quarta-feira, 25 de junho de 2008

Do gesto mais simples




*

Selvas de medo e tristeza
Em um trem na madrugada a dentro
Na época em que tudo que era vivo
corria perigo.

Vagávamos,
Noite em claro

No último vagão disponível.

Mas tua mão se entrelaçava na minha
e tudo fazia sentido


(Jessiely Soares)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Noites e pedras


Por essas ruas, por essas luzes amarelas...
Fui deixando pequenos contrastes
- amor e pedra -
por passos não contados no caminho

Medindo
sob estrela e a aquarela
sob o canto do bêbado e a espera
o rubro alvorecer no céu antigo

Conjuguei em versos tais,
- de universo e outros vinhos -
a certeza da entrega
em cálidas noites
de serenos antigos demais...

Os passos não contados
que ficaram de tantas vidas
já não cabem...
nem nessas luzes - segredosas de passados -
nem nessas pedras de rua
de madrugadas imortais.


(Jessiely Soares)



*Foto do Recife Antigo:
http://www.skyscrapercity.com/showthread.php?t=518469

sábado, 17 de maio de 2008

Prematuridade


Prematuridade




Nesses dias de ocaso
ao meio-dia
em que tudo lança, fere, sangra, mata

me deixo em pedras frias na calçada
na esperança de chocar-me
contra o vento

Nesses tempos
em que tudo morre, tudo esfria
desenho a última dor da poesia
que se deixa adormecida ao relento

E por horas, inocentes e mostruosas
espero tua voz
vir me carregar antes do Sol...

Não é o que me dizes que me dói
a minha dor é porque tu não
me salvarás à tempo.


(Jessiely Soares)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Contrastes


Eu tenho, nas horas vagas
criado constelações com teu perfume
e em teu nome, feito explosões
em minha galáxia...

Mas no dia-a-dia nublado
há certos momentos
em que tua luz não me acha.

(Jessiely Soares)

Poesia enferma


Em todas as odes
que eu nunca fiz
sempre me faltaram duas:

Uma que me faça partir
e outra que me pragueje a cura



(Jessiely Soares)

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Explosões


*


Quando teu sorriso cai
na boca da noite

me foge o verso
e meio quilo de dissabores
por entre estrelas de mata fechada...

E se a noite não fizer nenhum sentido
ou se a madrugada
não adormecer contigo,

pinto teu olhar na alvorada.



(Jessiely Soares)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Das palavras esquecidas




*

Se fez luar tão rápido
Que não modifiquei o verso
Nem questionei teu abraço

Se fez luar tão rápido
Que tudo o que restou
não se deixou intacto
tampouco nos iluminou

Se fez madrugada?
Não vi!
Parti antes que a escuridão
Se perdesse de novo de mim

Ficaram pedaços?
Não sei

Guardei na memória:
O que errei,
Meus súbitos desejos
E a antiga dor agreste

Se fez noite
De repente
Em tudo que me disseste.


(Jessiely Soares)

Dos Olhos Tristes





Teus olhos tristes
me remetem
à última revoada

Sem tempo de despedir-se

Sem nunca
ouvir
a última canção

É como a primeira
folha que cai
ainda verde

ou como o último
passeio do trem
parado, agora,
na antiga estação...

(Jessiely Soares)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Do carinho


cai a noite
mais sombria
como véu em teu retrato

Assim sendo
amplio o mundo
colo no céu o teu abraço

Madrugáveis



estive pensando
no peso de duas estrelas
no vácuo do universo

e em dois dedos de boa prosa
com uma cachaça
no invernar do brejo

ao som de qualquer violeiro
ou dos causos perdidos
do velho Joaquim

e tudo que me faz feliz
mesmo nas horas loucas
de fogueira e violão

é eu gostar de você
e você, contudo,
também gostar de mim.



(Jessiely)

Das Angústias Noturnas

sexta-feira, 25 de abril de 2008

Alvorecer de Maio


*


Vem cá minha menina, não me olhe desse jeito
será que não percebes que já amanheceu?

