terça-feira, 16 de junho de 2009

Annie



Com tantas cores em giz
ela desenha um mundo
entreaberto

uns poucos pontos de luz
a serem pescados

uns rápidos vagalumes,
um cavalinho que trota...

não percebeu no entanto
que por uma onda de pensamentos
escapariam
todos os desenhos

o céu
tão bem pintado

escapou pelo rasgo provocado
no rasante entardecer da gaivota.


(Jessiely Soares)

Compaixão




Nossos caminhos
deitados e esquecidos na sendas

Não fazem mais tanto peso na memória.

Não correm dos ventos,
Não adormecem 
de forma aleatória

Não há mais espaços
para acalentar as nossas feridas.

Tudo anda velho e corroído
eu ando querendo ser devorada por traças,
perfurada por metais envelhecidos.

Ou, quem sabe, dopada por um olhar envenenado...

E se eu não te falo dessas vontades subliminares,
não repare,

Eu não gosto quando você me devota sua pena.
Prefiro ser a musa para o teu verso intacto. 


(Jessiely Soares)

sábado, 6 de junho de 2009

Seis de Junho de Dois Mil e Nove.



Pelo menos, 35 mães choram seus 35 filhos.
35 mães choram seus 35 filhos.
35 mães choram.

35 mães choram sangue, pelas chamas que mataram seus 35 filhos.


                                                                                         México,

por ti
e por teus infantes mortos

espero que hoje
não haja
nenhum
poema no mundo



(Jessiely Soares)

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Distração



Adentro a sala
de espelhos;

parede atrás de parede

e apenas o teu reflexo.

Não há mais nada,
sequer a geada,
sequer o inverno,

Só uma longa sombra
que desce as paredes.

e a amarga certeza

De que, espelho atrás de espelho,
tu segues nos mesmos trilhos da minha vida...

Mas no teu caminho inverso.


(Jessiely Soares)


Imagem de: Ana Cláudia

quarta-feira, 27 de maio de 2009

Selvagem

Das tuas palavras
um bendito e alegre
sumo escorre

Vale, deserto
mediterrâneo-cipreste.

A tudo, tua palavra colore

mesmo quando eu leio
em onirico estado
as coisas que nunca dissestes.


(Jessiely Soares)

terça-feira, 26 de maio de 2009

Princípio

Há noites
como essa
que de um escuro tão súbito

dá-me a impressão de que o dia
não será moldado

e que as estrelas foram
arrancadas de seu cordão flutuante

caindo no mediterrâneo.

São assim, em desenhos noturnos,
com buzinas salpicadas
que eu penso
que tudo ainda anda
sendo misteriosamente construído

em cadeias com vidros fumês
e grandes precipícios.

Tenho muito medo do futuro
em noites longíguas como essa
que persiste.

Noites assim duram uma manhã
uma tarde
e uma noite inteiras

Em que a chuva engloba tudo que inexiste.


(Jessiely Soares)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Polar


Os versos caem frios
e eu acendo a lareira
para aquecê-los.

Prefiro que derretam
e molhem meu assoalho
a se crisparem em meu chão
a se tingirem de espelho.

Não escrevo poemas
sólidos.

Eu esquento o sentimento que nasce
ate livrá-lo do gelo.

(Jessiely Soares)

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Primeiro encontro





Pequenos espaços e segmentos se agrupavam na manhã.
Seu sorriso, todo incompatível com as sombrinhas de Boa Viagem, ofertava algo entre água doce e paz de pedra.

Era de um desejar tão ameno que pintou de mansidão a onda, aquela que carregou minhas sandálias, quando a maré subiu a sua ordem.

Eu fui pega desprevenida. Veja só, contra o amor não há fator de proteção solar!

Você chegou como sombra em pleno caminhar Sol.
Não sei como fez isso, mas de lá pra cá, plantou-se mais verde na minha íris.

O seu cuidado fez brotar plantação. Os girassóis nem adormecem de tanta ansiedade.
Algo no seu corpo me diz que a safra será boa esse ano.



