quarta-feira, 7 de abril de 2010

Histórias de princesas e castelos

*



Depois que você chegou, princesa de asa encantada,
a casa virou
um sorriso.

Em cada panela ou móvel,
cada planta ou escada,
há um pouco do seu brilho
ou uma flor desenhada.

Tanta mágica você inventou.

E agora que você nasceu,
pondo som em poema

yo creo en las hadas,
yo creo en las hadas!




(Jessiely Soares)

Segredinhos

http://houseofbeauty.files.wordpress.com/2008/09/bolhas-de-sabao.jpg


Pousadas
uma a uma
estão as palavras
numa ponta da mesa que dá pra janela.

Se cada uma delas
num salto
alcançasse a beirada
na qual brinca
com chuva, um besouro

teríamos um poema de ar
e uma chuva
de bolhas de sabão
e tesouros.




(Jessiely Soares)

Olhos de Azul Céu

.




Um dia meu pai abriu as portas da casa de par em par ( casa antiga com grandes e pesadas portas que fechavam com tramelas), e pôs-se a caminho com as coisas que gostava.

Pousou os olhos na tarde.
Notou que nos batentes havia musgo.

Era um dia ignorado, semana de um ano qualquer. Foi-se, com coisas miúdas, como quem por gosto não deseja levar nada.
Nem a família, nem a casa, nem as cartas.

Depois, pouco se ouviu dele: sem rastros, sem um rasgo de perfume. Sendo portanto alguém que, não havendo amado, também nenhum amor deixara.

Normalmente sinto sua falta. Saudade é coisa que fumega, vai cortando espaço.

O amor é um contratempo. Quiçá, uma eventualidade. Dá-se a quem não merece tanto a quem faz por merecer.

Há dias em que esse todo vazio me arde como um temporal de estilhaços.




(Jessiely Soares)



Imagem: GettyImages

terça-feira, 30 de março de 2010

Matinal

http://entrequatroparedes.files.wordpress.com/2008/12/cafe-da-manha1.jpg

Amanhecer
é algo sorrateiro;
uma luz que entra por baixo da porta
e vem se aninhar perto da cama.

Um pequeno desencontro de horas.

É quando o corpo se despede
do corpo de quem se ama
clareando o estradão inteiro.

E é nessas horas
compassadas
que a minha vida levanta

para preparar o café,
para esperar o bom dia.

Manhãs aqui em casa acordam cedo
e sempre vêm embrulhadas num beijo
quiçá, numa poesia.



(Jessiely Soares)

Cria





Menina,

se você já soubesse me ler
poderia ser que eu me encabulasse
e não escrevesse mais
nenhum poema pra você.

Mas você ainda não me atingiu aquela fase,
você ainda lê tatu,
o lobo,
o bobo,
o dado
e idade,

enquanto eu vejo o jornal
no rec-rec da cadeira de balanço.

Um dia você sentará ao meu lado
e me dirá, sem titubear, duas frases de Dostoiévski,
assim, na lata
sem a menor compaixão.

E então, vou esconder meus poemas
menina,
minhas rimas são tão pobres!

para você
(por tão grande amor)
eu só escrevo

com o coração, coração
coração.




(Jessiely Soares)

sábado, 27 de março de 2010

Carpe Diem

http://senhoradolago.blogs.sapo.pt/arquivo/esquina.jpg

Ela já inventou outonos.
Coisas simples, segundo ela, de se inventar.

Eu ando apostando comigo mesma
que em alguma manhã, de qualquer estação,
darei de cara com ela.

Numa janela clara,
aonde uma folha desperta.

Não tenho pressa.
Tenho canteiros de flores,
galerias abertas,
frevo no carnaval.

Tem dias em que amanheço muito amarga, amarga e doce.
E outros em que amanheço por demais desavisada;
com um mundo batendo palmas na varanda
numa era antiglacial.

Sei que em alguma ladeira ela vem vindo,
numa carruagem, com cavalos brancos,
usando um salto quebrado e
uma coroa de louros.

Silenciosa, como ela só.

Vida, Vida,
lhe encontro ainda,
enquanto me faço mil por quês
em qualquer uma dessas suas esquina.




(Jessiely Soares)

quinta-feira, 25 de março de 2010

Teatro de chuva

*



Árvores, pedras e bancos
eu,
a casa,
a minha filha

o café
e a sopa fumegando.

Um dos espetáculos mais lindos
é quando nos abraçamos na sala
para ver a noite dançando.




