as marcas que o mar
Não carrega
A brisa traz
escondida
Entre as mãos.



(Jessiely)

Anjo crescido


Um Anjo crescido
Acrescido de asas
Sentou-se a beira da minha cama,
E me falou, sobressaltado:

- Levanta que já é madrugada,
Dissipa-se o orvalho!

Eu, incrédula
Observei seus olhos
Amendoadamente cor- de- mel
E perguntei entusiasmada
Se ele caíra do Céu.

Mas ao invés de falar
Ele sorriu, gentilmente,
E mirou ofegante
A janela distante
Do meu aposento dormente.

- Levanta, já é madrugada!
Dissipa-se o orvalho!
Mira que lá fora ao léu
Aguarda-te o amado.
Ansioso por tê-la,
E caminhar ao teu lado.

Assim sussurrando
Um tanto mais calmo
Arrebatou-se o Anjo
Do meu prédio ao alto.
Deixou-me sentada
Com o meu melhor sorriso,
Respirando calor,
Sussurrando e sentindo:

“- Estou indo meu amor
Antes que o orvalho dissipe
Orvalha meu corpo
Contigo.”

E sem asas, parti,
Pelos teus caminhos notívagos.



(Jessiely)

Véu de estrelas


Durante a noite
Preso no firmamento
Um véu de brancas estrelas
Desenha teu rosto.

Eu, inanimada
Apenas imagino
Se no teu infinito
(re)desenhas meu corpo.

No que penso
Defino
Entre tantas invenções

Um encontro
Um destino
(segundas) intenções

E fico
Sagradamente deitada
Sob o céu de antigos
Sonhos estelares

E se miras
Meu rosto
Do teu trono
Sobreposto
Sobre os anos-luz universais

Verás que sou pedaço
De tua constelação
Estrela
Que te alimenta de luz

Nada mais.




(Jessiely)

Teus Olhos Castanhos


O dia está seco


O Sol quase mata quem atravessa o leito seco do rio.
(caminha-se por toda a extensão rachada e marrom-acinzentada do que antes fora um límpido rio azul).

Os transeuntes apressam o passo.

Param debaixo dos Umbuzeiros como se quisessem retomar as forças para persistir na caminhada.
Recorrem às sombrinhas.
Algumas senhoras abanam as saias, na esperança que algum vento atrevido diminua-lhes o calor.

E necessitam. O calor está de matar, lá fora.

Eu aqui vejo tudo pela janela, debruçada sobre uma brisa que vem não sei de onde.

Porém, se teus olhos castanhos me fitassem e me pedissem para ficar alheio a tudo e te admirar na calçada.

Eu ficaria sob o Sol a pino.

Teria frio hoje.

(Jessiely)

Imaginando





E se não houvesse os caminhos,
Onde perco o que procuro?

E se não houvesse a mentira,
A dor, o absurdo?

E se não existisse o porém,
O por quê, o inexplicável?

Ou a dor que me persegue?
Ou o medo do acaso?
Ou a tristeza... A solidão?

E se não houvesse a saudade?
Que machuca, dilacera.

E se não houvesse a fome,
Naquela maldita viela?

E se eu não pudesse reinventar-me,
Ter ilusão?

E se não houvesse isso tudo...
Para que serviria a minha imaginação?

(Jessiely)

Canção.


Canção.



O caminho imperfeito
Eu sigo calada
-por fora, ao menos-.

Por dentro do peito
A canção se repete
desbravando
as
ladeiras

No meu corpo inerte.

E canto tão alto
Que a canção ressoa
Por olhos, ouvidos.
Na pele, na boca.
Usurpando os sentidos
Da tarde cabocla.

Mas, ninguém me ouve.
Se grito calada.
Se o que me cadencia,
É tua batucada,
Que dentro de mim
Acomoda, se espalha.

Tua voz ressoa, menino!
Devasta.
Teu canto no brilho
Do olhar
Fascinou.