(Jessiely Soares)

Como se Ariadne fosse


Você que desenha cada passo
no labirinto...

e que guarda com cuidado
meus panos de medo sob seu chapéu

faça-me ouvir por todos os meus dias
o seu sorriso místico.

Nada mudou
no além
da nossa janela:

Seu mundo ainda desafia distâncias
para pendurar
prateados fios de sono

na manhã da minha aquarela.

Por zelo.
Pois sabe que eu quase não durmo.

Trago comigo os destroços de quando
dei-me a idolatrar o vento, a água,
o céu e o risco.

Esse fato, também o sabe:

Você, Mohandas. Pacifista.
Eu, Guevara, de bom grado,
seria de alguma força-combate

em alguma revolta ativista

Seus dedos desenham noites.
E tantas vezes,
fizeram-se em arabesco,
para acalmar
todas as minhas cicatrizes.

Seu amanhecer tem sido minha bandeira
atrás da linha do medo,
onde me sinto mais segura.

Tenho receio da sua partida.
Receio inconfessável.

Eu, finjo que não vejo;

Mas sei da tua silenciosa batalha
num labirinto sem linha

Num lugar asfáltico,
sem deuses, minotauro,
Olimpo ou ninfas.

Atravessando o deserto sozinho,

Apenas
Para unir

- sem mais infortúnio e sem as garras do destino -

essa vida, ateniense, em pacífica calmaria,
sua,

por ocasião da eternidade,

a esta, espaçosa e barulhenta,
de revoltas televisivas e de guerra, em intensa atividade

espartana, minha.



(Jessiely Soares)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Refaz-me


Ó, noite, não tardes, vinga!
E recai sobre minha cama,
traiçoeira

Deixa em meus lençóis
Leituras marginais

E espalha meus desejos
Como areia

Impassível,
Luz na qual me perco,
destrói toda razão
a qual me presto

Arranca
Minha língua do deserto

Faz-me recriar
A incontestável arte

Desenha
Tatuagens de Sol
Com átomos

E faz companhia
A minha ilegalidade.

Como os sonhos
indevidos
Que me bastam

Como manuscritos
Do Mar Morto
E sua fragilidade.

Não tardes
Ó, Noite,

Refaz-me.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Duplicidade


Ela se tinge
bela
de tecidos
e esperanças
em castellano.

Um século
de pequenas
parcelas
de sangue em pires,
de planos cartesianos.

Eu apenas miro-a do espelho
penso que sou o reflexo dela,
que
maquiada,
vestida de pó,

cocar
e
linha
com canela

fuma os pequenos pecados

enquanto eu, suando algemas,
sou apenas
selva,
holograma
e insígnias

O corpo é meu.

Noite fingida,
até isso fantasiaram
de medo,

a ciência anda tão provocativa...

Fatos e desafetos
andando pelas calçadas

ela,
de manhã transfigurada
acorda
em passeata
furiosa
e etílica

O seu cheiro mora em meu corpo
sou feita da sua erva.

O corpo é meu,
visita a Igreja,
museus e ruínas...

A alma é dela
me olha do espelho
e se tranca no quarto
de cima.

Ela sou eu.

Eu sou ocaso,
ela minha alma,
estranha aparição,

escondida pela minha sina.



(Jessiely Soares)

Marcas





Quando teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
e teu corpo
serpenteou para pega-lo

Não poderias prever
que a divisão dos teus medos
constava de monossílabos
e pequenos estilhaços.

Se tu tivesses me previsto
eu não seria tua pintura
impressionista.

Nem Maria,

- por Eça de Queirós,
tão perfeitamente construída -

Cruzando, com rubro guarda sol,
as ruinas do teu fado.

Se teu Cem anos de solidão nao caísse no meu colo
assim,

como dado viciado do destino,
e a mancha não nos tivesse violentado

eu não te diria que o escuro tem braços,
e, somente nós não sabíamos.