(Jessiely Soares)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Aquarela


Pássaros por sobre a sala de jantar.
Flores num quadro da sala principal.
Beija-flor, natureza morta, e borboletas.

Uma casa inteira
cheia de arte.

Mas há dias em que me pergunto
com que malditos pincéis
eu me pintei
feliz em partes?



(Jessiely Soares)

sexta-feira, 5 de março de 2010

Afagos







Aos poucos
eu fui aprendendo
o caminho do mar.

Depois de tanto anos
esse mesmo encontro de águas...
Nesse mesmo período de chuvas
um dia a vida
veio a dar com seus olhos nos meus.

Pobre de quem pôs seu sorriso
longe das areias do tempo.

O desgaste das encostas
o velho encontro das rotas

Até as coisas
que você nem nota

trazem seu nome no vento.





(Jessiely Soares)

quinta-feira, 4 de março de 2010

B612

http://presentededeus.files.wordpress.com/2008/12/universo.jpg


De pequeno em pequeno o dia vai tomando forma.
O vento vem
e o leva embora
enquanto as nuvens vão ganhando estrelas.

Não entendo para que tanta coisa nesse mundo
por que tanta terra,
por que tanta distância,
pra que tanta nuvem viajante

e nem por que seu sorriso mora longe:
longe e leve
meu pequeno planeta.



(Jessiely Soares)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Quadrinha para acordar princesa

.

Sol pousado na janela
com asas de passarinho.

Dia que começa cantado,
esvoaçante e quentinho.




(Jessiely Soares)

O2

http://ferrus.blogs.sapo.pt/arquivo/Folha.jpg

Quando você se põe
feito poema na minha
noite
não há mais cor na noite.

Quando a noite
vira poema
na sua mão

não há mais nenhuma mão.

Nem sua,
nem minha

E é quando
as coisas se desvanecem a ponto de serem
só algumas rupturas

com cheiro de pó e narciso.

Tem coisas que dão cores,
tem coisas que tem olores
e
algumas são só
leveza.

- são nessas em que eu lhe respiro.



(Jessiely Soares)

Êxodo

http://www.myfreewallpapers.net/fantasy/wallpapers/flying-faeries.jpg



Meu poema
é um retirante.

Segue a manhã que cala
ao sabor do vento tropical

desliza por entre nevascas
casas desabitadas,
por penhascos,
por estantes.

Orvalho,
poeira,
argila e granito.

Pelas flores mais suaves,
pelos ipês,
pelos grilos
por plátanos e por calçadas.

Se um dia
num trânsito engarrafado
ou no meio do granizo
lhe cair no colo
um poema meu
não se assuste,

não grite!

Meu poema
é um retirante.

Ele lhe procura pelo mundo inteiro

e só porque lhe acha
é que de fato existe






(Jessiely Soares)

Migrante


ramo de vozes noturnas
vento que sopra do leste.

coisas que a manhã sussura
sonhos - dos quais nunca se esquece.

Morador dos meus silêncios de vidro:

se nada mais for - é sentido
se mais nada é luz - me aquece.




(Jessiely Soares)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Dentro do túnel tem luz.

(Poemas para Lanoia

porque foi ideia dele,
(idéia sem acento, isso ainda me mata !)
imagem dele, inspiradora culpa dele.

Beijos, Docinho!)




O destino da sua rota é a saída.

Forte das cinco pontas,
a sua fragata nunca me aporta,
marinheiro dos meus remansos
de claras lágrimas encolhidas.

No seus cantos
ruflar de velas brancas,
íris lançando âncoras

e uma sagrada noite de partida.







_________________________***



Segredos rumam ao seu lado
e eu
desenho o seu retrato

em tudo que eu puder.

Como se você ainda aqui estivesse:

lembranças repartidas ao fundo
segredos de amores

Lágrimas como se fossem
pedaços de alguma estrela silvestre.



_________________________***



O símbolo
da circuferência
dos teus olhos

cânticos de penitência
altares de segredos mortos

de sangue e de despedida.

Povoados de silêncio.




_________________________***




(Jessiely Soares)

Preocupações

                              http://www.casadeicaro.com.br/images/Notas_musicais.jpg


Divisas
subterfúgios
há dias
em que tudo acontece

Manhãs como essa
em que tudo se aglomera.
Tiro as sandálias,
jogo tudo na música.

Vai cantando a casa toda,

Dont worry,
Dont worry,
Be happy.