Faço-me ouvinte,
Cantante,
d
e
s
g
o
v
e
r
n
a
d
a.

Por dentro deliro
Os meus descaminhos
Tua mão ritmou.

(De tanta voz tua
E tanto gesto teu
E tão meu,
No fim.)

Nossa canção,
Perfeita de gestos
De alguns traços sérios
Roubados por mim

Me en (cantou).



(Jessiely)

Louca e Pura





Lua
Na amplidão
observando-me
solitária
Esquecida,

redonda
pálida
nua

Não creia que sou
inocente
Ou que não conheço
Meu lado (obscuro)
Também tenho fases
- estou na rua -

Sei que sigo.
sozinha
Essa estrada

Saiba, conheço
Tua forma de
zombar
disfarçada

Finge que esconde segredos:

(- Não sei
Onde esta meu amor
Não me conte
Mais dissabor
Tenho medo.)

Vou seguindo;
A noite é clara,
A estrada fechada,
Iluminada por vaga-lumes.

Quero os braços
De quem amo
Para que não
Cesse o encanto
Nem a solidão
Se acostume.

Refaço a rota
Volto ao quarto
No reencontro
- sou louca
E pura -

Fecho as janelas
Não deixo frestas
Para a Luz

E os nossos
Corpos nus
Tu não verás

Lua.


(Jessiely)

Inerte


Pendurada na corda bamba
dos meus sonhos,
desafio a gravidade,
inerte e imune
à realidade.

Trago teu silêncio
persistente
para meu quarto.

Madrugada nas cortinas,
despida Lua
E teu retrato
orvalhando
pela cidade.

Pobre de mim
que lancei
meus desvarios
sob o nada
e perdi
minhas razões
em certezas absurdas.

Pobre desses sonhos
tão mutantes,
metamorfoses
lancinantes,
mãos fecundas.

- há sempre uma
tristeza
nessa sala
que me inunda -

Nesses momentos
de insensatez profunda,
sou menina.

E apenas
o teu olhar
castanho
me alucina.


( Jessiely)

Surya





O Sol
Que alimenta
Seu corpo
Nas madrugadas
Sem vida

Nasce em meu ventre
E te guia
De encontro ao céu:
Raios de Surya

O corpo que banho
A luz
Que a clara manhã
tece

É o mesmo
Que na noite
Foi teu
E o calor
Que se entrega,
entorpece

Ah, noites!
Nas quais te beijo
E renasço
-Entre prazer
E espelhos-

E que no fogo
No breu
Explosões...
Sol do escuro


Te aqueço.


(Jessiely)



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Perfume de Mulher




Meu coração
Às vezes é janela
Às vezes, gaiola...

E me deixa sempre assim
Meio amparada,
Meio só.

Meu sentimento
Não tem regra:
magoa,
chora.

Noite fria
Me reclamo
Mas, não sei
Se me zango
Ou se me tenho
Dó.

(teu amor)
Ah, nem sei,
Tenho medo
(De ser só)

Meu passarinho
Não te prendo,
Nem te privo...

Repara bem
Se não sou
Ilusão de ótica
E sem me quer.

Não tenho
Tantos atributos
Quanto a Rosa
Mas, não
Me ressinto.

Prefiro ser
Girassol...
Com perfume de mulher.

Meu coração
É meio janela,
Meio gaiola

estarás
preso
A mim
se
Quiseres



(Jessiely)

Maracatu


*




O Corpo corresponde
Aos apelos do som
Que me impõe
A cidade antiga

Os braços flutuam
Entre o Céu e a rua,
Entre a torre e o mar,
Entre o vinho e a Lua.

A ciranda que tece
O bailar ritmado.
Os pés que batem
Com força no chão

Um barco que aporta,
Um farol que ilumina,
A escada sem fim,
Que descortina a imensidão.

E o vinho
Que despertou as lágrimas
E te sorveu para o meu coração.