Se tu me soubesses antes disso
eu nem saberia do teu abraço
Nem da marca indelével,
de um sabor que não cruza a calçada

Feita de manhãs e cafezais
pintado num passado amanhã despedaçado:

No dia em que teu Garcia Márquez sem capa
caiu da prateleira
em meu corpo

que, com fúria de pó e fera,

aninhou-se para entrega-lo.


(Jessiely Soares)



Imagem de: ..:Geisa:..

Hemotoxia (Mjúlia Pontes e Jessiely Soares)


Não, eu não vou parafrasear Chico,
Embora caiba, não me é direito,

Nem procurar nos blues de Djavan
O que não desperdiçarei tal Caetano

num gesto de quem encontra a fuga,
no rastro de amor e abandona a ilha
por seu peito

Não, eu não vou tentar expressar.

O que seria maior do que ficar na sua pele
Feito tatuagem?

Um dia pedirei perdão a Chico.
E tingida de ternura ainda serei poema
com nuance
E tingida de poemas ainda serei nuance
Com flor de tinta.

Eu sinto você correndo em minhas veias,
Músculos, retina,
epiderme em ardor desatinado,

E queima, pulsa, muda canta a canção
Que inventou só pra me encantar,

No nosso pé que brotou Maria
Nasceu arco-íris em chamas lilás,
numa estrada pura,
na madrugada que ainda não morreu.

Entendo, você ainda não sabia,
Que seria amor o que já doeu,
na manhã, das nossas vidas...

A minha íris precisa da luz
que emana de tua voz.

Perceba, querido,
pelo gesto que ainda sobra das manhãs e do breu,

todo o passado se envenena:

A verdadeira Maria, sou eu. 
 
 
 
 (Mjúlia Pontes e Jessiely Soares)
 

segunda-feira, 13 de abril de 2009

MULHERES NUAS


É com orgulho que aviso da minha primeira exposição.
Intitulada "Mulheres Nuas", terá pouso em São Paulo, no Poupatempo de Itaquera, dentro do complexo do metrô. De 13 a 31 de Abril.

Visitem, prestigiem.

Abraços,


Jessiely Soares

domingo, 5 de abril de 2009

Dos vidros partidos



Eu me contabilizo em meio a multidão desenfreada.
Eu me enumero sozinha.

poros,
unhas,
praia
e retina


Tenho um tipo de frequência cardíaca
que não cabe no peito

nem nas contagens

menos ainda
nos desfribiladores
e na medicina


eu sou um caco,
um penúltimo ato,
uma paisagem,

um abrigo para a chuva.

eu sou algo que divide
mas não tenho densidade
para impedir que a ventania
adentre as madrugadas.
Eu sou uma cortina.

A tristeza está lá fora
como uma garoa fina e alvoroçada

Eu não quero que ela entre...
bastam-me os relógios.

Mas minha janela está quebrada.



(Jessiely Soares)
Imagem por whereohwhere

quinta-feira, 2 de abril de 2009

De quando nossa vida conversa


Varanda
de porta
entreaberta

o vento que escorre de longe,
quente,
me chega às avessas

traduzindo murmúrio de conchas
das horas
surdas e longas

com as memórias,
feridas vivas...

e é quando nossa vida conversa.

Eu lhe mando um bilhete
eólico

com mil beijos
etéreos

para que se acaso pensar
que não mais lhe penso em  versos

saiba que mesmo de longe
a nossa varanda ainda esconde
os poemas que eu não entrego.

e esse vento que viaja de volta
e que lhe chega às avessas

carrega cantigas de noites
das janelas de ruas desertas

é a cidade do interior
que lhe manda um beijo no rosto

e diz que sente desgosto
na noite em que você não regressa

assina com cheiro de lua
para que eu me finja de espelho

bem aqui, onde eu nao o vejo,
e onde nem mais me lembro
como se escreve poesia

seu sorriso relicário
me volta em ondas de vento
e se escreve como poema
sem tormento, em minha folha vazia


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 4 de março de 2009

Fugaz




Veloz
eu
parti.