(Jessiely Soares)

Memórias

http://farm3.static.flickr.com/2264/2254734078_8ec817baef.jpg

(Despotam discursos noturnos
dentro dos meus sonhos)

O mundo morador da pedra.
nasce da vida silenciosa,
Rosa, Gueixa,
contendo em si
os cânticos da noite.

Dos ruídos,
entre as breves manhãs de fogueira,
mares de mansidão

singelos segredos de areia.




(Jessiely Soares)

Aquário

http://www.imotion.com.br/imagens/data/media/83/7265aquario.jpg


Eu retorno dos sonhos
porque é sempre necessário.

mas eu deixo os desejos
águas-vivas
na singela claridade do aquário

Nesse santuário vivo
onde repouso
as minhas grandes navegações

Há dias em que os meus
ondulares rasos
tem mais segredos
que os profundos labirintos,

e mais revolta que todos os tufões.




(Jessiely Soares)

secretos

http://xnightwitx.no.sapo.pt/blue_flower.jpg


Despercebido
seu sonho não sabe
o caminho da sua vida-chama.

Segredos de armistício.
de um mundo que só gira
porque seu olhar secreto

soltas fagulhas emana.

Onde anda a sua mente
eu não sei,
mas o teu sorriso,
esse louco guerrilheiro dos meus vícios
anda completando meus espaços:
confusão de pequenos estilhaços
espelhos de uma uma lua soberana.

Há muito já não sei andar sozinha,
unidas mãos, soltas feridas dessa sina.
sua vida pela minha vida anda.



(Jessiely Soares)

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Annie


De que matéria
você é feita
para ser
metade calmaria
e a outra corredeira?

Qual o anjo
tão bendito
esculpiu
o seu sorriso
e suas
graciosas bochechas?

Menina
que se coube inteira
dentro da minha vida.

Menina,
musa dos meus poemas
Misto de perfume
brinquedos e fantasia.

De que manhã
foram os seus olhos,
de rumos ignotos,
criados e pintados
para serem belos?

De que noite
foram feitos seus
sonhos?
De quais constelações,
princesas e castelos?

Menina,
que foi o meu útero
que é meu arbítrio,
que é meu desejo.

Menina,
que adormece a casa
quando adormece
sem me dar um beijo.

Meu contato direto com o infinito...
De que lugar
tão vasto e bonito
você saiu voando
para pousar em mim?




(Jessiely Soares)

sábado, 16 de janeiro de 2010

Sintética II

*



Ruídos de papel pela madrugada
ou são traças pela noite
ou poesia pela casa.



*

sintética

*




é noite na gaveta
e a poesia está desfeita
no papel que dorme em paz.



(Jessiely Soares)

*

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Clima

http://wordsimages.paginas.sapo.pt/chuva-no-vidro-olhares-words.jpg


Pingo
roça na vidraça.

há dias em que o vento
leva
tudo...

Menos esse cheiro de noite
nessa manhã que
se disfarça.



(Jessiely Soares)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Segundo voo da mariposa







Não era fabulosa,
a mariposa que pousou na perna da minha calça
na hora da aula.

Apesar de ter as asas
para habitar em tudo,
pelas quais Ícaro teria dado mais vida
se mais vida tivesse.

Asas de cera,
dissera,
para o Sol e para mais nada.

Penso às vezes
que a sua essência
era uma mariposa
- Uma mariposa-cinza-cigana de asa quebrada



(Jessiely Soares)

O primeiro voo da mariposa

http://www.nuaideia.com/imagem6/mariposa.10jpg.jpg


De tão pequenos gestos
numa timidez de afetos.
Esvoaçava fuligem num mar de cacos.

Como figuras num aquário
com secretas canções angelicais.

Quem pudesse veria
as marcas de sangue e vida,
de fogo e de partida ao longo do litoral

voo
primeiro e último
da mariposa que me habita
sobre as chamas do canavial.



(Jessiely Soares)

Pintura a dedo para a distância

http://images.quebarato.com.br/photos/big/1/F/16D81F_2.jpg


Porta aberta pro mar
onde só há serras.

E o Porto que lhe guarda
acaba sendo ainda mais distância que vidraça

Ainda mais maresia do que praça
Ainda mais horizonte que bom tempo.

Benditos segredos que se arrastam
dentro dos cantares oceânicos.

