segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Diário da Distância III



Agora perceba, agora, que o ônibus partiu
e a casa inteira pôs-se a  me consolar,
perceba que o mundo inteiro
é composto de uma calma gelada.

Se fosse diferente - note que eu possivelmente serei incoerente -
as efusivas divisas não teriam a duplicação das estradas e
não seriam todas recobertas de asfalto brilhante.
(quando eu era menina, entrei no mar de Tambaú e sujei meus joelhos com piche)
e menos ainda convidativas e iluminadas.

E para que tudo isso existe senão para cultuar a distância?

O ônibus já partiu.
Entre o retrovisor e eu, já há léguas.

Mesmo assim, estou aqui,  com esse frio digno de São Petersburgo,
disposta ainda a lhe fazer um aceno. Uma cena...

Para que você compreenda
que esse mundo, nada mais é que uma agonia longa, asfaltada e portadora de saudades
e que nós, coniventes, chamamos de casa

É uma fábrica de distâncias, para que olhos famintos de companhia
sofram as dores que separam todos nós:

habitantes terrestres
de ninhos reformados,
tolos órfãos da pangéia,
animais sem asas.



(Jessiely Soares)

1 comentários:

Poeta Vagabundo disse...

Construção fantástica de quem realmente sente essa saudade! E eu também sinto :~

te amo!