Todas as estrelas, rumaram em cortejo
o que era morte, foi na noite
e o que era negro, já morreu.

Senta-te, não chore, deixa cá eu te ninar
não cabe acalanto se não puderes sonhar
não diga que és tola ou que o passado te envenena
é claro e lá fora já é outro rio a cantar.

( será que não ouves?)

Dá-me tuas mãos de branca seda.
Dá-me teu olhar, calado assim,
que me contém

Que todos os teus medos são tão meus
- são tão meus! -
Que essa brisa rouca
não os leva quando vem.

E quando anoitecer
que só reste teu perfume
neste campo, neste sonho
e na voz deste cantor

De nada vale a vida sem a lágrima perdida
que ao molhar teu véu insiste
em desnudar tua antiga dor

Sabe lá quantas das águas
nesse rio que há muito existe
são choros de antigas
dores e mortes invisíveis?


( Enlacemos nossas mãos, não fiques assim tão triste)





(Jessiely Soares)

quinta-feira, 24 de abril de 2008

A Noite da Bailarina

*



Foi-se a vida
Ou foram-se as asas
Do eterno vôo da bailarina?

Dança o último sorriso
Na face rosa de menina
Flor que morre em acalanto
No escurecer dessa neblina

Canta o último versinho
Minha terna bailarina
Que a noite ainda adormece
E antes da primeira estrela

Faz o último Plié
Nessa atmosfera
Morta
Coloridas em plumas vivas

E parte, meu bem,
Parte
Entre aplausos que te esquecem
De quem teima em ficar
Nesse teatro em que tu brincas

Voas alto em teus sonhos:
Tens o palco dos ares
Para o Ballet da despedida.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Das eternas mortes III



*

Antes que acabem
as rendas brancas da lua
e o grito da noite,
o último medo rasgará o vento.

Enquanto quatro mãos costuram,
placidamente,
estrelas nos pés de Deus,
o horizonte imerge
numa última sonata...

Antes do nascer
do dia,
na vermelha morte da madrugada

Haverá fogo nos teus olhos
e nas duas vidas
que habitam em ti,
desesperadas por amanhecer

Uma não irá morrer.
A outra,
sim.


(Jessiely)

domingo, 13 de abril de 2008

Das eternas mortes II


Pode um canto triste
moldado entre folhas
pousar no meu luar?

Um dia, era manhã
quando tu 'inda cantava
e eu ainda estava lá

Sangrou a última pedra
passou o último dia
Tingiu tudo a escuridão...

E tu cerrastes
meu futuro
como versos escondidos
entre o risco
e a imensidão.

Canta agora,
meu destino
canta o canto mais doído
da velha morte que partiu

No clarear da solidão
foi-se tudo, foi-se a lua,
nos deixamos feito chuva
na última curva do rio.


(Jessiely)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Das eternas mortes



*

Flores na brisa
cheiro de Maio
Dois versos cinzas
em breve contato

- Voa o amor por todos os lados.

Branco de dunas
ruas de Abril
noites de chuva
dia vazio

- Voa amor, aqui tudo é frio

Doces desejos
é breve, é claro
Canta o leito
que guarda o amado

- Voa amor, não fica guardado

Não morre entre cantos
de amor encantado.

Declaração de amor pelo batismo na cidade antiga"






*

Não, eu não sou pernambucana
nascida

Mas meus anseios crescidos na Paraíba
me deixaram tal qual Ariano:

"Paraíba é colo, recanto
mas Pernambuco
me veste de vida."

Nos olhos, do meu Recife
(assim, me apropriando)
vi o arrebol de sonhos
na noite que morre calma

Fui Marco Zero de bêbados
cantando vinhos e dores
quando a musa brilhava alta.

E surgindo, imersa em luz,
tingindo tudo que existe.
Eu, batizada por fina chuva,
namorava o capibaribe

(Com minha visão bordada
na cidade em que não reside)

"- Oh, Pernambuco que amo!
Oh,
___Recife,
______linda!"

Rasga-me a alma, confesso:

"Adota-me, pois não,
não sou pernambucana nascida
Mas é por te amar, que te verso!"