Tu estavas
amanhecendo.

Viu?

Eu finjo que
sou cometa
em sua vida.

e acabo
sendo.



(Jessiely Soares)

Silêncio


Quando o silêncio
é algo que não me cabe

eu me rasgo
e me deixo em
lugares

próximos a
medos
e lagos

Lá é onde
o meu pensamento faz ruídos...
a vida faz alarido
em poças de saudade.

Onde escondo meus pequenos vagalumes.

Lá os meus momentos de silêncio
ainda são fugazes.


(Jessiely Soares)

Despedida






Senhor,

a tarde cai
sob a palidez
da névoa

das coisas que construístes.

Cortei
os pulsos
e os desvarios

que plantei,
sombria,
na aridez da terra

triste.

A culpa não é minha

tu me fizestes de carne,
vento e sangue, neblina.

e tudo isso me dói.

Dores muito maiores
que esse vermelho que berra.

Eu não pedi coração
Menos ainda, para ser eterna.

Se me querias
Vulto de dor para posteridade

Poderias ter me feito pedra.


(Jessiely Soares)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ilha






Sem qualquer expectativa
eu me deixo sob a chuva de verão
que assombra a tarde amarela.

Sem qualquer expectativa
eu deixo que tudo atravesse
meu caminho
desconfigurado

ônibus,
pedestres,
gatos.

E o desvario do tempo na janela.

Uma vitrine me sorri
um sorriso de etiquetas
com marcas sobrepostas
diversas fazendas

florais,
sedas.

Assim sendo,
repenso os dias azuis,
diferentes dessa tarde
em que eu pousava minha vida
sobre as cercas de arame farpado

da antiga fazenda
com enormes cafezais
e pequenos cavalos

Tudo era essencialmente
verde e branco.

E agora, sem qualquer expectativa
eu fico de espectadora dos passageiros
da praça.

Ela não passa,
apenas eles,
e teu cabelo encaracolado me olha
e me assanha
e perceba: Tu não estás lá.

Um grito mudo me engasga

E por ser um grito mudo
apenas uma criança percebe e não diz nada.

A tarde se tingiu, de teimosa e cinza.

Com alguns tons dispersos de músicas etílicas.
Os bares começam a encher.

Sem qualquer expectativa
eu ainda sopro um beijo
para o teu rosto

que crispado de sonhos
passeia num ônibus lotado
depois do trabalho

Sonhos também cabem no proletariado.

O vento assobia
as nuvens se cerram
e os postes agonizam o calor da lâmpadas

Eu, enfim, aceito a impossibilidade.

Sigo a vereda que me cabe
aquela na ponta da calçada.

Teu nome amassado num pedaço de guardanapo.

Constelações sobre a cidade desenham um vácuo.
Teu gosto anda gravado nelas.
Selvas negras de asfalto.

O mundo inteiro faz barulho.
Um ruído insone de eletrodomésticos
e pais e mães recém chegados.

Anoitece em toda a vastidão do meu desejo.
E eu não te posso ver
porque tuas pontes guardam apenas o Capibaribe...

Alguém me oferece um cigarro.
A noite anda preta e conversa comigo.

Fala da solidão dos teus rios. Eu não sorrio.
E sem qualquer expectativa eu só me deixo sob a chuva.

Junto aos negros gatos.

Algumas poças de lama e toda essa vastidão desumana
que se propôs a ficar exatamente no meio de nós.

Por te querer perto,
e por seres impossível e carinhoso

Algo como pintura impressionista em cenário de inverno.

Eu te ando, eu te quero, e ouço toda esse multidão
e os candeeiros recitarem teu nome.

Eu, ilha, cercada de teu mundo por todos os lados, me calo.





(Jessiely Soares)

Avesso

Meu poema
em teu céu
me confunde

é como um verso
na colina

é como se tu fosses a rima

que eu tanto amei
e nunca pude.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Da universal distância



.