Nem sempre somos amantes.
Carregadores de vida é o que somos:

papel de jornal velho,
andantes por caminhos eternos,
vidas carregadas de sonhos



(Jessiely Soares)

Dos tempos de distância

http://entremeado.files.wordpress.com/2007/09/horizonte.jpg


Estendi a mão
e tudo era horizonte.

Se eu pudesse,
desfeita a tinta de mar,
retiraria com calma
e poria em aquário
as baleias.

Em sacos de plásticos
os tubarões,
as arraias,
as moréias

e as conchas.

Nas caixas de bombons,
os golfinhos e as tartarugas.

Penduraria enormes linhas imaginárias
entre o seu e o meu lugar.

Com vista panorâmica
para as paredes de mar aberto.

Assim, você cruzaria de bicicleta os nossos mundos
e eu iria lhe explicando tudo

Seriam tantas ostras,
tantas cores
e coisas.

Pequenas cores de terras quentes
por sobre a linha do Equador,
por sobre do Rio Amazonas.

Numa ponte de mar sem ondas.

Estendi a mão
e tudo era horizonte.

E os meus sonhos nem sequer borraram
as tintas escuras
dessa noite tão azul.




(Jessiely Soares)

Dos tempos chuvosos

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEgkbDEADXxwhLW5hTWVDEBYjVxL7vkBhhp8N9gEGcrN1FexXUPeoNpQYzBkvnh_DnexBbZgNg2obl8THpnTE13gOUsgc0yXBF6gPmefFNQVt7RZfXH39LByvAdUW-dQkWhVTdrg75d9n3SF/s400/x287844.JPG

01:36, sábado.

O tempo conjuga
medidas de vida
em ventos polares.

Arranham minha janela
em doses
tão maiores
que meus conhecidos
ares

Se eu abrir a vidraça pro mundo
ele me arrancará tudo.

Tudo que me cabe é um quadrado
muito menor que ela.

Tempestade, tempestade
passa.

A minha vida é uma fragata atracada
já não pode mais
ir ao sabor das velas.



(Jessiely Soares)

sábado, 2 de janeiro de 2010

Cárcere a céu aberto

http://ixamostradepesquisa.pbworks.com/f/rio%20negro%20e%20solim%C3%B5es.jpg



Eram pequenos trechos.
Miúdos como poeira.

Não se misturavam, é fato, tal qual Negro e Solimões; corriam de mãos dadas, mas sem entrelaçar os dedos (como se entrelaçáveis dedos de rio fossem) e tinham um hábito de não gostar de calmarias.

Eram ela e seus rumores.

Uma porção de tartaruguinhas singraram a areia, seguindo o instinto foram se conhecendo oceânicas. O mar era tão valente, elas tão pequeninas, o caminho vasto do desconhecido.

Seus rumores e as tartarugas recém-nascidas.

Se alguém agora conseguisse abrir seus diários de bordo, veria que nada mais havia que uma âncora lançada ao nada e uma contagem errada de vidas, num breve espaço, no alto da página quatro.

Seguiria assim, porque o medo fazia parte da matéria da qual era nascida. Ventos de mudança assanhavam-lhe os cabelos, mas mantinha os pés fincados na rocha por causa da inexistência de algas marinhas para enlançar-lhe as pernas.

Era única e não era valente; sem nau, uma viajante sem velas, numa duna pálida.

Bravias ondas de desertos.


(Jessiely Soares)

Restos





E era tudo tão caquinho

achado
de miudezas

restante de ceia
e de vinho.

Taça
ofegante
cheia de nada

(espaço para
sonhos tintos)

E tudo era contorno de olhares
na casa de lanterna japonesa.

Há quem pinte
oceanos em telas
para afogar sutilezas.

e há
quem fique assim,
retalhos
do que já foi
mentindo poesia para a tristeza.


(Jessiely Soares)

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Ávida


Eu não sei direito...

Ela não faz curvas, nasce reta, caminhando pra frente.
Eu sigo logo atrás, vela na mão, candeeiro pedindo clemência.

Sou a que segura a sombra, a que enfeita o escuro, a que guia a cegueira temporária das manhãs

E, se há algo nesses detalhes esquecidos que eu não conheça, é necessário que se aja com paciência. Afagos de garupas de pensamentos não nascem em ordem crescente ou decrescente. O dia se atrapalha com as carícias das lembranças.

As coisas, quando inseridas em algum momento de amor, seguem sentido próprio.

Um farfalhar de sorrisos, uma história de mata fechada, uma manhã de estuário. A voz dele embaraçada a uma música Cotidiana de Chico.