(Jessiely Soares)


Foto: Felipe Ferreira - http://www.flickr.com/photos/ff_fotografia/2327802800/sizes/l/

quarta-feira, 2 de abril de 2008

Bordando medos


Agarrado no vento
Foi-se o teu rosto pra longe

Onde mora o absurdo

Naqueles dias
Os rios cantaram

- É primavera
Ao redor do mundo!

Mas eis que em mim
O frio dançava
Feito de orvalho e pedra

Entre o horizonte e o mar
Teu amor era a última morte
Anunciada

Onde viver seria algo eterno

Não me atrevi a ir além dessa dor
Virei sereno.
Fingi-me inverno

(Jessiely Soares)

Bordando sonhos


E foram-se luas e flores
Até o tempo desabar,
Quase na palma da mão.

Foram-se doze primaveras
As mais lindas bailarinas
E algumas mortes, esquecidas
Dias, sim
Dias, não.

No doce último sorriso
Bordado de improviso
Naquele último luar

Éramos sonhos como medo
Enquanto as luas escolhidas
Brincavam de voar.

domingo, 30 de março de 2008

Marinho III

*

Não ouça o triste canto
que soa longe

Que o teu medo
desconheça
tal infortúnio

Não aceita a ilusão
que se oferece

Nas falsas brumas
desse desaguar
noturno.

Tesouros de Sal e nácar,
ouro e olhos

Engolidos
em mortas ondas
- frio e calcário -

Levados a profundos
reinos naufragados

Que ecoam
num madrugar
intempestivo

Não ouça o triste canto
que pressagia

"Guarda o teu medo
como à vida
O mar é a morte
do infinito."



(Jessiely Soares)

sexta-feira, 28 de março de 2008

Marinho II






Não cantes
ode
As marés

- Mutáveis
monstruosas
Incansáveis -

Nem chores
A morte
De suas vagas

Perdida
Em bravas
Naus incontáveis

Não desenhes
Tua vida
Nas areias

Nem deixes
pegadas
Pelos ventos

Guarde das
espumas
Tuas velas

Poupe
Do medo
Teus rebentos

Só permite
Que a brisa
Do destino

Suprema
hospedeira
Dessas mágoas

Erice o teu
corpo
Em desatino

E te faça
soberana
Nessas águas

Que as ondas
adormeçam
Em teus cabelos

Que vistam
Teu corpo nu
As finas algas.


(Jessiely Soares)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Marinho





Quebram na praia
Desgostos da Deusa

Em brumas de sal
jogadas na areia

E deixam o rastro
murmúrio das conchas

E mortes marinhas
de vidas alheias.

O medo nas águas
espíritos pairam

Ecoam brados
na névoa prateada

Dos assombros da noite
os choros calaram

Nos desgostos da Deusa
que quebram na praia




(Jessiely Soares)


Fotografia de: Bruno Abreu
~> http://olhares.aeiou.pt/galerias/detalhe_foto.php?tc=1&id=1438357

sexta-feira, 7 de março de 2008

Último pedido



*

Enterrem minha alma
no espaço indivisível
entre a cruz e a espada.

E sobre ela
lancem olhares
e críticas perversas

Mas não deixem de matá-la

Enterrem meus passos
na curva do caminho
entre o vento do destino
e a voracidade do rio...

Mas não deixem
meu passado
exposto ao relento
no impetuoso frio.

Levem em sacos vazios
as últimas palavras
de alguém que morre
sem conseguir ver
o tão sonhado pôr do Sol

Rabisquem em pedaços de papel
o poema que nunca foi escrito

Inenarrável!

Pedaços de um sonho qualquer
esquecido...

Mas, não deixem que morram
meus mundos
nem meu amor-lírico

Enterrem meu corpo
antes de enterrarem meu poema

Pois eu não sobreviveria
a morte de um filho.



(Jessiely Soares)

domingo, 2 de março de 2008

Bem que eu queria...


Queria ser por um dia
artesanato qualquer
pelas ruas de Olinda.

Ser talhada em madeira
pintada com a cor da rua
e do céu que se escancara.