Quero
com um desses quereres indizíveis

como a uma presença
que indefinidamente se espera.

Tal qual esse teu cheiro,
que nem sei de onde vem

e pousa aqui, com asas que queimam

insone, comigo, na minha janela.



(Jessiely Soares)



Imagem de: Julieta Domingos

Sensação



Silêncio.

Arrepio em
tez.

A casa está vazia,
para meu tato.

Só o teu cheiro

- esse devasso -

me invadiu
sem permissão

outra vez.


(Jessiely Soares)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Presente



.



terça-feira, nove da noite

o sereno canta leve
uma canção de ninar para os pardais.

Eu sento e converso com o vento
prodigioso

Ele mal me ouve, eu não me conto,
além do mais, entre nós, nem há novidades.

Apenas afago a solidão com uma das mãos.

Com a outra aceno
para minha vida inglória

Minha grave e séria companheira
das noturnas e angustiáveis horas .



(Jessiely Soares)

sábado, 14 de fevereiro de 2009

aethereu



Leve,
tão leve,

que se teu sorriso
me soprar

é possível
que me leve...


(Jessiely Soares)



Imagem de: Marlon Francisco

Mariah


A Anniely.
Tudo que me importa.

Repousa
sua mão
sobre a
minha,

pequenina.

Que
no auge
da tua
idade

infantista

repousa
tudo que
conheço

e antes,
por decreto,
inexistia.

Aquilo
que me sorriu,
depois
que você
nasceu

e que eu batizei por vida.



(Jessiely Soares)





Homenagem a todas as horas que se seguiram ao dia 11/11/2004.

E a todos os teus sorrisos. E todas as tuas pequenas e grandes peripécias...
Mas, ainda mais, a todas as noites mal-dormidas ouvindo tua respiração.
Ficar em claro, noites e noites, nunca fora tão perfeito.

Tenho a vida inteira pra te merecer, minha filha.


Te amo, Princess.

Mamãe.

Da espera

Não trouxe sandálias.

O caminho
descalça

fez-me
mais nua

Nem tâmaras,
nem cântaro
para o oásis
da tua boca

que fora das
minhas areias,

nasce
e se insinua.

Eu trouxe somente o cheiro
de deserto

de desejo
saudade,

um Saara de expectativas

que desenho
na poeira dos vitrais...

O que fica, além,
serpentiforme,

madruga longe da nossa tenda,
onde já nem estamos mais.



(Jessiely Soares)

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Marítimo




Se me encontro
ao teu lado

navego
sem luz própria.

Conto não ser
perigo
para tua vida

e permaneço em silêncio.

Não sei desvendar tuas lendas
ou trevas,

sigo tuas ondulações,

presto-me a ser jangada
enquanto te vejo veleiro.

Contato que me deixes ser brisa
que te sopra em tuas velas...

Mesmo que tu partas pelos mares alheios.


(Jessiely Soares)

Do carnaval e outros mundos

Que se
disseres
frevo

eu largo
os arreios

e te jogo
as tranças

de rapunzel
etérea

fantasiada

de
Branca
pura
Neve

às avessas.



(Jessiely Soares)

Vontade diagonal



*


O que me deixa aflita
é uma madrugada

e uma vontade
de verter tequilla

a grandes goles.

De pichar paredes
com teu nome.

De ser impossível
e dilacerar teu sono.

Cortar o cabelo
usar minissaia

e

cantar em uníssono
tudo que não se pode

no meio da tua rua
invadir tua janela

e me mostrar arisca.

O que me deixa aflita
é ter tantas vontades

e uma vida
à risca.



(Jessiely Soares)

Do teu lugar


No meu interior
Tão controvertido
E sonolento


Tão desprovido de intensidade
E alegria


Entre os pântanos e tristezas
Há um único lugar que o sol
Sangra luz

E tu ocupas o lugar mais bonito.



(Jessiely Soares)



Fotografia: Onde o Sol sangra luz
Autor(a)
Amélia Jessiely Soares Bento
Para visitar a fotografia, clique aqui

Entre(nossas)linhas

 
Os fatos não são diferentes.

