quarta-feira, 7 de abril de 2010

Olhos de Azul Céu

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Um dia meu pai abriu as portas da casa de par em par ( casa antiga com grandes e pesadas portas que fechavam com tramelas), e pôs-se a caminho com as coisas que gostava.

Pousou os olhos na tarde.
Notou que nos batentes havia musgo.

Era um dia ignorado, semana de um ano qualquer. Foi-se, com coisas miúdas, como quem por gosto não deseja levar nada.
Nem a família, nem a casa, nem as cartas.

Depois, pouco se ouviu dele: sem rastros, sem um rasgo de perfume. Sendo portanto alguém que, não havendo amado, também nenhum amor deixara.

Normalmente sinto sua falta. Saudade é coisa que fumega, vai cortando espaço.

O amor é um contratempo. Quiçá, uma eventualidade. Dá-se a quem não merece tanto a quem faz por merecer.

Há dias em que esse todo vazio me arde como um temporal de estilhaços.




(Jessiely Soares)



Imagem: GettyImages

1 comentários:

aluisio martins disse...

qta força e nudez nas suas palavras. trazem mudez e me alarga o tempo do talvez.
abs