Queria ser exibida
aos gritos
pelo vendedor
no meio dia
nas ladeiras
íngremes

E no meio de qualquer troça
que você notasse
e por qualquer preço
me levasse pra colorir
seu quarto

Mas que toda noite me visse.

(Jessiely Soares)


Foto de Felipe Ferreira -
www.flickr.com/photos/ff_fotografia/2040962840/in/photostream/

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Tempestades


*




Cacos de vidros,
companheiros fiéis
de jornada,

Fizeram da outrora estrada,
iluminado campo
de flores vítreas

Os pés, acostumaram-se,
e já caminham
por ódio, rancor
ou quiçá,
por mera
cisma.

Nuvens, arrebatadas
numa cúpula,
chovem granizo

Em rajadas
de dor e medo

Minha pena,
de morte,
perdida,
rabisca à força
nas rochas
em estilhaços

Como se a angústia
fosse tinta...
ou brinquedo

"Inspirem-me,
ó raios ,
que gritam ao longe
nos velhos dezembros
dos meus antepassados!"

Eis que
minhas palavras ainda terão asas...
alçarão meus sonhos despedaçados.




(Jessiely Soares)

Deus dos Sonhos



*


Se te esculpo
na areia
toda noite...
De que me vale,
se o vento na manhã
sempre te leva?

Se te tinjo
com tinta óleo
na madrugada

A noite passa,
e a moldura
se esfacela.

Meus desejos
se amontoam
pelos cantos.
Meus cantos
se amontoam
nos desejos...

Faço,
tinjo,
declamo.
Lanço a nossa
sorte
ao som do realejo

Entre surtos de desventura
desses que ninguém
nunca previu.
No deserto
da minha cama
tenho medo

Morfeu não
serve,
nem mesmo,
pra esquentar
meu corpo frio.


(Jessiely Soares)

A mesma solidão



*

o que resta dos desenhos na areia
quando o vento vira furacão,

são retalhos de alguma saudade
espalhados em cacos revoltos no chão.

O que rasga o peito a punhal
quando a lágrima cismada entala e não cai,

são gritos recém paridos de uma artéria triste
que se contorce e faz

o medo ressurgir regurgitando espíritos
desfazendo a paz

E a lua que jaz serena
não sente o pânico a me assaltar

Derrama sentada e sonolenta
brancos raios cheios rasgados pelo ar

Finge tranquilidade deixando-se imensa
na amplidão

Mas enquanto suspira estrelas
tentando inspirar algum bêbado ou alguma canção

Repensa a vida inteira
e queixa-se também da mesma solidão.


(Jessiely)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Dos momentos me perco


*


Vivo catando
sonhos
como quem
cata vida

E catando vida
como quem
cata tempo

Me deixo
em espaços
vagos pedaços
catando o que perdi

cata-vento.

(Jessiely)

Das coisas que não posso escrever


*


Nessas tardes
que o vento faz escarcéu
com as folhas barulhentas
da palmeira

O primeiro apontar de uma estrela
não pode nunca,
ser notado

o nascer da estrela
solitária
embriagada de frio e beleza quieta
não poderá entusiasmar,
não será declamado em versos,
nem transformada em dores
pelas dores inquietas do poeta

E ela aponta
no sétimo céu
enquanto esse vento quente
continua a fazer alarido

E se surge astros oníricos
que habitam teus sonhos mais doces,
assim como a luz dessa estrela
habitando tão longe
não poderei perceber...
nem descrever teu sonhar

Teus sonhos ecoam longe,
longe demais,
para que possam me inspirar.


(Jessiely Soares)

Deusa




*


Meus olhos são náufragos
oriundos das fúrias
desse mar

Sendo assim,
te fantasio onda.

E me tinjo de Iemanjá


*

(Jessiely)

Presente para a vida inteira





*


Dou-lhe a minha vida
amanhã,

Quando você
me puser
nas mãos

E desenhar
meu retrato
em um pedaço surrado de papel

Em qualquer botequim dessa vida,

Enquanto pensa num jeito
de levar no peito
um pouco menos de cachaça
e mais dinheiro pra família

Dou-lhe os meus olhos,
amanhã,

Depois de ter você cansado
pedindo jantar e abraço

"O trabalho me cansou,
arruma a cama, amor?"