Em algumas manhãs
vendavais nascem
e me tornam os olhos

de verdes a turvos.

Pedras semi-preciosas
se aglomeram na minha calçada...

Vultos.

E tendo a estabelecer
um caminhar sem destino
algo como navio sobre temporal.

Enquanto você,

Fascínio que acorda do outro lado do tempo, sente
a mesma coisa. Balbucia uma idéia qualquer
ou um verso com qualquer pronúncia

E é como se esse pano negro que eu enrolo
aos ombros
fosse um pouco dos seus olhos
postos sobre minha vida

algo enevoado,
como uma nuvem que não sabe mais do rumo
para chegada,

nem lembra mais da partida.

Se acaso o insano, febrilmente, me parecer claro
eu canto alto,
Killing the Blues,

e espero que o novo aconteça em algo...

Sempre acontece,
nem que sejam uma sucessão de reprises
pintadas com outras tintas.

Os fatos não são diferentes.

Tudo sob esse céu, padece
de filosofias
e carícias.

Eu escrevo porque me faltam asas.

Eu penso na sua voz.

Eu conto esse segredo, e o deixo escondido,
como precisam ser os bons segredos

Sei que, se meu telefone não toca,
é porque alguma coisa
quebrou

no meio da nossa telepatia.

Calo e escrevo

Tudo isto em homenagem
ao seu corpo que se esconde

onde eu não consigo tê-lo...

e nas entrelinhas dessa poesia.


(Jessiely Soares)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Da chegada do amor




Em gestos
desatentos
Como em passos
Lentos de bolero

Num olhar cigano ou vagabundo

O sentimento
Esperava calado
Ao dobrar uma rua

O encontro foi silencioso
Como num lance sereno
De ir e não ir,
Ficar e partir.


Do jeito que se espera a vida inteira.


( Jessiely Soares )

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Descobertas obscuras

*


Os dias que me renascem
aportam com o Sol
na curva da minha estrada

Apostam com a vida
- artista em ser efêmera-
que para ser eterno

basta o nada.

Eu, que assisto a tudo,
sinto-me responsável

pela criação diária da Lua...

Pela ausência de proximidades
e pelo cântico do silêncio.

Eu afasto,
enquanto o céu une...
esse é o meu absurdo

Há dias, em que
eu me sinto poeta.

A poeta mais noturna do mundo.



(Jessiely Soares)

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Ardor

*


Que se chame
sangue

que se chame
vida

que se
fores tu a
me chamar

eu vou

Nem que seja
mangue

nem que seja
rua

nem que seja
lama

e se não fores
tu

nem ar
nem dor.




(Jessiely Soares)

domingo, 1 de fevereiro de 2009

De quando teu barco parte


*


Ao longe ainda
dormem as velas

e a minha esquadra
vela
meu futuro ainda perdido

navegante
infinito

que ao longe fantasia.

O lavrador ainda preserva
a avidez da semente

e meu céu, se mente,
encanta as coisas
sobre a minha terra.

Tu te plantas nas minhas serras,
bravio, cerras
a nossa história

como tesouro
desbravado
por mãos de pirataria

O vento pesado
canta...

Meus cálidos olhos claros
velam meu veleiro
distante

por teus pequenos estilhaços
de prados

tingido de sal
em tela

enquanto
num rio plácido
pálido e azul

Meu sonho,
ao som de fado,
embala meu espelho partido
e dorme em suas velas.


*



(Jessiely Soares)

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Bússola



Se seus olhos,
ébano,
flutuassem no meu corpo...

Pintura abstrata.

Desenho meticuloso
como
rastros no deserto
incêndio no canavial,
floresta fechada.

Como o meu destino
pra pouso

Em meio a
essa ausência,
intempérie,

bússola desnorteada

no teu sorriso
branco

de cordilheira e nevasca.

