quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Desire





Olhamo-nos:
O silêncio entendeu e fechou os olhos.




(Jessiely Soares)

Chão




Meu amor é feito de terra vermelha.

Quando a caravana dos seus olhos passa
Eu me espalho
E me deixo nos lugares
Mais silenciosos da sua jornada.

Eu pouso.
Você só percebe
Quando já não há como voltar atrás.

Meu corpo silêncio,
Meu corpo poeira
Na sua roupa espalhada.


(Jessiely Soares)

Pretérito



Éramos
Numa ideia de saudade
Como formigas numa aléia

Pelo cheiro da presa.
Seguindo a caça
Andando, sem pressa


Éramos tolos
Mas seguíamos cantando
Porque cantar era emocionante

Éramos todos
Humanos
E errantes.

Erramos
Decidimos crescer
Enquanto deveríamos ser infantes.


(Jessiely Soares)




terça-feira, 19 de julho de 2011

*Metrópole dos pássaros

 




Aqui as árvores olham para um lado só. O vento zune nas palmas, nas canas e carrega cheiro de cachaça engenho acima. Serra acima. Vale abaixo. As colinas se vestem de verde-bananeira. De folha. De vastidão e pedras polidas com musgo.

Aqui moram os homens maus. Os lobos bons. As meninas que foram deixadas para cuidar da casa e da família. Os meninos que foram esquecidos pela cidade grande e seus viadutos. Daqui eu assisto ao espetáculo da névoa e da chuva, dos bichos, da transformação da cana em caldo, a passagem do homem e do facão. Das aves de rapina pousando no ar.

E é como se realmente, a qualquer inesperado momento, fosse correr um coelho com relógio pelo meio da campina.

Ah, essa cidade tem ares e cheiros de sonho.



(Jessiely Soares)



* Verso de André Espínola no poema "Meu sertão"
 

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Da solidão em Recife







O cheiro dele espalhado em tudo.

Dores via-olfato.
Enquanto o Recife adormece sob a chuva
me dói uma saudade inteira nesse quarto.






*Imagem daqui



(07/07/2011.
Jessiely Soares)

Da entrega


Eu amo esse homem
com a imensidão de quem pôde
fugir de seus braços.
Escapulir por penhascos
e ir ao mais longe
de mim mesma
desviando como pude dos meus destroços

Só para cruzar a fronteira mágica
e abrir a janela
que vai dar
bem dentro de novo
dos seus olhos.




(HUOC, 05/07/2011.


Jessiely Soares)

terça-feira, 28 de junho de 2011

Laços



Eu não sei o que o move.
Moinhos de vento, não são,
nem as corredeiras.

Talvez sejam algumas pancadas aflitas naquele coração nem antigo, nem jovem,
que bate desbaratado quando ele fica nervoso.

Só sei que agora eu o recoloco no meu caminho
com receio,
meio assustada,
meio achando que entreguei o ouro ao bandido
e que vou dar com os burros n'água.

Mas eu o coloco de novo na minha trilha
e advirto:

Olha, se for pra vida inteira, eu juro que fico.




(Jessiely Soares)

sábado, 4 de junho de 2011

Des-harmonia



Tenho ganas de chutar o pau da barraca
descer dos tamancos
jogar a verdade na cara de tantos
e sair pra encher a cara.

Tomar banho de chuva
e de bica
na volta embriagada pra casa.

Mas eu respiro
e tiro a carta do tarot
que me pede
urgentemente
mais diplomacia.

"Sol e Lua em estado harmônico"


Puta que Pariu,
até o Sistema Solar conspira?!



(Jessiely Soares)

Pergaminho






Dá-me Senhor, um caminho
a esmo
para o qual eu possa escrever dialetos, desenhar mapas 
e instruir minha bússola.
Viciar minha bússola
para perpetuamente seguir
as estrelas que precipitam-se para o lugar.

Dá-me Senhor, ainda que seja pequeno
estreito
frágil e desmobiliado, um caminho-difícil,
para que ao final eu consiga
aquietar meus sapatos,
os espíritos que andam ao meu lado
e minha blusa de algodão colorido.