E dou
meu melhor sorriso...

Amanhã

Logo cedo,

Enquanto você procura
o outro par da sandália,
a velha camisa rasgada,
esperando o cheiro de café
se espalhar pela casa

Será domingo, amor,
será domingo.

E o sorriso,
que fica na cama,
logo depois de deitar
no afago cúmplice
de tantas manhãs

Ah!

Dou-lhe a lua, amanhã,
amor,
assim que você acordar


(Jessiely Soares)

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Dos enganos da vida



*


Vês essa pétala
que sem cor e sem vento
acordou sozinha?

Há mais do que medo
nessa eterna aventura
que tira a vida e a recria,
perdida.

Há dor,
Há saudade,
Há pétala,
que partindo,
se despede
incerta
e
vai.

Não alcançará mais jardins,
nem rios,
nem outro jasmim,
nem carroça ou lagoa.

Mas,

bailará com o vento,
com tal sofrimento,
que até a vida atordoa!

Se cai,
se ri,
se chora,
Se voa,

Não se sabe,
não se sabe.

Morreu esta pétala
que um dia foi flor...
sem medo ou angústia

Em inércia profunda

Apaixonada
Pelo vento
deixou-se levar
- iludida -
num último pôr de sol
de uma tarde
pérfida

Vês, filha?

Vês essa pétala
que sem cor e sem vento
acordou sozinha?


(Jessiely Soares)

Do amor que não entende


O meu amor
não entende de medidas,
nem de distância nenhuma.

Nem mesmo conhece
a nuvem,
que de tão alta,
não se perfuma.

Não sabe guardar
segredos,
não entende de medos,
não teme as ausências
e por isso,
não agoniza, perdido,
nas tristes noites da rua.

O meu amor
é inteiro
enquanto é dividido.

Dessas angústias ele não entende,
nem de dores
ou de tristeza alguma.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Dos desejos







*


Teus olhos percorrem soltos
As letras
Que tatuam teu nome

Gravadas com partículas vítreas
Em minha válvula cardíaca

Entre espirais de fogo
Azul
De células desvirginadas
Que morrem
No meu horizonte.

E ventos que arrebatam pérolas
Enquanto o êxtase consome
(a vida)




(Jessiely Soares)

Dos desenhos



Desenho flores como espinhos
sombreadas com alucinação

Planto sementes de
medo
que irão resultar
em paixões

Rasgo pulsos como
gatos
que rasgam a lua cheia.

E de pés descalços
trago passos
para a madrugada
derradeira.


(Jessiely Soares)

Do amadurecimento


*

Vou redesenhar os mapas
perdidos no limbo
da minha memória
falha.

E enxugar as goteiras
da minha pele
nas areias
espalhadas
pela estrela primeira

nos monte alheios
da noite fechada.

E não mais regredir passos
nos espaços escalados
por algum cego indeciso;

Creio porque quero crer
milagres não me seduzem

Envelhecer é ofício divino.



(Jessiely Soares)

Dos pecados.



*


Todo verso
carrega consigo,
como poetas
em pleno cio,
farsas, dores e pecados

palavras que singram sem rumo,
altas doses de absurdo,
desejos mudos e surdos

e um
eu te

a

_____/

__________mo

rasgado





(Jessiely)

Da inspiração



Seu olhar causou
arrepio
E a noite sumiu
Passou.

Agora sou só a sua imagem
repetida
Em prosa,
Poesia

Versificando
Dor.

Do samba e luz dos olhos



Teus olhos
Refletem raios solares
Sobre a terra fértil
Do teu rosto

Teus lábios
Respondem a apelos secretos
E o samba embala...
Me embala.

E pena que Noel
Não saiba
Que roubo o samba que te lembra
Todas as noites antes de dormir...

"Faço junto do piano esses versos pra você
Esses versos pra você, esses versos pra você"

E adormeço fingindo
Que te tenho aqui.