(Jessiely Soares)

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Da índia que sou

*

Se apressares o dia
meu amanhecer de Flamboyant

Eu me faço
mistério,
Jaci,
Iara,
Guaraci,

se quiseres,
também posso
te fazer Tupã.

Depende do teu gesto
oblíquo

do canto de floresta,
do mito,

do teu vasto sorriso
como
flores de Sol

Caramurú...

da criação de tudo
do raiar
com que tu pintares a manhã.




(Jessiely Soares)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Riscos noturnos


.


Sendo sua voz algo segredoso
que mesmo junto as mentiras
jogadas em boa terra,

farão brotar bom tempo,

eu me recuso a entregar
o ouro ao bandido.

Deixo então,
engatilhado,
meu medo sobre a cristaleira
(embaixo do porta-retrato)

e as pequenas divindidades
espalhadas pela mesa de canto
onde se lê a lápide:

"Eis aqui meu tesouro perdido."

Teu silêncio,
com gosto de infidelidade,
ainda habita comigo.




*


(Jessiely Soares)

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Brevidades.

Desde a sua partida
só o cheiro de relâmpago
ainda espalha seus raios.

A brisa assobia.
E é como se o vento ainda
quisesse me dizer algo...

Eu o espero.


       ~
              ~
                        ~

mas a noite agoniza...
e o vento passa calado.




(Jessiely Soares)

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Da tua eternidade

*


Na praia
entardecida,
avermelhada,
morta e ferida

eu assisto
o espelho
da tua tarde.

das ondas, das areias,
das pedras com as quais converso

eu te reconheço,
adormecido,
num canto eterno

mesmo que sejas,
de uma sutil efemeridade...

Sempre que estou sozinha,
eu te desenho o mais perene,
dentre toda a eternidade.




(Jessiely Soares)



domingo, 28 de dezembro de 2008

Tua voz

*



Com teu verso
sobre meu rosto

marque-me
como seu vício
inexato,


Enquanto Cash ressoa
(hurt)
inundando o ambiente

Entre...

me fira,
se insira
em meus espaços

De um corte a outro,
me faça
sua

E eu prometo,

nunca mais
me
despedaço.



(Jessiely Soares)

sábado, 27 de dezembro de 2008

Prisma


Para pintar essa madrugada
eu preciso das tintas
que deixei em tua cama

Exilada e extinta,
o que me sobra, faminta,
é um baú de memórias
e uma íris morta,
suja e carbonizada.

Para tingir esse céu negro
de alguma espessa camada
de sombras e lágrimas,

é necessário que chova
as matizes exatas...

Eu preciso de teus olhos,
senão, não haverá cor,
para eu recompor a alvorada.




(Jessiely Soares)



Foto: "Acordo a noite"
Autor da foto: Vieirinha

Dormente



Eu te toquei bem de leve
e tu nem notaste

Eis que a lua jazia
tal qual pedra
e sorria
dos meus sonhos fugazes.

Eu te olhei,
noturna,
e tu nem notaste

Eis que a lua
caia
surda e vadia
sob os meus vagos olhares

Eu parti
era manhã
e tu despertavas

Meu joio e meu trigo,
meu sinal
e sentido
dos girassóis perdidos
em meus olhos seculares...

... te toquei bem de leve,
com mil corpos celestes
e tu nem notaste.



(Jessiely Soares)

domingo, 14 de dezembro de 2008

Vento de levante



*


Na caravana
que cruza o levante
da manhã que nunca termina

antigüidades de oceanos
engolem vidas perdidas
imersas no próprio destino
dos teus olhos desertificados.

Sob ação de desgaste profano,
de tantos mudos enganos
na caravana, da eterna partida
agonizam amores fantásticos.



(Jessiely Soares)

Quando o canto te alcançar



*


Tu, que não me ouves, deverias saber...

Que há agora, distante de ti,
uma ave, pousada.
E canta,
de acordo com o timbre
da minha voz no espelho.

Na tua noite,
sirenes correm a rua,
em busca do paradeiro
de alguém que agarrou a liberdade
por cima dos muros da prisão.