A Rua da Moeda,
As nuvens carregadas,
E a chuva
Que cismou em não cair.

Agora
Ouço
Maracatu
Longe
De ti.

(Amélia Jessiely Soares)

Cidade entardecida.




Qual lua desperta,
Estive em teus braços
No parapeito da janela, dispersa,
Cuja vista despencava
Numa queda sem fim
Dentro da cidade entardecida.

Os ritmos que
Transpiravam a alma
Faziam-me repensar
As certezas sobre a vida.

Na escada em caracol,
Pela torre mais alta,
Onde antes homens lutavam
Por sua terra,
Honra,
Vida.

- estive
Há poucos passos
De Deus,
Até pude sentir
Sua brisa -

E o sonho encerrou
Apenas por hora.

Com o vinho,
O beijo, a ciranda.
O Marco Zero.

E seguimos
Entre sorrisos e tropeços
A Conde de Boa Vista,
Observando olhares alheios

Deixando pelo caminho
O cheiro do mar,
O poeta na estátua antiga,
Os rastros da nossa história
Nas pontes
Sobre o rio
Sem vida

- mãos dadas
Pela cidade
Antiga -



(Jessiely)

Proletaríssimo


Não quero ser
Pedaços de sonhos:
pesadelos
É que me dilaceram.

Sou apenas
Um sentido oculto,
De um segredo
Que me disseram.

Um ser antigo,
Não na pele,
Essa mera e
Mórbida camada
Que me reveste;

Sou antiga
Em sentido amplo
-Meu espírito não
Foi domesticado
Ainda é silvestre-

(sou sentimento mútuo
Em tempo de amor agreste)

Sou desejo incontido
Em toques
Desses, daqueles,
Aos quais não posso tocar.

E às vezes,
Faço-me orvalho
Pra finalmente
Me dispersar.

E nas madrugadas
Revitalizo-me
Ser da noite
de olhar tranqüilo...

Amanhece
e
recomeço;


Proletaríssimo!

(Jessiely)

Desejo Inútil




Fiz-me céu
porque sempre
- sutilmente -
Vejo-me em tua praia

quando ao fim de tarde
senta-te na areia
e miras o mar

Fiz-me pássaro
porque sobrevôo teus pensamentos
-intermináveis
contratempos-
nos quais anseio ajudar
mas posso, tão somente
olhar.

Fiz-me caminho
Fiz-me teus passos
Teu desatino
e teu cansaço.

Mas nunca
Desejo inútil
entre teus braços.



(Jessiely Soares )

Desacelerado


Teu rosto é um vale
Onde escondes teu sorriso
Que me inundou a alma.
Ah, Alma!

Essa que se perde da matéria
Enquanto durmo
E volta ao teu quarto
Chega a um sussurro...
Deita ao teu lado

Teus olhos
Remetem-me a águas antigas,
Velhas trovas de amor,
Valiosas profecias:
-Tua retina contém segredos
Que a ninguém revelarias-

Tuas mãos, não,
Essas não defino:
Tem uma certeza das minhas curvas
Conhece meus desatinos.
Louca viagem entre astros
Matéria, sonho, delírio.

Paixão é outra coisa
Amor é isso:
-Perder a noite
Pensando alto
Quando estar em teus braços
Não é possível-.

E o tempo
Inconstante,
falso
Mantém esse
Ritmo
.
.
.
Desacelerado.


(Jessiely)

Delirante




As ruas se cruzam
Com meus passos distintos
Certificando-me que sigo
Em rumo diferente
Ao da tua direção.
Perco-me nessa sensação.

Os faróis me descrevem
Assustam-me
Os pensamentos
Giram, mudam
E me pego descrevendo a angústia
Sentando ao meio-fio
Solidão...

-Os meus sentidos
Não perdem o desejo, o amor.
inconscientemente
Aplacam o meu grito
Minha dor-

Contudo.
Ergo-me.
Por que entre os néons que me cegam
Estão m