(Jessiely Soares)

Das nuvens e inocência



Separo
A dor das visões
Que me prendem
E me dilaceram


Divido
As pressões inatingíveis


As horas
desenham
O tempo

Que coloca em
movimento
Os meus
muros
e
divagações


E finjo-me criança
Enxergando de novo
Carrosséis em nuvens

Sem imaginar
A tempestade que se aproxima.

Da solidão e tristeza


*

Calada
Nessa casa vazia de almas
E tão cheia de gente
Pessoas que vão e vem
Somente.


As horas passam
E ninguém nota
Que estou sozinha


Um eco sem pudor
impera
O ambiente claro
Irrita os olhos sensíveis
Do coração


E o espelho reflete
atrevido
A esfinge que sou


Dos olhos pra fora.


(Jessiey Soares)

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Dos versos e insônia


Dorme.


Que teu olhar
cerrado
Abre de outro lado
Uma janela
Modesta.


E Enquanto


Eu sento
E escrevo sozinha
acredite
Sou o fio de luz
Que te banha
Pela fresta


Da tua persiana
Entreaberta.





(Jessiely Soares)

Da suavidade do teu sorriso



Não acho motivo algum
Para definir
As vidas
entrelaçadas


Nem todos os filósofos do mundo
Compreendem nossas páginas recém riscadas


Como nenhum dos sorrisos
noturnos
Podem sorrir com tanta suavidade


E não desejo objeções
Sonhos,
Palavras ou
frases


Sou apenas
Pardal brincando
Em tuas manhãs
Enevoadas.

(Jessiely Soares)

Da Partida



Não havia moinhos de vento
Nem devaneios visíveis
A olho nu


Só você segurando meu olhar
Como quem sustenta nos braços
Os hemisférios
Norte e sul.


E o céu como
Quem quer calar
Para não se envolver
Nas bocas que a vida separou


Deixou-se chover
suavemente
Entre nuvens dormentes
Mas não ficou azul.

(Jessiely Soares )

Do Nascer do Sol





Os dois sob o Sol
são
poemas
do acaso

Corpos, somente

que envolvidos
são abraços

espíritos
reféns
numa centelha

e o universo
insinuando-se
calado



(Jessiely Soares)

Sobre Versos e riscos


Vem

Escreve teus versos sobre a maré

Essa que desatina louca

As vertentes do fogo

E que instiga os sonhos

De quem se atreve

A perder seus versos

Nas vagas

leves


Segue

Que a noite é curta demais

Para os desenhos na areia

Para a grafite no muro

Para a nudez da lua


Pára de respirar e

Faz os versos bandidos

Nessa claridade crua

De desenhar sensações

Em rabiscos de palavras


Descansa

Mais leve agora

Depois de parir

Tua verdade obtusa

Nesse rodopiar seco de mundo

E estações de rádio


Agora


Dorme


Depois da mensagem

Jogada

E o risco de teus sonhos

Vai durar o bastante pra acalentar meus devaneios.


Até outra lua

Recriar a cachaça

Que embriagará outros amantes

Numa esquina

Ou sobre as pontes

Que cortam a cidade

De muitos artistas com sonhos bêbados.


(Jessiely Soares)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Segredos






*



O rio sussurra
Durante a passagem
Silêncios inabitáveis


Só aquela flor
Desbotada,
embalde
Conhece os mistérios

Que
vão, vão.

Em sua eterna
susceptibilidade


As águas mansinhas
E turvas
Oriundas de tantas
fúrias
Não conversam
Com o mundo
Em meio à escuridão.


Apenas aquele resquício de vida
Minúscula e descolorida
Contém os amores
E as esperanças perdidas
Que o rio sussurrou


- Dos trigais a deitar
Com a força do vento
Dos moinhos
Dos filhos
Dos mananciais
E o choro de Deus
Que serenou tantos cais -


Descalça
naquelas
águas
Nada ouço: o segredo emudeceu.


Que seja!


O que passa
Guarda um silêncio
fadado àquela
flor que o vento enleia e que não saberá
nada além que seu próprio passado.

