*
Selvas de medo e tristeza
Em um trem na madrugada a dentro
Na época em que tudo que era vivo
corria perigo.
Vagávamos,
Noite em claro
No último vagão disponível.
Mas tua mão se entrelaçava na minha
e tudo fazia sentido
(Jessiely Soares)








*




Agarrado no vento
Foi-se o teu rosto pra longe
Onde mora o absurdo
Naqueles dias
Os rios cantaram
- É primavera
Ao redor do mundo!
Mas eis que em mim
O frio dançava
Feito de orvalho e pedra
Entre o horizonte e o mar
Teu amor era a última morte
Anunciada
Onde viver seria algo eterno
Não me atrevi a ir além dessa dor
Virei sereno.
Fingi-me inverno
(Jessiely Soares)

E foram-se luas e flores
Até o tempo desabar,
Quase na palma da mão.
Foram-se doze primaveras
As mais lindas bailarinas
E algumas mortes, esquecidas
Dias, sim
Dias, não.
No doce último sorriso
Bordado de improviso
Naquele último luar
Éramos sonhos como medo
Enquanto as luas escolhidas
Brincavam de voar.
*















Seu olhar causou
arrepio
E a noite sumiu
Passou.
Agora sou só a sua imagem
repetida
Em prosa,
Poesia
Versificando
Dor.

Teus olhos
Refletem raios solares
Sobre a terra fértil
Do teu rosto
Teus lábios
Respondem a apelos secretos
E o samba embala...
Me embala.
E pena que Noel
Não saiba
Que roubo o samba que te lembra
Todas as noites antes de dormir...
"Faço junto do piano esses versos pra você
Esses versos pra você, esses versos pra você"
E adormeço fingindo
Que te tenho aqui.

Separo
A dor das visões
Que me prendem
E me dilaceram
Divido
As pressões inatingíveis
As horas
desenham
O tempo
Que coloca em
movimento
Os meus
muros
e
divagações
E finjo-me criança
Enxergando de novo
Carrosséis em nuvens
Sem imaginar
A tempestade que se aproxima.

*
Calada
Nessa casa vazia de almas
E tão cheia de gente
Pessoas que vão e vem
Somente.
As horas passam
E ninguém nota
Que estou sozinha
Um eco sem pudor
impera
O ambiente claro
Irrita os olhos sensíveis
Do coração
E o espelho reflete
atrevido
A esfinge que sou
Dos olhos pra fora.

Dorme.
Que teu olhar
cerrado
Abre de outro lado
Uma janela
Modesta.
E Enquanto
Eu sento
E escrevo sozinha
acredite
Sou o fio de luz
Que te banha
Pela fresta
Da tua persiana
Entreaberta.
(Jessiely Soares)

Não acho motivo algum
Para definir
As vidas
entrelaçadas
Nem todos os filósofos do mundo
Compreendem nossas páginas recém riscadas
Como nenhum dos sorrisos
noturnos
Podem sorrir com tanta suavidade
E não desejo objeções
Sonhos,
Palavras ou
frases
Sou apenas
Pardal brincando
Em tuas manhãs
Enevoadas.
(Jessiely Soares)

Não havia moinhos de vento
Nem devaneios visíveis
A olho nu
Só você segurando meu olhar
Como quem sustenta nos braços
Os hemisférios
Norte e sul.
E o céu como
Quem quer calar
Para não se envolver
Nas bocas que a vida separou
Deixou-se chover
suavemente
Entre nuvens dormentes
Mas não ficou azul.
(Jessiely Soares )


Vem
Escreve teus versos sobre a maré
Essa que desatina louca
As vertentes do fogo
E que instiga os sonhos
De quem se atreve
A perder seus versos
Nas vagas
leves
Segue
Que a noite é curta demais
Para os desenhos na areia
Para a grafite no muro
Para a nudez da lua
Pára de respirar e
Faz os versos bandidos
Nessa claridade crua
De desenhar sensações
Em rabiscos de palavras
Descansa
Mais leve agora
Depois de parir
Tua verdade obtusa
Nesse rodopiar seco de mundo
E estações de rádio
Agora
Dorme
Depois da mensagem
Jogada
E o risco de teus sonhos
Vai durar o bastante pra acalentar meus devaneios.
Até outra lua
Recriar a cachaça
Que embriagará outros amantes
Numa esquina
Ou sobre as pontes
Que cortam a cidade
De muitos artistas com sonhos bêbados.