A vida vai me estirando na estrada de poeira...

Lado a lado, o cajado dela me traçando rotas.

Eu, com meus pequenos temores. Ela, com os seus fios desencapados.




(Jessiely Soares)

Ingr(atos)atos


Há muitas coisas
aladas
por essa vida.

Menos esses meus cegos dias
atados aos desígnios de uma cadeira.

atos ingratos
causam paraplegia
por poesias inteiras



(Jessiely Soares)

Diariedades


Amanhece
e as coisas pequenas
vão se pondo em seus lugares

O costume tem dessas coisas.

A porcelana
reconhece a mesa
diária
e o pão recém nascido

Nada se perde nas
entrelinhas das conversas.

Nada do cerimonial da manhã é esquecido.

Mas em dias de despedida
a louça volta sozinha pra pia
e espera a matrona

Há de ter-se paciência para o banho!

Há dias em que
tudo que existe, incluindo chuva
e coisas da casa
ficam para segundo plano.


(Jessiely Soares)

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Simbologia II


A noite adormece
às 18:00 em ponto
e a vida toda dá corda em seu sistema

no teto solar do mundo
vão surgindo estrelas
e lá fora

com colírio de orvalho
Girassol guarda o olhar do dia.

Eu espirro
porque tenho alergia
ao gato que entra faceiro na sala

Minha filha compõe alguma canção inabitável
e nas paredes, avermelham-se desenhos
que ela estampou

Nada mais fala,
somos apenas um segredo





(Jessiely Soares)

Simbologia







Quando a tarde cala os barulhos de chegada
após o trabalho
eu me faço matrona,jantar e cheiro do café.

Não há solidão aqui desde o Mais Encantado Ano.

Há entre as paredes escurecidas da casa
símbolos de infância,
som de voz de criança
e uma canção desordenada no piano.





Jessiely Soares

sábado, 28 de novembro de 2009

Camiñante - Diários da Distância VI

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Partida à revelia.

O deserto se esgueirava ali, bem em suas costas, tatuado como uma dança de serpentes.
Ela, partida à revelia, carregava num pequeno cantil a casa guardada, segredos de poeira.
Existiria música, e também quem pensasse em lhe agradar os olhos com as ondas barulhentas de um mar sem doçura alguma.

Nômade, catava grãos de pensamentos pelas calçadas arruinadas.

Há pessoas que nascem para o ar, outras tem o corpo de águas marinhas,
ela, arrancada das rochas de seu lugar, era do vento do deserto, das areias do passado, das cidades andarilhas.




(Jessiely Soares)




Imagem: Henri Matisse Naked--1941

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Vulcânica

http://www.grupoescolar.com/a/b/A8FBA.jpg



Quando todos os versos
ainda eram jovens

numa juventude tão profunda
que ainda era possível senti-los tremer

a minha pena cansada
escrevia sob a luz que jazia
aos pés do candeeiro

Era algo tão recentemente nascido
que me era difícil distinguir os filhos

E a poesia era de um vento tempestuoso
que não me deixava ter noites de paz.

Agora, depois de tantos versos passados
tudo parece adormecido
antes mesmo do meu sono pesado
se instalar em minha cama vazia.

E a pena, parece ter estado fincada no tinteiro
sem candeeiro nenhum.

Me torno, pouco a pouco, um arquipélago
onde nadam pensamentos transparentes

Com os versos que já foram vulcões
agora em repouso
como poesia-magma
( poemas-imprevisíveis )
dentro do meu ventre.



(Jessiely Soares)

Diários da distâncias V

https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhjOqeI_tcXpFUC2aHo2Vf9OS_Q9viltvgRvCgPszm2fFytrAZL-U5wjsJ9nArU7LVK5bCrKEfK4mct-oeyurHDedPcgISlm4Zh4e9Bsk6IFej5Jg0rUAqs_7nG_0_romNjPW2thVyji_4/s400/ilustra%C3%A7%C3%A3o+do+centro+hist%C3%B3rico+de+recife.jpg


Como se eterno e sacro fosse
eu me calo aos seus cuidados

e mando para você,
pensamentos ordenados
como trabalho de artista.

Eu, pintora de pensamentos
deixando marcados no vento
coisas lembradas à distância

romance de tintas frescas
pintado em telas de partida.



(Jessiely Soares)

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Poeminha para um dia antigo

http://dudabrama.files.wordpress.com/2009/10/recife-antigo.jpg

.