A lua nunca foi tão imensa
quanto para quem a aceitou
com o peito ferido e criminoso.

Madrugadas são palpáveis para quem se oculta nas sombras.

Algum cantador afina sussurros
em alguma das pontes
do rio que te corre nas veias
e alguém adormece na praça
do Arsenal.

Todos já saem pela noite
em busca de luzes amarelas
e vinhos celestiais
Carregam mentiras e passados,
como reflexos de fogos de artifício...

Ao meu redor,
silencioso entre vales,
meu vilarejo dorme.
Uma névoa cai, pesada.

Não há passantes por sob meu peitoril.
E, é preciso dizer, que não os necessito.

Na amarga calma da pequena vila,
a castanheira abriga o pássaro,
pousado sobre o meu parapeito.

E eu vivo a vida inteira, nesse pequeno e absurdo contentamento.

Quem sabe, ao amanhecer
sob o seguro acalmar de tua janela
de terceiro andar,
o som, quem sabe, seja mais,
que simples ecos de metrópole recém-adormecida

Quem sabe, inaudível, ouças...
como um contato benigno com a eterna liberdade,
e já calados, todos os sons que alarmaram a tua quietude,
Quem sabe ouças, sem saber disso,
entre tantas cidades cortadas,
o canto em que tu me habitas, dessa mesma ave.


*



(Jessiely Soares)

sábado, 29 de novembro de 2008

Nau frágil


*


Fio
invisível
me pescou

aflita.

A linha
que me levou

naufragou
barco e pesca

rumo ao teu tesouro escondido.

Dia bendito em que me afastei
do mar na tua rede

tua cama,
oxigênio.

Não sinto falta do meu habitat

Tu me fizeste esquecer
que um dia
tive
sede.




(Jessiely Soares)

domingo, 23 de novembro de 2008

Pintura a Óleo


*


Eu derramei
dois pingos de tinta
na nudez do teu olhar.

Manchei tua pupila.

De agora em diante,
não me presto a ser estátua,
nem quero ser absolvida.

Não escreverei cartas no muros
e nem relembrarei,
teus poemas
se me pedires.

Espalharei versos cegos
e tintas negras
em tuas meias-verdades,

Cegarei as minhas dores
nas cores
da tua íris.




(Jessiely Soares)

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Sobre o Rio Paraíba e a saudade

*

 

Aquela fumaça
- clarão assolando
o meio da mata -

E a placa no meio do barro
que teima em fingir-se de estrada

"Ponte interditada"

Não faziam sentido.

"Acesso a um carro por vez
a ponte do Rio Paraíba.
Peso controlado.
Perigo."

Mas, como? Se meu corpo,
sem contar os adicionais,
pesava por todo o espaço.

Por gosto, guardei no meu peito
seus passos indecisos
e as lágrimas da pequena
por sua ausência.

Enquanto a poeira cobria
aquele sorriso escondido
que nossos rostos fabricam
entre o olhar e a reticência

Eu, atravessando as queimadas
e as pontes desativadas
fui fiando o caminho

fazendo trilhas na noite
da eterna distância ingrata.

Enquanto a cana de açúcar
prevendo a morte da ponte
Queimava para iluminar a estrada.




(Jessiely Soares)

sábado, 1 de novembro de 2008

Abstinência

 
Pintura de:Angel Estevez


*


Sendo, eu,
abstrata
ponha-me
figurante

ao lado da tua sala

prometo
que não serei luminosa

meus últimos anéis
ficaram, insanos,
na constelação

há muito naufragada

Pudera!

Eu não sei mais me ver
no espelho dos teus dias

Tuas hierarquias
tolas, dizimadas

Me puseram sobre o nada
numa mobilidade
invertida.

e antes da luz que viria...

Encha-me de preceitos
espalhe beijos e apelos
e no meio da febre

coloque-me, sujeito,
na tua sala
como poesia.


(Jessiely Soares)