Dá-me também, um pé de madeira nobre
com o qual construirei um berço
para povoar meu esconderijo
com sons e cheiros de bebê.

E uma clareira na mata, onde se possa deitar para ver a chuva vindo do oriente.

Ou, dá-me o caminho somente, 
que os demais
(os risos, as dores, as pedras,
as ferramentas, os ancestrais e os livros )
eu carrego nessa pele,
sem visto de permanência,
sem constituição de independência,
e nesse sorriso clandestino.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Poema de viagem



          "...Depois disso, como sabemos, o tempo transforma crianças em adultos..."
                                   (Ricardo Fabião - O segredo da tarde sem luz)




Hoje a poesia faz aniversário

Ponho no beiral da janela algumas letras soltas,
algumas verdades boas e umas sementes de trigo.

para que suas mãos habilidosas
transformem matéria-prima
em um poema de vidro

em um poema céu aberto,
em um poema tempestade.

Em um poema de águas
para morar em rio tranquilo

Em um poema espaçoso,
com grandes campos dourados

Que de tão leve
que tão de tão claro
em um poema que de tão raro

reconstrua mundos antigos.




(Jessiely Soares)



Parabéns, poeta. Sua arte tem sido inspiração para muitos, porque arte não depende de tempo/espaço.
Gosto dos ares que você respira aí, das coisas que escreve daí, das músicas, dos versos para suas filhas e para sua esposa...

Sua escrita ilumina.

O prazer e o presente é nosso!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Verdades

.                                    

Nunca escrevo no auge da dor.
Sou um rio sem leito,
primeiro me espalho,
destruo, desabrigo
depois eu cato os cacos

tal qual um poema rico,
composto por pedras polidas,
perdas e fracassos.




(Jessiely Soares)

terça-feira, 24 de maio de 2011

Partido


    

*


De tanto orvalho
perdeu o medo
e pesou.

Pendeu
abriu as asas
que nem
lembrava que tinha

Voou

Era tardinha

Depois disso
não se sabe mais.

Só do arrebol
que se tem notícias

Ninguém nem lembra
como ele planava.

Coração
quando parte para o mundo
não volta mais pra casa.


(Jessiely Soares)

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Novela


As palavras na madrugada
são iguais aos olhos dele.

Jogadas pelo chão
largadas pela parede.

Só que a elas posso agulhar
e com ternura pendurar,
                                                         uma                                          
                                                                                                 uma,
                                                                               a
no varal do jardim.

Com ele não,
a ele foi dado o direito
de esconder                                seu              co   ra
                                                                         çã
                                                                          o                                                                                              do tiro certeiro

do meu poema-festim.





(Jessiely Soares)

sábado, 21 de maio de 2011

Poema para Aquele que passou



... e eu que sei de poucas coisas
descubro as que são dolorosas

Já sei que é por sua causa
a educada dor da rosa
e que por seu desencanto
a lua nasceu nervosa,
que é por seu coração
- que é algo entre fibra e rocha -
que as coisas todas na terra
- entre a saudade e a quimera -
que tudo, tudo, tudo
se espraia e se desintegra

ou talvez seja porque
amei tanto você
que já não vejo saída.

Talvez seja culpa só sua
ou
quem sabe, da vida.




(Jessiely Soares)



Achei a imagem aqui: http://jaquellinee.blogspot.com/2010/08/esquecer-o-passado.html

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Faroeste




Tanto guerreou

Abriu estrada, ergueu muros
rompeu noites no mais infiel escuro
para
depois
tão covarde, sem ser morto ou ferido

entregar o meu ouro e o seu,
ao bandido.





(Jessiely Soares)




terça-feira, 17 de maio de 2011

Do desgosto

.



Antes da nevasca, eu costumava deitar em seu colo.
Lembra ainda como era a sensação?

Valsávamos então por todas as estações:
Curado, Tejipió, Afogados...

Apostando com Newton.