Era sexta-feira santa
e nada era mais claro
na sequência de postes
pela madrugada

que os teus olhos
de Recife antigo
- refletindo vinho barato -
na calçada.




(Jessiely Soares)



Como é de se esperar, a imagem tem dono: Olha ele aqui.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Quinta estrela

http://mob185.photobucket.com/albums/x93/perdida2007/MULHERES3/estrela_mulher.jpg?t=1242309515


Eu poderia,
numa hora dessas,
ser alguma atriz.

Encenar uma peça
onde no fim da festa
pusesse meu sonhos na ponta da quinta estrela

deixando-os
pendurados
de cabeça para baixo

por um triz.

Ou será
que em todos esses devaneios
em toda essa ideia de esquecer meus anseios

eu já não o fiz?






(Jessiely Soares)

sábado, 14 de novembro de 2009

Diários da distâncias IV

*




Hoje eu estive um dia inteiro só.
Pode-se reconhecer a solidão muito facilmente: Todos os ecos do mundo respondem em apenas sua voz, as paredes são espelhos de um ocaso e há, normalmente, músicas a rolar no ambiente. Ambiente esse que certamente estará mudo.

Nenhum homem deveria estar sozinho sem querer estar. Nem mesmo Baudelaire.
Ele, que concebeu a solidão como virtude, deve, em algum momento da vida, ter sentido essa dor lascinante de que lhe faltava teto e chão.

Solidão é estar presa à janela: a mão em concha, a esperar sereno para companhia, debaixo de um o céu vertendo azul.
O corpo, silenciosamente deitado, buscando sonhos; o sono escondido debaixo do travesseiro.
Nada, nada, completamente nada pela casa. Um cais vazio, barcos largados pelo mundo, garrafas em busca de destinatário.

Telefone mudo.
Porta-retratos mudos.
Meia luz na sala muda.
Um milhão gritos surdos enterrados no peito.

Nenhum homem deveria estar só por obrigação. Sem vinho e nem poesia.
Nenhuma mulher deveria estar sozinha no meio de um sábado de Sol, com esse gosto de musgo grudado nos olhos.
Nem mesmo eu.



(Jessiely Soares)

sábado, 31 de outubro de 2009

Desesperación


De todas as faces das minhas angústias
essa, aqui, refletida na mesa

entre corais e bandejas
essa é a que mais me domina.

Essa, coberta de tantas esferas
essa que a tudo se assemelha

essa que reflete e verseja
essa que mais me ilumina

é a que mais me amedronta.

Essa que me acompanha
quando nada mais me encontra.

Essa que eu nunca confesso,
essa, com a qual nunca sonhei

essa completa e disforme
que me prende e não some

essa estranha insone

essa, meus caros leitores,
essa que sou eu mesma
embebida em tantas tristezas
que eu já nem lhe sei mais o nome.




(Jessiely Soares)

Sueño

http://arturguimaraes.files.wordpress.com/2007/07/sonho1.jpg




Gotejou-me
e eu era terra fértil.

Brotado
decidiu não vingar.

Caule partido.
Deserto imperando,
folhas, raízes, navios de ar,

sem hora de lançar âncoras.




(Jessiely Soares)

Deserto de olhos


http://vozesdomar.blogs.sapo.pt/arquivo/368254.jpg



Há muito não chove.

Pregado no lodo que sequer existe
está meu aprendizado sobre a vida:

Uma lágrima solidificada,
uma mão calcária,
uma fagulha,

umas coisas miúdas,
um álbum de fotografias,

algumas rachaduras mortas,
estraçalhadas de ar.

Uns sorrisos que vovô me dava
balançando na sala
numa cadeira com panos.

Alguma frase para ser
o arremate dos poéticos enganos
e essa vida, por demais vazia

Tudo nas cicatrizes que larguei
para o vento fragmentar.

Já que esse lodo, que sequer existe
tem alguma coisa que eu ainda queria:

olhos de açude rachados de seca,
ruínas de mares, e essas manhãs em que eu não mais me chamo.

Sutis mortes que ainda me deixarão
fóssil,
cinzas
ou poesia.




(Jessiely Soares)

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Cantos para o infinito








Nada cabia ali.
E ao mesmo tempo, cabia um rodopio de ares e gaivotas.

Devagar, com a singeleza dos pequenos afetos, eles se iam e voltavam como marés.
Algumas canções e pingos de água salgada dos cabelos dela, assentavam na areia dos pés dele.

