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sábado, 2 de janeiro de 2010

Cárcere a céu aberto

http://ixamostradepesquisa.pbworks.com/f/rio%20negro%20e%20solim%C3%B5es.jpg



Eram pequenos trechos.
Miúdos como poeira.

Não se misturavam, é fato, tal qual Negro e Solimões; corriam de mãos dadas, mas sem entrelaçar os dedos (como se entrelaçáveis dedos de rio fossem) e tinham um hábito de não gostar de calmarias.

Eram ela e seus rumores.

Uma porção de tartaruguinhas singraram a areia, seguindo o instinto foram se conhecendo oceânicas. O mar era tão valente, elas tão pequeninas, o caminho vasto do desconhecido.

Seus rumores e as tartarugas recém-nascidas.

Se alguém agora conseguisse abrir seus diários de bordo, veria que nada mais havia que uma âncora lançada ao nada e uma contagem errada de vidas, num breve espaço, no alto da página quatro.

Seguiria assim, porque o medo fazia parte da matéria da qual era nascida. Ventos de mudança assanhavam-lhe os cabelos, mas mantinha os pés fincados na rocha por causa da inexistência de algas marinhas para enlançar-lhe as pernas.

Era única e não era valente; sem nau, uma viajante sem velas, numa duna pálida.

Bravias ondas de desertos.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ávida


Eu não sei direito...

Ela não faz curvas, nasce reta, caminhando pra frente.
Eu sigo logo atrás, vela na mão, candeeiro pedindo clemência.

Sou a que segura a sombra, a que enfeita o escuro, a que guia a cegueira temporária das manhãs

E, se há algo nesses detalhes esquecidos que eu não conheça, é necessário que se aja com paciência. Afagos de garupas de pensamentos não nascem em ordem crescente ou decrescente. O dia se atrapalha com as carícias das lembranças.

As coisas, quando inseridas em algum momento de amor, seguem sentido próprio.

Um farfalhar de sorrisos, uma história de mata fechada, uma manhã de estuário. A voz dele embaraçada a uma música Cotidiana de Chico.

A vida vai me estirando na estrada de poeira...

Lado a lado, o cajado dela me traçando rotas.

Eu, com meus pequenos temores. Ela, com os seus fios desencapados.




(Jessiely Soares)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Simbologia II


A noite adormece
às 18:00 em ponto
e a vida toda dá corda em seu sistema

no teto solar do mundo
vão surgindo estrelas
e lá fora

com colírio de orvalho
Girassol guarda o olhar do dia.

Eu espirro
porque tenho alergia
ao gato que entra faceiro na sala

Minha filha compõe alguma canção inabitável
e nas paredes, avermelham-se desenhos
que ela estampou

Nada mais fala,
somos apenas um segredo





(Jessiely Soares)

Simbologia







Quando a tarde cala os barulhos de chegada
após o trabalho
eu me faço matrona,jantar e cheiro do café.

Não há solidão aqui desde o Mais Encantado Ano.

Há entre as paredes escurecidas da casa
símbolos de infância,
som de voz de criança
e uma canção desordenada no piano.





Jessiely Soares

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quinta estrela

http://mob185.photobucket.com/albums/x93/perdida2007/MULHERES3/estrela_mulher.jpg?t=1242309515


Eu poderia,
numa hora dessas,
ser alguma atriz.

Encenar uma peça
onde no fim da festa
pusesse meu sonhos na ponta da quinta estrela

deixando-os
pendurados
de cabeça para baixo

por um triz.

Ou será
que em todos esses devaneios
em toda essa ideia de esquecer meus anseios

eu já não o fiz?






(Jessiely Soares)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cantos para o infinito








Nada cabia ali.
E ao mesmo tempo, cabia um rodopio de ares e gaivotas.

Devagar, com a singeleza dos pequenos afetos, eles se iam e voltavam como marés.
Algumas canções e pingos de água salgada dos cabelos dela, assentavam na areia dos pés dele.

Eram, de repente, soltos em meio a tanta conchas, um veleiro. Com panos de cobrir a vida.

Jovens, decerto, porque ainda eram tingidos com as nuances da inocência.
E todo o paraíso ainda era de nuvens tamanhas que adivinhavam aviões.

E ela nunca havia navegado no Pacífico.
E ele nunca havia visto o Sol nascer no Atlântico.

A vida era uma boca de engolir sonhos, no meio do mar morto, sais de todos os tipos agrupados nos olhos.

E a liberdade cheirava a coisas sublimes.
Eram finalmente dois navegantes das areias infinitas.

Além, muito além do ancoradouro.


(Jessiely Soares)