Hoje eu pego um ônibus lotado, contando os minutos que faltam
para chegar a Universidade
para sair da Universidade
para deitar, trabalhar, voltar ao ônibus lotado.

Não quero parar.
Não quero nem pensar em parar.

Espero que depois da última dança, quando essas estações passarem por você,
- mesmo que seja a de Joana Bezerra,
- mesmo que não esteja sóbrio,
você ainda possa me ver, sentada num daqueles bancos,
contando as
                             horas,
  as                         horas,           as
                              horas,

lhe esperando aproximar-se e me dizer,
com aquele sorriso de menino, com aquele cabelo assanhado:



Venha,

vamos pra casa.






(Jessiely Soares)

Eólica

Eu anuncio
e lamento
que minhas palavras estão escondidas.

Poesia por poesia,
eu vou ficar com a do vento.




Jessiely Soares

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Anniely


Duas floreiras,
a janela anda sorrindo
é tudo filosofia.


Né, fia?









(Jessiely Soares)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Cloud

           http://farm4.static.flickr.com/3139/2570791174_4885e329c2.jpg
Éramos sós
e tudo era mar
em redor.

Espalhando areia
pelos olhos
dos sonhos.

Eu ia refletindo
uma nuvem

Meus olhos e ela,
por ser reflexo,
éramos as únicas coisas verdes
naquele paraíso escurecido.


Mãos dadas
seu sorriso e o meu.



(Jessiely Soares)

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Planar

                                           http://www.americaswonderlands.com/images/SlotCanyons/ANTELOPECANYON.gif

Minha dor é feita
de tons terrosos
que são os mais tristes.

É feita de grutas,
de deformações
e de montanhas.

Minha angústia é feita de canyons.

Se de longe
ele me fizesse um aceno
eu faria de tudo isso uma planície
coberta de longas silhuetas de nuvens

e rupestres desenhos.




( Jessiely Soares )

Solo.

                                    http://www.potiguarnoticias.com.br/portal/imgs/janduis/janduis_acude_seco.jpg

Quando ele bateu os pés
para não carregar a poeira
fazia um inverno não habitual.

Nuvens iam em rota de chuva
fazendo peso no céu.

Os passos dele seguiram enlameados,
e dessa caminhada, nascerão fósseis.

Eu fiquei parada
e só depois da esquina
foi que o peito apertou.

Ainda é inverno.

Todavia, se for pra chorar,
eu vou chorar até a estação da seca.

Até um sopro espalhar poeira,
até ser de cinzas
esse solo rachado de açude
dos meus olhos.



( Jessiely Soares )

Asfixia




*







Eu nunca mais escrevi
algo que me deixasse em paz.
 
Todas as poesias
vem puxando outras
trazendo tristezas 
pela mão 
em 
fila 
indiana.
 
Mas algumas eu mordo
e não escrevo.
Outras eu chuto,
e outras
ainda
eu grito, grito, grito
até ficar sem dor:
sufoco-as no travesseiro.
 
 
(Jessiely Soares) 

About me



                                          

Eu sou mulher de quase trinta
Meio rupestre
Gosto de espalhar desenhos e canções pela casa.
 
Não sou interessante e não sou achada em bares
Mas sei fazer cafuné
e contar piadas
 
Sou mulher de quase trinta
E sinto o peso das coisas que aprendi.
Sou mãe.
E isso é minha maior tarefa.
 
Sou mulher de quase trinta e não decido qual a melhor cor para o meu cabelo.
Não sinto saudades dos meus quinze anos, 
Sinto saudades de uma ou cinco amigas
Cujo tempo se encarregou de levar.
 
Hoje posto poemas
Trabalho muitas horas e faço jantar
Ouço histórias da minha filha e acho bonito o jeito inocente.
 
Não penso mais em casar.
Não penso em mais filhos
E desisti de muitos sonhos...
 
Sou mulher de quase trinta
Flexível e gorda
Amável e complicada
Com planos mirabolantes 
e vontade de mergulhar um dia para ver os peixinhos coloridos.
 
Sou mulher de quase trinta.
E sou muito feliz por isso.
 
 
(Jessiely Soares)