Eram, de repente, soltos em meio a tanta conchas, um veleiro. Com panos de cobrir a vida.

Jovens, decerto, porque ainda eram tingidos com as nuances da inocência.
E todo o paraíso ainda era de nuvens tamanhas que adivinhavam aviões.

E ela nunca havia navegado no Pacífico.
E ele nunca havia visto o Sol nascer no Atlântico.

A vida era uma boca de engolir sonhos, no meio do mar morto, sais de todos os tipos agrupados nos olhos.

E a liberdade cheirava a coisas sublimes.
Eram finalmente dois navegantes das areias infinitas.

Além, muito além do ancoradouro.


(Jessiely Soares)

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Diário da Distância III



Agora perceba, agora, que o ônibus partiu
e a casa inteira pôs-se a  me consolar,
perceba que o mundo inteiro
é composto de uma calma gelada.

Se fosse diferente - note que eu possivelmente serei incoerente -
as efusivas divisas não teriam a duplicação das estradas e
não seriam todas recobertas de asfalto brilhante.
(quando eu era menina, entrei no mar de Tambaú e sujei meus joelhos com piche)
e menos ainda convidativas e iluminadas.

E para que tudo isso existe senão para cultuar a distância?

O ônibus já partiu.
Entre o retrovisor e eu, já há léguas.

Mesmo assim, estou aqui,  com esse frio digno de São Petersburgo,
disposta ainda a lhe fazer um aceno. Uma cena...

Para que você compreenda
que esse mundo, nada mais é que uma agonia longa, asfaltada e portadora de saudades
e que nós, coniventes, chamamos de casa

É uma fábrica de distâncias, para que olhos famintos de companhia
sofram as dores que separam todos nós:

habitantes terrestres
de ninhos reformados,
tolos órfãos da pangéia,
animais sem asas.



(Jessiely Soares)

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Alvenaria




Alguma coisa entre nós, sempre me prende ao romântico:
ao profano, ao sagrado, ao recanto
onde possa construir um descanso
para deitar e ouvir sua voz.

Quero construir, ao redor dessa arquitetura, uma lagoa
e nela pôr patos selvagens.

Quero um afago de cavalos a correr pelos fins de tarde,
quando a serra se tinge de vermelho

Quero um balanço bem grande para brincar de assanhar os cabelos
de minha pequena

Em uma vida nada barroca.

Um banco de descanso, um pôr de sol soberano,
uma casa-inventada-poema.
Com entradas para ventos que saibam cantar cantigas.

Você e eu. A pequenina.
Desenho de dois poetas, casa de fazer poesia;
Como ecos pelo amor de tudo, como cantos a encantar estrelas.

Casa-Poema de inventar mundos,
casa-poema para criar os filhos,
casa-poema de cimento e telhas.


(Jessiely Soares)



IMAGEM - João Barcelos ( AQUI )

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Diário da Distância II




Descobri que meu coração gosta de pontes. Sem importar o rio, os canais: Paraíba, Waal, Capibaribe.
A claridade da água de Porto. O sabor de cerveja das Boas Viagens.

Meu coração gosta da lembrança da pousada com janela pro mar. Do gosto de permanecer adornada pelo Galo da madrugada e por desconhecidos campos de tulipas.

Eu não tenho sensores.
Não gosto de celulares ligados, justamente, porque não sei contornar distâncias pelo fio do telefone.

Eu temo às vezes não ser desse mundo moderno. Por não compartilhar com efemeridade do contentamento da Webcam como porta de saída de para solidão da universalidade.

Meu coração gosta das pontes que cantam frevo. E das que visualizam moinhos.

De distâncias ele só gosta, por ocasião de necessidade: paisagem de pontes, mundos distantes; o homem que amo nos Recifes da vida , a amiga, aventureira, na Holanda e eu, nem ao menos, lhe sei mais a cidade.



Jessiely Soares

sábado, 26 de setembro de 2009

Ella





"Se as minhas mãos pudessem desfolhar"

                                         (Garcia Lorca)

Ela, de acordo com o dicionário, flexão feminina de ele. Metamorfose que cabia no vão de uma porta. Algo inconcluso, como um bordado de meio Sol, que não era sequer eclipse.
De mãos meio acorrentadas, com alguns trocados no bolso, era a imagem da perseverança falha.

Nada lhe pertencia.
Apenas recitava ― calada ― alguns poemas de Lorca, em um tempo de desabitar desejos.