Eu
Fico às margens

Sem compreender
O ciciar
Do rio


Mas posso esperar
Meu futuro
De olhos fechados.



(Jessiely)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Monstros


Caminhe devagar pela casa
do meu peito para não acordar
os monstros que espreitam
e tentam me assustar


Dizendo que o seu olhar
partiu e que não vai voltar.


Cuidado !
Meu teto é antiga construção
arquitetada por loucos em fuga
do meu coração,


Pise vagarosamente
não faça barulho
não ceda à tentação,


Mas, deixe ao léu com raiva perturbadora
cada pedaço de mim
que se deixou consumir por você,


Prossiga!
porque a estrada é nua
e seus passos certeiros
traçam o percurso que só você poderá construir
ou perecer,


Meu rumo está devastado!
Seus passos perdem-se aqui,


Mas, ao menos sussurre que me ama,
e não me deixe dormir.


(Jessiely)

domingo, 25 de novembro de 2007

Maré Cheia


Na noite
em que tua voz cintilou
por entre tantas outras vozes
senti
os fogos de artifícios
explodirem na tua pupila.


Tornei-me astro
em teu sistema
num ponto qualquer
que me refletia.


Na velocidade
do pulsar das minhas veias
percorri teus pensamentos
e por alguns breves momentos
me senti completa,
plena,


-como onda voraz
que se eleva
na fúria da maré cheia-
E me lancei
na incerteza de ser flor
ou teorema.

No barulho das sandálias descalças
pelas poças d´água
depois do avanço do mar

Dos respingos
de brisa salgada
que paralisava a vida
em contato com o ar


Fui brisa
ou vento alísio
feliz por ser quem sou

Assanhei teu cabelo
roubei um pouco do teu cheiro
e meu cais serenou.




(Jessiely)

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Te guardo aqui



Parada
Não sou areia
Nem ventania
Sou como onda
Já rebenta
Em teu olhar

Paraíso?
A inércia
Dos minutos ritmados
Com o bailar
Dos teus cabelos
Vento manso
Espuma branca
Mar bravio
Ainda trago
Tuas marcas
Em meu espelho.

Sabe-se lá
quantos
monstros
marinhos
perderam-se
Nas vagas
Que insistimos
Em atravessar.

Terra firme
Não tão firme
Quanto tua voz
escondida
Sob seixos,
Sob relva
respingos
salgados
Que se misturam
Ao vinho
No silêncio
________[da espera].

Minha voz
perdida
Na tua
Onde o mar
De ambos os lados
Chora e lança-se
Entoando cânticos
As deusas nuas
Porém tristes

- eu canto
apenas
Para agradecer
Que tu existes-

Dorme em seu leito
Vis tesouros
naufragados
De tantos navios
Que passaram
E eu não vi.
Na terra firme
Vive meu anjo
barroco
De tão
embriagado
Em seu vinho
barato
Nem desconfia
Que o observo
A dormir.

Enquanto
As sereias nuas
enfeitiçam
Os canoeiros
Eu te guardo
Aqui.



(Jessiely)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Tela de Monet


Sinto
Quando te olho
Que somos
Tal qual
Uma tela
De Monet.

De perto
Somos pingos
E respingos
Misturados.
matizes
embriagados
Tornando o concreto
(des)concreto

De longe
Se nos olharmos
veremos
Que somos
desenho
Que o destino
pintou
Certo.

Uma bela tarde de Sol
Uma ponte que cruza o jardim
Um canteiro
Rasgado a um canto*

Teu sorriso
Cheirando a Carmim
perdido
Entre flores
machadas
Minhas mãos que
Desenham tuas mãos
Brincando com
A sombra das calçadas
Tudo isso passaria
fugaz
Se não fôssemos
pintura
arraigada

Sim,
Tenho ainda mais
certeza
Somos tela nova
Ainda escorrendo
A tinta molhada
Somos mais que desenho perfeito
Somos pingos
pingados
No peito
De algum artista
bêbado
Da madrugada.

(Jessiely)