Universo incompleto, desprovida de átomos.
Uma nudez, uma paisagem de seca.

Sequer os desvarios lhe perteciam.

Na breve contagem dos dias, se sentia a perfeição de porcelana: Mãos definidas e paradas, coração de singeleza opaca, boneca indiferente com rosto bonito.

E uma metade de um poema esquecido para ser escrito na lápide.



(Jessiely Soares)

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

P&B



Saudade: Você pousado na sala com uma tez de papel e um sorriso constante.

Deixo minha vida, sentada ao teu lado, 
um retrato, de branco e preto desbotado,


na mudez da estante.


(Jessiely Soares)

Extremos


 Para Nathércia,
Porque todas as Tulipas me lembram ela.



Talvez se antes da rua de pedra alguém plantasse tulipas,
eu sentasse de frente para os meus sonhos e os dissesse:

- Pequeninos, vocês ainda moram comigo?




(Jessiely Soares)

Silêncios



Tenho bordado uma cantiga de ninar por dia.
A noite, tendo ouvido, tem chegado devagar.

Temos adormecido juntas, cantando manhã para pardais.




(Jessiely Soares)

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Diário da distância



Eu quero ter a sensação das cordilheiras
Desabando sobre as flores inocentes e rasteiras
                 (Paulo César Pinheiro)

Vê, agora eu tenho o tempo. E o tempo é assim, algo infernalmente escorregadio e raro.
Mas, vê, agora eu o tenho!

No caminho de casa, arrebolizada por todos os lados, eu tinha nas mãos uns poucos e fracos cheiros de sereno.  É o cúmulo. Porque eu queria mesmo era poder espalhar esse cheiro em um poema.
Acredita que não pude? Eles se dissiparam na curva anterior ao meu portão.

Agora, note, tenho tempo, sereno lá fora e amigos sofrendo. Tudo isso espalhado pelo mundo.
É melancólico isso, eu tenho tempo mas não tenho a cura. O sereno canta e eu não posso pegá-lo. Amigos em outro hemisfério. Não tenho uma ponte de interligação... Nem um vento para chegar de velas e bicicleta!

Começo a me sentir provisória. Pinto sereno nas paredes. Gotícula após gotícula impregno algumas sensações. Formo rostos conhecidos.

Algumas nuvens se aglomeram na lua pela metade. Certas coisas me prendem e eu perco meu tempo a analisar se, de mais algum lugar do mundo, a lua parece ser tão bonita.

Envolvo meus anseios no cheiro do café, migro para a cozinha, como ave para o Sul.
Minha filha me chama na sala, ela construiu um castelo.

O tempo começa sua triste sina de escorregar, eu tento apará-lo com a xícara, mas ele trisca nela, quebra o encanto, derrama meu café e vai embora. E nem leva os cacos junto, ingrato!

Junto cacos, serenos, pormenores e ainda encontro no chão, embaixo da geladeira, um bilhete amassado de quando suas mãos eram presentes.

Não tenho mais tempo... e é bem aqui que eu recomeço. Todavia, não volto ao ponto da primeira partida.

Senão eu ainda teria seu cheiro e uma pangeia para cruzar horizontes.
(Jessiely Soares)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

MULHERES NUAS II




É, meu bem, as coisas andam fazendo sucesso.
Depois da ideia magnífica do Paulinho, o "Mulheres Nuas" o projeto começou a se espalhar pelo país.

Na sua segunda edição, agora aqui no Nordeste (uhul!) estaremos no Maranhão.

De 1º à 4 de setembro. No hall da biblioteca da UFMA. UNIVERSIDADE FEDERAL DO MARANHÃO.

Diariamente, das 09h às 18h.
Entrada franca.

Há mais alguns lugares do país prestes a receber o projeto como... Ah, não, não vou estragar a surpresa :)

Aí está o flyer, agora um tantinho diferente, para abrigar tanta gente.
A grande novidade é que temos mais autoras dessa vez.

:D

Visitem-nos.

Abrações,

Jessiely Soares

Pensando Linear



No horizonte, horas antes do dia se pôr no mar
eu, Oceano pacífico, parto
as geleiras
que se tingem na pele dele.

Quem o vê não sabe, com seu jeito
sem alarde
o quanto é do Sulamericano
o seu vento.

Nem sei como ele pode ser feito de textura de neve
e não derreter
com aquele coração - linha do Equador - que arde lá dentro.



(Jessiely Soares)





 ( Pensando Linear ou André Espinola)